Fungos resistentes

O uso de fungicidas é um dos principais métodos de controle de doenças de plantas, sendo a única forma de controle para diversos problemas fitossanitários. A facilidade de aplicação e os resultados imediatos obtidos os tornaram amplamente difundidos em diversas culturas. Porém, o uso contínuo pode promover a seleção de fungos fitopatogênicos resistentes, não controlados pelo fungicida anteriormente eficaz, colocando em risco a eficiência do método. Assim, o surgimento de fungos fitopatogênicos resistentes a fungicidas é um sério problema que pode por em risco o controle dessas doenças de plantas.

Os fungos causadores das doenças, como outros organismos vivos, podem desenvolver resistência aos produtos tóxicos visando à sobrevivência da espécie. A grande diversidade dos microrganismos e sua intensa capacidade de multiplicação fornecem uma ampla oportunidade para a seleção de linhagens resistentes surgidas espontaneamente. Assim, numa população de fitopatógenos, sensível a um determinado fungicida, células com menor sensibilidade ao produto surgem devido à mutação ou outro mecanismo de variabilidade dos seres vivos. A aplicação do fungicida seleciona as células resistentes, eliminando as sensíveis. Com aplicações sucessivas do mesmo ingrediente ativo, ocorre uma intensa pressão de seleção, fazendo com que as linhagens resistentes predominem na população até o momento em que o produto não tem mais efeito.

Resistência de fungos e prejuízos

Com a resistência, vários prejuízos podem ocorrer. As empresas fabricantes de fungicidas são diretamente prejudicadas. Além disso, avaliações de risco de resistência são realizadas durante o desenvolvimento de novos produtos, exigindo altos investimentos e restringindo o lançamento de fungicidas no mercado. O agricultor, aplicando um fungicida que não controla a doença da cultura, tende a intensificar as aplicações sem obter os resultados esperados, encarecendo a produção. Quando descobre a causa do problema, as perdas já ocorreram. O uso intensivo de produtos pode mascarar o problema, sendo que boa parte do que está sendo aplicado pode não estar contribuindo para o controle. Nessa situação, o consumidor recebe um produto com resíduos de pesticidas, além da possibilidade de maiores preços. Assim, a sociedade, de um modo geral, é prejudicada, visto que vários segmentos sofrem prejuízos e uma maior quantidade de fungicidas é aplicada, contaminando o ambiente.

Vários casos de resistência ocorreram após o lançamento de fungicidas sistêmicos no mercado. Antes, com os produtos protetores ou convencionais, o problema não ocorria pois eles atuam em inúmeros pontos do metabolismo do fungo. Já os sistêmicos atuam em poucos passos do metabolismo, permitindo o desenvolvimento de linhagens resistentes. Os fungicidas do grupo dos benzimidazóis, por exemplo, foram introduzidos no mercado para o controle de doenças de plantas entre as décadas de 1960/70. Nessa época, suas características apresentavam grandes vantagens em relação aos demais produtos em uso, isto é, os protetores como os ditiocarbamatos e cúpricos, que dominavam o controle químico. Seu modo de ação específico permitia uma seletividade diferencial entre o patógeno e a planta hospedeira, garantindo o efeito sistêmico do produto, sem a ocorrência de fitotoxicidade. Tal efeito sistêmico permitia uma ação pós-infecção, o que não ocorria com os demais produtos. Mesmo em baixas dosagens apresentavam-se eficientes no controle de uma ampla gama de patógenos. Com essas vantagens, os benzimidazóis tornaram-se muito populares entre os agricultores, que freqüentemente os usavam como único método de controle. Porém, após alguns poucos anos de uso intensivo, diversos casos de resistência em campo foram relatados. O primeiro relato foi com oídio em pepino cultivado em estufa, após um ano de aplicação, nos Estados Unidos. A resistência de Botrytis cinerea em ciclame foi observada em estufas na Holanda, após dois anos de uso. A seguir, numerosos relatos foram feitos em diversas culturas, marcando o início dos graves problemas com o surgimento de resistência na história dos fungicidas.

História semelhante ocorreu com os fenilamidas. O primeiro caso de resistência a metalaxyl foi relatado em 1980, dois anos após seu lançamento no mercado, para o controle de Pseudoperonospora cubensis em pepinos cultivados em estufa em Israel. A resistência causou uma perda completa do controle da doença e graves prejuízos. Em meados de 1980, uma severa epidemia causada por linhagens de Phytophthora infestans causou grandes perdas em culturas de batata na Holanda e na Irlanda. As principais causas da resistência envolviam o uso exclusivo do fungicida para o controle da doença, as condições extremamente favoráveis para a ocorrência de epidemias e a utilização do produto como curativo. O metalaxyl foi então retirado do mercado pela empresa fabricante, nos dois países. Após algum tempo, o produto foi relançado em mistura com um protetor, sendo iniciada uma estratégia anti-resistência.

Os triazóis foram introduzidos no mercado na década de 1970, quando estavam ocorrendo problemas com outros sistêmicos devido à resistência. Testes de avaliação de risco em laboratório demonstraram uma menor probabilidade de falha no controle, do que os demais produtos. Porém, o otimismo inicial foi reduzido devido a uma série de relatos de resistência para importantes doenças. O primeiro caso foi com Erysiphe graminis f. sp. hordei em cevada, dois anos após a introdução de triadimefon na Inglaterra, em 1978. Também com pepinos cultivados em estufas houve um rápido desenvolvimento de resistência. Porém, os problemas de falha no controle não foram tão evidentes quanto nos casos anteriores.

No Brasil, poucos trabalhos foram desenvolvidos quanto à resistência de fungos a fungicidas. A maior parte dos trabalhos está restrita a relatos de ocorrências de resistência.

Já foram relatados casos com diversos patógenos, como Alternaria dauci, Botrytis cinerea, B. squamosa, Cercosporidium personatum, Colletotrichum fragariae, Cylindrocladium scoparium, Drechslera teres, Fusarium subglutinans f.sp. ananas, Guinardia citricarpa, Glomerella cingulata, Monilinia fructicola, Mycosphaerella fragarie, Penicillium sp., Phytophthora infestans, Plasmopara viticola e Venturia inaequalis.

Controle químico adequado

A pressão de seleção exercida pela aplicação do fungicida é um dos principais fatores, pois pode ser manipulado na estratégia anti-resistência. Ela é diretamente proporcional às doses aplicadas, à freqüência de aplicação, ao grau de cobertura obtido, à persistência na cultura ou no solo, ao tamanho da área tratada. Dessa forma, a tomada de decisão de como vai ser feito o controle químico é um dos pontos fundamentais para evitar o surgimento da resistência.

De modo geral, fungicidas pertencentes ao mesmo grupo químico apresentam resistência cruzada. Isto significa que linhagens resistentes a um fungicida também são resistentes aos demais produtos que possuem o mesmo modo de ação. Essa é uma importante informação que deve ser considerada na escolha dos fungicidas a serem aplicados.

Tentativas isoladas por parte das empresas para desenvolver e implantar estratégias anti-resistência foram apenas parcialmente bem sucedidas. Dessa forma surgiu a idéia da criação de um comitê integrado pelas diversas companhias de fungicidas. Isto porque, sem a estreita colaboração entres as empresas, o problema não poderia ser solucionado. Assim, nasceu o FRAC (Fungicide Resistance Action Committee), que fornece inúmeras informações sobre a situação da resistência aos diversos grupos de fungicidas e métodos para evitar o problema. Os resultados dos monitoramentos são divulgados pela internet, relatando a ocorrência de resistência para diversos países da Europa, principalmente.

No Brasil, foi criado o FRAC-Brasil (Comitê de Ação a Resistência a Fungicidas) com os mesmos propósitos do FRAC, sendo composto pelas principais empresas de fungicidas do país. Trata-se de uma associação dedicada ao fomento à pesquisa e ao desenvolvimento de trabalhos com fungicidas na área de resistência. Além de representantes da indústria, pesquisadores de instituições públicas participam como consultores do FRAC-Brasil.

Os diversos segmentos envolvidos no controle químico de doenças de plantas devem estar conscientes do problema, suas causas e soluções. A transferência de informações e o esforço conjunto poderão evitar as sérias conseqüências advindas da resistência. Por esse motivo, o treinamento por meio de cursos, palestras e publicações a respeito do assunto é fundamental, tanto para engenheiros agrônomos, vendedores ou profissionais ligados à assistência técnica, como para agricultores.

Raquel Ghini,
Embrapa Meio Ambiente

* Este artigo foi publicado na edição número 28 da revista Cultivar Grandes Culturas, de maio de 2001. ver mais artigos
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