Grãos depreciados: podridão branca da espiga do milho

A podridão branca da espiga é uma enfermidade que causa grandes prejuízos na cultura do milho, por afetar diretamente o produto comercial, ou seja, os grãos. Esta doença é causada por dois tipos de fungos, Stenocarpella maydis [sinônimo de Diplodia maydis] e Stenocarpella macrospora [sinônimo de Diplodia macrospora] que podem provocar infecção e resultar em “grãos ardidos”.

Os grãos infectados por estes fungos apresentam coloração marrom (Figura 1) e quando a frequência e a severidade do ataque são altas, observa-se a formação de uma camada esbranquiçada entre as fileiras de grãos na espiga, responsável pelo nome “podridão branca da espiga” (Figura 2). O desenvolvimento da doença tem potencial para atingir parte ou a totalidade da espiga, podendo iniciar-se pela base ou pela ponta da espiga. (Pinto et al, 2006).

A podridão branca da espiga afeta a produção em diversos aspectos, como, por exemplo, a queda na produtividade e nas características dos grãos colhidos, além da produção de micotoxinas que podem influenciar o valor econômico do grão e redução na qualidade nutricional da ração (Molin & Valentini, 1999). Uma maior intensidade de podridões de espiga geralmente acarreta em crescimento da incidência de grãos ardidos, indesejáveis à comercialização, pela exigência das agroindústrias em adquirir matéria-prima de qualidade. Na hora da entrega do produto final o valor pago pode ser reduzido devido à presença de grãos ardidos (Reis et al, 2004).

A podridão branca pode ser controlada de diversas maneiras. Os métodos mais usuais e eficientes são a utilização do controle genético, químico e cultural. Na literatura é possível encontrar alguns trabalhos sobre estes métodos de controle.



Figura 1 - Grãos ardidos

Figura 2 - Espiga com podridão branca

Controle genético

Atualmente há uma grande quantidade de híbridos disponíveis no mercado, muitos apresentados como portadores de resistência genética a diversas doenças. Em 2010 Gralak et al avaliou o comportamento de seis híbridos comerciais, divididos em dois grupos: tolerantes (2B604, P30R50 e Fórmula) e suscetíveis (2B710, DKB390 e P30K64) quanto a S. maydis. Os autores verificaram diferença na suscetibilidade dos híbridos ao fungo causador da podridão branca de espigas, sendo que os híbridos 2B604, P30R50, Fórmula e P30K64 (Tabela 1) apresentaram as menores porcentagens de grãos ardidos. Os autores inferiram que a escolha correta do híbrido é capaz de reduzir as perdas agronômicas de produtividade de grãos.

Tabela 1 - Produção e porcentagem de grãos ardidos de seis híbridos comerciais submetidos à inoculação com o fungo Stenocarpella maydis

Híbrido

Grão ardido (%)

Produtividade (kg ha-1)

2B604

27,66a

10,556b

P30R50

35,33a

11,433a

Fórmula

15,00a

10,000b

2B710

53,33b

9,477 b

DKB390

50,00b

10,992a

P30K64

22,33a

12,162a

CV%

33,94

8,34

Adaptado de Gralak et al, 2010. Comportamento de Híbridos de Milho Comerciais Inoculados a Campo com o Fungo Stenocarpella maydis


Mendes(2010), testando resistência de dez híbridos em relação à resistência ao fungo S. maydis, verificou que o híbrido NB7210 obteve também a maior porcentagem de grãos ardidos, seguido dos híbridos DKB390 e 2B710, sendo os valores superiores a 22% (Tabela 2). Segundo o autor, o fato de ter havido híbridos com elevadas porcentagens de grãos ardidos, quando inoculado com S. maydis, permite inferir que existe diferença entre os híbridos e que possuem comportamento diferente para cada um dos fungos causadores da podridão branca. Para o fungo S. macrospora o híbrido 2B710 obteve a maior incidência de grãos ardidos, com valor de 27%, pertencendo, assim, ao grupo de híbridos considerados suscetíveis. O híbrido que obteve o menor percentual foi o 2A525, com 4,39%, pertencendo assim ao grupo considerado como resistente aos fungos causadores de podridão.

TABELA 2 - Resultados médios de porcentagem de grãos ardidos em dez híbridos de milho, em função da inoculação com os fungos S. maydis e S. macrospora e do tratamento testemunha (T – sem inoculação) em função das safras agrícolas (2006/07 e 2007/08), em sistema de cultivo convencional

HÍBRIDOS

Safra 2006/07

Safra 2007/2008

S. maydis

S. macrospora

Testemunha

S. maydis

S. macrospora

Testemunha

AG 6018

1,60 aB

1,81 aB

3,37 aA

11,43 cA

8,29 cA

2,15 aA

AG 8021

3,17 aB

1,72 aB

2,92 aA

8,46 bA

4,85 bA

4,71 bA

DKB 199

2,84 aA

3,98 aA

2,81 aA

5,87 aA

1,78 aA

3,03 aA

2 A 525

5,10 bB

3,08 aB

3,33 aA

0,84 cA

6,08 cA

3,10 aA

NB 7215

7,74 bB

2,97 aB

3,94 aA

26,33 eA

22,56 eA

5,67 bA

DKB 350

4,60 bB

3,88 aB

2,83 aB

19,65 dA

17,11 dA

6,62 bA

DKB 390

15,08 cB

3,47 aB

2,09 aB

19,07 dA

31,07 gA

6,77 bA

P 30F53

2,33 aB

2,63 aB

2,11 aB

5,78 aA

7,23 cA

9,14 cA

2 B 710

4,81 bB

3,37 aB

2,92 aA

24,89 eA

26,75 eA

4,83 bA

NB 7210

7,08 bB

2,69 aB

3,49 aB

25,12 eA

39,37hA

13,53 dA

Médias seguidas de mesmas letras minúsculas na coluna e maiúsculas na linha pertencem ao mesmo agrupamento pelo teste de Scott Knott, em nível de significância de 5%.

Adaptado de Mendes et al, 2010. Comportamento de híbridos de milho inoculados com os fungos causadores do complexo grãos ardidos.

É importante salientar que em todos os programas de manejo integrado o controle genético deve ser o primeiro a ser adotado. A diferença de materiais comerciais disponíveis no mercado, com diferentes graus de resistência à podridão branca, caracteriza uma vantagem ao produtor no manejo desta enfermidade.

Controle químico

 A utilização do controle químico muitas vezes se faz necessária, diante das perdas em decorrência desta enfermidade. Carvalho et al, 2004, testando a influência de diferentes doses de  thiabendazole na incidência de S. maydis, verificou que o tratamento com fungicida reduziu significativamente a incidência de S. maydis, de aproximadamente 70% nas sementes não tratadas para menos de 10% nas sementes tratadas (Figura 3A).

No mesmo trabalho, no resultado de germinação, verificou-se aumento na porcentagem de sementes germinadas com o aumento das doses utilizadas nos testes (Figuras 3B e 3C). O índice de velocidade de germinação das plântulas foi influenciado pela dose do fungicida utilizado (Figura 3D). Sementes tratadas com thiabendazole, na dose intermediária, apresentaram emergência mais rápida.


FIGURA 3 - Incidência de Stenocarpella maydis (A), germinação (%) em condições de temperatura ideal (B), e no teste de frio (C) e índice de velocidade de germinação (IVG) (D) de sementes de milho (Zea mays) tratadas com diferentes doses de thiabendazole

Fonte: Carvalho et al, 2004. Relação do Tamanho de Sementes de Milho e Doses de Fungicida no Controle de Stenocarpella maydis

Atualmente no site do Ministério da Agricultura e Abastecimento (Mapa) existem apenas dois produtos registrados para o controle de S. maydis, ambos com o mesmo ingrediente ativo e consequentemente mesmo modo de ação. Fato este merecedor de atenção pela impossibilidade de rotação de produto, o que fatalmente aumenta o risco de resistência de isolados a este fungicida.

 

Controle cultural

Apesar de pouco divulgadas e muitas das vezes ignoradas por agricultores, as práticas culturais apresentam grande eficiência no controle de doenças de plantas, especialmente quando os métodos de controle tradicionais não funcionam. Essas práticas são relativamente simples e de baixo custo de implantação.

Em trabalho para verificar o efeito da densidade de plantas na incidência de grãos ardidos, nos sistemas de rotação e monocultura, Trento et al observaram que à medida que se aumenta a densidade de plantas também cresce a incidência de fungos tanto em lavouras conduzidas em sistema de monocultura quanto em rotação de culturas (Figura 4). A população de plantas também pode ser considerada fator importante na incidência das podridões da espiga, a alta densidade de plantas, os altos níveis de nitrogênio e os baixos níveis de potássio como fatores que indicam maior suscetibilidade aos patógenos, além de criarem um microclima favorável ao desenvolvimento dos patógenos.

Outra observação é que em lavouras conduzidas em sistema de monocultura a incidência de grãos ardidos foi maior quando comparada à rotação de culturas. A presença de espigas infectadas remanescentes na superfície do solo de um ano agrícola para outro, como ocorrido na monocultura, serve como fonte de inóculo contribuindo para o aumento da incidência de grãos ardidos nesse sistema.


FIGURA 4 - Efeito da densidade de plantas de milho (Zea mays) na incidência de grãos ardidos em sistemas de rotação e de monocultura

Fonte: Trento et al, 2002. Efeito da rotação de culturas, da monocultura e da densidade de Plantas na incidência de grãos ardidos em milho.

Outra medida cultural importante, que possui influência na incidência da podridão branca e consequentemente em grãos ardidos, é o momento da colheita. Em avaliação dos grãos de milho dos híbridos XL 344 e XL 2124 quanto à incidência de grãos ardidos, Santin et al observou aumento nos dois híbridos cultivados sobre as duas coberturas (aveia e nabo) de solo até a quarta avaliação (Figura 5). Nas avaliações seguintes, foi detectada a redução da incidência de grãos ardidos. Isso se explica, possivelmente, devido ao aumento dos sintomas de colonização dos grãos por fungos ter ocorrido enquanto os grãos apresentavam teores de umidade acima de 18%. Abaixo desse teor de umidade dos grãos, a infecção e a colonização deixam de ser sintomáticas.


FIGURA 5 - Incidência de grãos ardidos (GA) em grãos de milho dos híbridos XL 212 e XL 344, cultivados sobre duas coberturas vegetais do solo,  Av = aveia; Na = nabo, avaliados em sete coletas em intervalos de nove dias

Fonte: Santin et al, 2004. Efeito do retardamento da colheita de milho na incidência de grãos ardidos e de fungos patogênicos.

O controle da podridão branca é possível de diversas maneiras, como escolha de material resistente, uso de defensivos agrícolas e práticas culturais relativamente simples, como rotação de culturas, densidade ideal de plantio e colheita na época adequada. Entretanto, para se realizar um controle eficaz e sustentável ao longo do tempo, deve-se utilizar o maior número de medidas conjuntamente possíveis, evitando adotar apenas uma determinada tática por ser mais fácil ou de menor custo.

Clique aqui para ler o artigo na edição online da Cultivar Grandes Culturas edição 185.

 

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Leandro Alvarenga Santos; Cacilda Márcia Duarte Rios Faria

Unicentro

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