Guerra às viroses do mamão

O Brasil possui grande potencial para produção de fruteiras tropicais, entre as quais se destaca o mamoeiro (Carica papaya L.). Seu centro de origem na América do Sul, mais precisamente na Bacia Amazônica Superior, onde a diversidade genética é máxima, caracteriza o mamoeiro como planta tipicamente tropical. Com o passar do tempo, o mamoeiro estendeu-se às zonas subtropicais, sendo na atualidade, conhecido mundialmente não somente por seu valor nutritivo como também pela sua importância medicinal.

O mamoeiro é uma das poucas plantas frutíferas capazes de produzir durante todo o ano, representando uma das atividades de maior expressão econômica, ressaltando inclusive sua função social, geradora de empregos e absorvente de mão-de-obra de forma continuada.

O mamão é consumido principalmente in natura, porém apresenta diversos usos como produto processado. A industrialização do fruto maduro compreende principalmente a conservação da polpa, matéria-prima para a produção de néctar. O purê de mamão é um produto novo bastante promissor. Outros produtos, que podem ser elaborados do mamão maduro são purê de mamão em calda (compota), mamão cristalizado, salada de frutas tropicais, geléia, confeitos, gelatina, coquetéis, aperitivos, vinhos e champanhes.

No Brasil, as principais cultivares de mamoeiro atualmente exploradas são classificadas nos dois grupos: Solo e Formosa. As cultivares do grupo Solo são materiais geneticamente uniformes, amplamente utilizadas no mundo, havendo no Brasil um predomínio de cultivares: ‘Sunrise Solo´ e ‘Improved Sunrise Solo cv. 72/12´. As cultivares do grupo Formosa abrangem híbridos F1, como o ´Tainung no 1´ e ´Tainung no 2´.

As viroses constituem o principal grupo de doenças que se manifestam no mamoeiro, ocasionando grandes perdas na produção, podendo chegar à destruição total das plantações afetadas, provocando a mudança constante de zonas produtoras, e afastando-as cada vez mais do mercado consumidor. Várias doenças ocasionadas por vírus causam sérios prejuízos para o cultivo do mamoeiro no mundo, sendo que os principais vírus que infetam o mamoeiro no Brasil são: a) o vírus da mancha anelar do mamoeiro (Papaya ringspot virus, PRSV); b) vírus do amarelo letal do mamoeiro (Papaya lethal yellowing virus, PLYV) e c) o vírus da Meleira, o qual se encontra em fase de caracterização.

1. MANCHA ANELAR OU MOSAICO

Dentre as viroses do mamoeiro, a mancha anelar ou mosaico é, inquestionavelmente, a doença de maior importância econômica e a de mais ampla distribuição geográfica. Sua ocorrência no Brasil foi relatada pela primeira vez no Estado de São Paulo em 1969 e, depois, no Ceará em 1973, ocorrendo em todas as regiões do Brasil. Um campo de produção pode apresentar 100% das plantas infectadas no período de quatro a sete meses após o plantio, caso nenhuma forma de controle seja utilizada.

1.1 - Sintomas

A doença manifesta-se na forma de sintomas de mosaico, distorção foliar, manchas oleosas no caule e anéis oleosos nos frutos que constituem a principal característica sintomatológica da doença. As mudas doentes apresentam destacado clareamento de nervuras e as folhas mais jovens ficam encurvadas para baixo, uma a duas semanas após a inoculação. Com o decorrer de algumas semanas, as folhas tornam-se mosqueadas e distorcidas, com os lóbulos bastante reduzidos em tamanho.

1.2 - Características do vírus

A mancha anelar do mamoeiro é causada pelo vírus da mancha anelar do mamoeiro (Papaya ringspot virus, estirpe “Papaya”, PRSV-P) que possui partículas alongadas e flexuosas de 780x12 nm com genoma composto por uma fita de RNA senso positivo e pertence à família Potyviridae, gênero Potyvirus.

O vírus tem sido denominado de diversas formas, causando algumas confusões na literatura, estando o mesmo classificado em dois biótipos distinguíveis por suas características biológicas. O biótipo W (“Watermelon”, PRSV-W), antigamente denominado de vírus - 1 do mosaico da melancia (“Watermelon mosaic virus – 1”, WMV-1) e o biótipo P (“Papaya”, PRSV-P), é capaz de infetar espécies das famílias Caricaceae e Cucurbitaceae, causando grande impacto na produção de mamão em vários países, principalmente no Sudeste da Ásia e no Brasil.

Não existem evidências de transmissão do PRSV-P por semente, no entanto, o vírus é transmitido por mais de 20 diferentes espécies de afídeos de forma não persistente. Embora os afídeos, normalmente, não colonizem plantas de mamoeiro, os processos de aquisição e de inoculação do vírus ocorrem por ocasião das picadas de provas para reconhecimento de seus hospedeiros, durante suas visitas às plantas infectadas e plantas sadias. Por tal razão, a transmissão se dá com mais eficiência, devido às constantes movimentações dos vetores dentro do pomar.

2. AMARELO LETAL

2.1 – Distribuição Geográfica e Ocorrência no Brasil

O amarelo letal do mamoeiro, causado pelo PLYV, foi inicialmente constatado em variedades do grupo Solo no Estado de Pernambuco. Em seguida, a doença foi identificada nos Estados da Bahia, do Rio Grande do Norte, do Ceará e da Paraíba. A dispersão do vírus na região Nordeste vem ocorrendo no sentido leste-oeste, uma vez que o vírus foi detectado em municípios do Estado do Ceará e municípios vizinhos ao Estado do Rio Grande do Norte, não tendo sido constatado ainda no Estado do Piauí nem nos municípios cearenses próximos a sua divisa com aquele Estado.

2.2 – Sintomas da Doença:

Os sintomas do amarelo letal iniciam-se geralmente com o amarelecimento de folhas do terço superior da copa, podendo algumas cair posteriormente. Com a evolução da doença, as folhas apresentam-se ligeiramente retorcidas e com aspecto clorótico (Figura 2). Nos frutos, aparecem manchas circulares, inicialmente esverdeadas, e ,depois, com o amadurecimento, tornam-se amareladas. Com o tempo, as folhas amarelecem, murcham e morrem, levando a planta à morte.

2.3 – Características do vírus:

A doença é ocasionada pelo vírus do amarelo letal do mamoeiro (Papaya lethal yellowing viurs, PLYV), o qual é constituído por partículas isométricas de aproximadamente 30 nm de diâmetro. A presença de grande número de partículas isométricas no interior de vacúolos de plantas infetadas pode ser detectada através de exames eletro-microscópicos de secções ultrafinas de folhas e frutos de plantas com sintomas.

A gama de hospedeiros do PLYV restringe-se, possivelmente, ao gênero Carica. O vírus não foi capaz de infetar experimentalmente nenhuma das espécies vegetais testadas, inclusive as indicadoras para vírus Chenopodium murale L., C. amaranticolor, C. quinoa e Nicotina benthamiana L.

Embora não possua vetor natural, o vírus pode ser eficientemente transmitido de plantas doentes de mamoeiro para plantas sadias pelo método de transmissão mecânica, por enxertia de pequenos pedaços do pecíolo ou nervuras de plantas doentes, por ferramentas utilizadas no corte de plantas infectadas e de plantas sadias, por solos contaminados e por água de rega. A presença do vírus infectivo pode ser detectada em solo naturalmente contaminado, água de rega de plantas infetadas e superfície de sementes obtidas de frutos infetados.

3. MELEIRA

3.1 – Distribuição Geográfica e Ocorrência no Brasil

A meleira do mamoeiro foi relatada pela primeira vez no Estado da Bahia e, em seguida, no Espírito Santo, onde já era conhecida há algum tempo. A partir de 1989, expandiu-se rapidamente, atingindo 100% de incidência em algumas plantações, causando sérios danos à cultura do mamoeiro, tornando-se fator limitante para sua produção, onde a doença vem ocorrendo.

3.2 - Sintomas

A doença caracteriza-se por apresentar uma exsudação de látex nos frutos que oxida, resultando em aspecto “borrado” e “melado”, dando o nome à doença. Essa sintomatologia também é apresentada nos pecíolos e margens das folhas novas, antes da frutificação, que se tornam necróticos após a exsudação do látex. Os frutos apresentam má formação, com manchas zonadas verde clara, depreciando seu valor comercial. O látex dos frutos de plantas com meleira apresenta menor viscosidade, não coagula e, por isso, escorre facilmente.

3.3 – Características do vírus:

Exames de microscopia eletrônica de transmissão do látex de folhas, de frutos e de hastes de mamoeiro com sintomas evidentes da meleira indicam que a doença é ocasionada por um vírus de partículas isométricas, com aproximadamente de 50 nm de diâmetro.

A transmissão mecânica convencional do vírus da meleira para mamoeiro e outras espécies vegetais não foi possível até o momento, no entanto, o vírus foi transmitido para plântulas sadias de mamoeiro via ferimentos com lâminas ou agulhas embebidas em látex de plantas infetadas. Ainda não se conhece a forma de transmissão do vírus no campo.

4. MAMÃO LIVRE DE VÍRUS

Diversas estratégias têm sido adotadas com o intuito de controlar as viroses mamoeiro, destacando-se entre elas: aquelas a seguir descritas:

a) Uso de mudas certificadas:
O uso de mudas infetadas tem contribuído para a larga dispersão da mancha anelar dentro de uma mesma região ou Estado, introduzindo fontes primárias do vírus nos pomares em formação. As mudas infetadas introduzem as fontes de inóculo primário nos pomares e os afídeos promovem a disseminação secundária do vírus dentro do pomar. Portanto, a produção de mudas em telados de telas anti-afídeos e afastados dos campos de produção comercial constitui importante forma para evitar a introdução do vírus numa região, especialmente quando os pomares são instalados em locais sem registro da incidência do vírus. As mudas produzidas em telados devem ser sorologicamente indexadas para PRSV-P e PLYV, recebendo certificados os lotes que se mostrarem livres dos vírus.

b) Plantio em áreas livres do vírus
Esta estratégia de controle deve ser recomendada para os três vírus. Todos os Estados e/ou regiões destinados à produção comercial de mamoeiro devem ser mapeados quanto à presença e graus de incidência de PRSV-P, PLYV e meleira, a fim de possibilitar a seleção de áreas livres de vírus para instalação dos pomares.

c) Evitar consórcio com cucurbitáceas
Considerando que o PRSV-P é capaz de infetar várias espécies de cucurbitáceas, deve-se evitar o plantio dentro ou nas proximidades dos pomares de mamoeiro, a fim de evitar possíveis estabelecimentos de fontes de vírus e de afídeos, em razão da preferência dos afídeos pelas cucurbitáceas. Recomenda-se, também, manter os pomares limpos, especialmente, livres de espécies nativas de cucurbitáceas, para evitar a formação de colônias de afídeos e de possíveis fontes do vírus.

d) Programas de erradicação
Um programa eficiente de erradicação deve compreender a eliminação de todas as fontes de vírus dentro e nas proximidades dos locais onde os pomares serão implantados, independente do tipo de planta ou cultura a ser erradicada. Nos programas de erradicação que devem contar com o apoio das associações de produtores e os órgãos governamentais, todas as plantas de mamoeiro com sintomas desta e de outras viroses devem ser eliminadas, mesmo aquelas que constituam plantios de quintal ou pomares comerciais. Nos pomares já instalados, dependendo do grau de incidência, a prática do “roguing” deve ser usada como medida complementar de controle. O uso do “roguing” tem se mostrado eficiente em algumas áreas, como é o caso de Linhares no Espírito Santo, segundo maior produtor de mamão do Brasil.

e) Proteção cruzada
O fenômeno da proteção cruzada ou premunização consiste na proteção de plantas previamente infetadas por uma estirpe fraca de vírus contra estirpes severas do mesmo vírus. Apesar das pesquisas desenvolvidas no Brasil, em Taiwan e nos Estados Unidos, na busca por estirpes fracas estáveis e protetoras do PRSV-P, os resultados práticos não são consistentes. Algumas estirpes fracas consideradas promissoras em testes experimentais de casa-de-vegetação e campo permaneceram estáveis por apenas curto período de tempo depois de inoculadas em pomares comerciais.

f) Plantas transgênicas
A primeira planta transgênica de mamoeiro resistente ao PRSV foi obtida no início da década de 1990, expressando o gene da capa protéica (cp) de um isolado havaiano mutante PRSV.HA 5-1. A planta geneticamente transformada mostrou-se resistente a este e outros isolados havaianos de PRSV-P, denominada Linha 55-1. Esta estratégia de controle abriu uma nova possibilidade para solução do problema da mancha anelar, de forma mais eficiente e possivelmente mais duradoura. As variedades Rainbow e SunUp, derivadas da linha 55-1, tornaram-se os primeiros mamoeiros transgênicos liberados para comercialização no mundo. Estas variedades transgênicas já foram avaliadas, com sucesso, em condições de campo no distrito de Puna, no Havaí, responsável por 95% do mamão produzido naquele estado Americano, e onde o PRSV-P praticamente destruiu os campos de produção de mamão. Os experimentos de campos confirmaram os elevados graus de resistências nas variedades transgênicas Rainbow e SunUp, durante um período de mais de dois anos, mesmo nas proximidade das variedades locais infetadas pelo vírus. Em 1999 estas variedades foram liberadas para os produtores da Região, existindo hoje mais de 607 ha plantados com as mesmas e os frutos sendo comercializadas nos Estados Unidos. Observações nos pomares comerciais de Rainbow e SunUp, alguns dos quais com mais de dois anos, têm demonstrado a ausência de plantas infetadas pelo vírus.

g) Desinfestação de ferramentas
Proceder a desinfestação das ferramentas agrícolas, especialmente facas e tesouras de poda, com uma solução de 1:10 de hipoclorito de sódio (água sanitária) / água, utilizados nos processos de desbrota, desbaste de frutos e colheita;

h) Cuidados adicionais com a transmissão
Considerando a elevada estabilidade do vírus do amarelo letal (PLYV), em razão da sua capacidade de sobrevivência em solo, água de rega e superfície de sementes obtidas de frutos infetados, bem como sua transmissão por ferramentas de corte, cuidados devem ser tomados no sentido de evitar a transmissão do vírus dentro de um mesmo pomar e entre pomares de uma mesma região, através de mudas produzidas em solos contaminados.

Roberto C. de Araújo Lima,
Seagri-Ceará
J. Albérsio de Araújo Lima,
Universidade Federal do Ceará

* Este artigo foi publicado na edição número 14 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de junho/julho de 2002. ver mais artigos
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