Horizonte rendilhado pela falsa medideira

A lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis includens), considerada praga secundária na soja nos anos de 1980 e 1990, ganhou importância nas últimas duas décadas, tornando-se uma das lagartas de maior ocorrência na soja. C. includens por muito tempo foi mantida em baixa densidade populacional em resposta à ocorrência de parasitoides e fungos entomopatogênicos, como Nomuraea rileyi. Porém, uma série de eventos fitossanitários mudou o manejo de insetos-praga, doenças e plantas daninhas em soja com alterações na sua proporção e importância. O uso intensivo, principalmente de fungicidas e de inseticidas, além da característica de tolerar doses maiores de inseticidas quando comparada com outras espécies, favoreceu a elevada ocorrência e predominância de C. includens entre os lepidópteros.

O manejo de insetos-praga em soja está mudando novamente com o uso da soja Bt, que expressa a toxina Cry1Ac, de Bacillus thuringiensis, e controla a maioria das espécies de lagartas com exceção das lagartas-pretas, as spodopteras. A adoção da soja Bt pelos produtores representa em torno de 70% da área semeada com a cultura no Brasil. Essa tecnologia apresenta controle eficaz de falsa-medideira. Porém, sua ocorrência deve ser monitorada constantemente em virtude de possíveis escapes que podem vir a ocorrer ao longo dos anos de cultivo de soja Bt no Brasil e sobretudo nas áreas de soja RR.

Identificação e biologia

Conhecer as características morfológicas e biológicas de C. includens é o primeiro passo para o manejo correto e eficaz dessa espécie, pois ainda há confusões no campo com a identificação, principalmente em relação à lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) e à Helicoverpa armigera, que podem ter colorações semelhantes às da falsa-medideira.

Os adultos de C. includens medem 35mm de envergadura, possuem coloração marrom-escura com aspecto dourado e apresentam duas manchas prateadas no primeiro par de asas (Figura 1A). As fêmeas depositam em média 700 ovos de forma individual na face inferior das folhas e, principalmente, nos terços médio e inferior do dossel da soja (Figura 1B). Inicialmente, os ovos são de cor clara e, próximo à eclosão das larvas, tornam-se marrons. As lagartas desenvolvidas medem de 30mm a 35mm e apresentam coloração verde com linhas longitudinais de cor branca e dois pares de falsas pernas, além de um par de pernas no último segmento do abdômen (Figura 1C). Quando se locomovem, formam um arco com o corpo que lhes confere o nome comum de lagarta mede-palmo ou lagarta-falsa-medideira.

As lagartas são frequentemente observadas nos terços médio e inferior do dossel da soja, em decorrência do local preferencial de oviposição das fêmeas de C. includens. Além disso, a maior ocorrência de C. includens se dá no período reprodutivo da soja, quando o dossel está fechado. Esse comportamento dificulta o uso eficiente da tecnologia de aplicação e o controle pelos inseticidas, uma vez que as gotas pulverizadas dificilmente atingem o interior do dossel e as lagartas.

As lagartas grandes, a partir do quinto instar, formam um casulo nas folhas de soja quando passam para a fase de pupa (Figura 1D). O ciclo de vida de C. includens de ovo-adulto dura, aproximadamente, 25 dias, mas pode variar dependendo da temperatura e da disponibilidade e da qualidade das folhas de soja.

Figura 1 - Chrysodeixis includens nas fases de adulto (a), ovo (b), lagarta (c) e pupa (d)
Figura 1 - Chrysodeixis includens nas fases de adulto (a), ovo (b), lagarta (c) e pupa (d)

Danos por desfolha

A lagarta-falsa-medideira alimenta-se das folhas de soja, deixando somente as nervuras intactas, conferindo um aspecto rendilhado de desfolha (Figura 2). Tal injúria reduz a área fotossintética e a unidade armazenadora de fotoassimilados para o enchimento de grãos. Devido ao tipo de dano nas folhas ser indireto, o percentual de desfolha, o número de lagartas e a perda de soja em kg/ha, normalmente, não seguem uma relação direta e proporcional com as diferentes cultivares de soja. Nesse sentido, os níveis de controle de C. includens estão sendo reavaliados nos Estados Unidos e deveriam também ser revalidados nas condições brasileiras. Alguns trabalhos americanos relatam que 12 lagartas de C. includens coletadas em 25 tomadas de amostras com rede entomológica, ou 9,6 lagartas/m2 amostradas com pano de batida já seriam suficientes para ocasionar 20% de desfolha. Isso representa um nível de tolerância extremamente baixo para as condições atuais e requer uma reavaliação dos níveis de controle utilizados no Brasil.

Figura 2 - Injúria rendilhada na folha de soja proporcionada pela lagarta-falsa-medideira
Figura 2 - Injúria rendilhada na folha de soja proporcionada pela lagarta-falsa-medideira.

Conhecer o potencial de dano dessa praga por desfolha é uma das bases da tomada de decisão do controle, pois esse pode ser muito variado entre as cultivares e o estágio da soja, região de cultivo, déficit hídrico, bem como o estado nutricional da planta. As recomendações atuais estimam que as plantas de soja suportam 30% de desfolha no estágio vegetativo e 15% de desfolha no estágio reprodutivo, ou seja, o controle deve ser iniciado quando forem atingidos esses níveis. Entretanto, esses níveis de desfolha foram estabelecidos com cultivares de baixo potencial produtivo e de elevado índice de área foliar (IAF), por isso necessitam de estudos mais detalhados para as condições atuais.

Considerando uma cultivar de soja com IAF = 12, que significa 12m2 de área (120.000cm2) ocupados com folhas de soja em 1m2 de área de solo, a planta teoricamente suportaria 30% ou 36.000cm2 de desfolha no estágio vegetativo e 15% ou 18.000cm2 de desfolha no estágio reprodutivo (Figura 3). Nessa condição, muitas cultivares com baixo potencial produtivo eram beneficiadas por um pouco de desfolha, resultando em maior penetração de luz no dossel e menor perda de folhas por senescência. Por outro lado, muitas cultivares usadas atualmente com alto potencial produtivo (6.000kg/ha), que possuem grupo de maturidade relativa - GMR<6.9, atingem cerca de IAF = 6 (60.000cm2/m2), o que torna a planta mais sensível a qualquer tipo de injúria nas folhas. Nesse caso de IAF = 6m2/m2, os 30% de desfolha representam 18.000cm2 de área foliar consumida e 15% representam 9.000cm2, o que pode reduzir até um IAF de 4,2m2/m2 e, consequentemente, comprometer o potencial produtivo da cultivar de soja.

Figura 3 - Percentuais de desfolha em diferentes índices de área foliar da soja
Figura 3 - Percentuais de desfolha em diferentes índices de área foliar da soja.

Portanto, os níveis de controle de C. includens em soja, considerando a desfolha, devem ser reestabelecidos de acordo com os índices de área foliar e a tolerância de cada cultivar em seus respectivos GMRs. As cultivares mudaram, o potencial produtivo aumentou, o custo da semente cresceu e a unidade de área foliar possui uma elevada significância para manter o potencial produtivo.

Controle químico

Foram realizados experimentos de campo para verificar os índices de controle dos mais variados inseticidas registrados e recomendados para o manejo de falsa-medideira em soja. Os experimentos foram conduzidos sob infestação natural de C. includens (> 10 lagartas/m2), durante três safras (2014, 2015 e 2016), no município de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foram realizadas avaliações do número de lagartas pequenas (< 1,5cm) e grandes (> 1,5cm), com a utilização do pano-de-batida vertical com calha, amostrando 1m2 por parcela, aos três dias, sete dias e 14 dias após aplicação (DAA). Também, foi avaliada a desfolha da soja, seguindo a escala proposta por Stewart (2014).

Grande parte dos inseticidas testados apresentou dificuldades para alcançar um controle satisfatório de lagartas pequenas e grandes e mostraram desempenhos inconsistentes entre as safras agrícolas (Figura 4). Ao contrário, os inseticidas clorfenapir (> 70% de controle) e indoxacarbe (> 60% de controle) apresentaram consistência nos resultados ao longo dos anos, tanto para lagartas pequenas, quanto para lagartas grandes. Esses produtos são pró-inseticidas, ou seja, são moléculas que necessitam ser bioativadas por enzimas metabólicas do próprio inseto (Citocromo P450) após a ingestão de uma folha tratada, o que explica a elevada eficácia em falsa-medideira. Assim, devido à elevada expressão de enzimas metabólicas em C. includens, o clorfenapir e o indoxacarbe proporcionam ação rápida (efeito “knockdown” rápido), pois reduzem a densidade populacional logo aos três dias após a aplicação. Além desses, os tratamentos com clorpirifós apresentou bom desempenho para lagartas pequenas e grandes com controle médio próximo aos 50%.

Figura 4 - Eficácia de inseticidas em lagarta-falsa-medideira (pequenas e grandes). Adaptado de Perini et al. (2019)
Figura 4 - Eficácia de inseticidas em lagarta-falsa-medideira (pequenas e grandes). Adaptado de Perini et al. (2019)

Alguns inseticidas controlaram de forma eficaz as lagartas pequenas, principalmente o espinetoram, que possui atividade translaminar, ou seja, tem capacidade de penetrar na cutícula superior da folha e atravessar para a parte inferior e controlar as lagartas pequenas (< 1,5cm) que, preferencialmente, permanecem na parte de baixo da folha de soja. Logo, o posicionamento de espinetoram deve ser no início da infestação com lagartas pequenas. O desempenho dos inseticidas melhora quando são realizadas duas aplicações em um intervalo de sete dias, principalmente para espinetoram, indoxacarbe, metoxifenozida, diflubenzuron + clorpirifos e flubendiamida + tiodicarbe, com redução significativa do percentual de desfolha (Figura 5).

Figura 5 - Desfolha da soja proporcionada por falsa-medideira entre uma e duas aplicações de inseticida
Figura 5 - Desfolha da soja proporcionada por falsa-medideira entre uma e duas aplicações de inseticida.

A baixa eficácia de muitos inseticidas no controle de C. includens desperta curiosidades. Como C. includens é uma praga que ocorre apenas nas Américas, uma das curiosidades foi a pesquisa dos produtos e das doses recomendadas nos Estados Unidos, onde essa praga também é importante. Muitos inseticidas recomendados para o controle de falsa-medideira, nos EUA, utilizam-se de doses maiores do que as registradas ou recomendadas no Brasil (Tabela 1), podendo chegar até 7,5 vezes a mais, como é o caso de clorantraniliprole. Portanto, mesmo que as condições ambientais, as cultivares de soja e as próprias populações de C. includens dos EUA difiram do Brasil, não há justificativa plausível para tal diferença, e as falhas de controle no Brasil possivelmente estejam associadas às baixas doses dos inseticidas. Por outro lado, o inseticida clorfenapir tem recomendação de dose maior no Brasil e é um dos inseticidas mais eficazes.

O registro de inseticidas no Brasil passa por um processo extremamente rigoroso e burocrático, que leva em torno de cinco anos a dez anos para o produto estar disponível comercialmente para o produtor. Desde o momento em que os estudos de controle de pragas são conduzidos para gerar os laudos de eficácia agronômica, com as respectivas doses eficazes de registro, passam-se vários anos até o uso comercial e, consequentemente, podem ter seu lançamento defasado, tanto em alvo (surgem novos alvos) quanto em doses que não apresentam mais a eficácia satisfatória. Esse processo soma-se às dificuldades e às falhas no manejo de falsa-medideira, uma vez que a maior parte dos inseticidas lagarticidas teve seu registro em um período em que a ocorrência dessa praga era secundária e as doses eficazes eram menores. Nesse sentido, é de extrema importância a atualização das doses dos produtos registrados em diferentes locais e o monitoramento da eficácia de controle.

Manejo em Soja Bt e não Bt

Considerando as dificuldades para o controle de C. includens em soja, o monitoramento é a base para o manejo assertivo nas lavouras, pois o reconhecimento e a quantificação devem ser constantes durante todo o ciclo, seja em soja não Bt, como também em soja Bt. Nas sojas sem a tecnologia Bt, que ocupam aproximadamente 30% da área cultivada de soja no Brasil, o controle de C. includens é realizado, principalmente, com inseticidas químicos. Além desses, os inseticidas biológicos à base de baculovírus e Bt ganharam importância nos últimos anos e, por isso, aumentou o número de produtos registrados e disponíveis para o produtor, o que amplia o uso e se torna uma interessante alternativa no manejo de lagartas.

O cultivo de soja Bt no Brasil foi iniciado em 2013 e surgiu como um novo método para o controle de lagartas, principalmente para a lagarta-falsa-medideira, a lagarta helicoverpa e a lagarta-da-soja, que são eficientemente controladas por essa tecnologia. Porém, o monitoramento e o manejo das espécies e das populações nas áreas cultivadas com soja Bt devem ser realizados da mesma forma que em uma lavoura não Bt. Assim como ocorreu com o milho Bt, é muito provável que a soja Bt seja adotada em quase 100% da área, proporcionando pressão de seleção ao longo dos anos sobre as espécies de lagartas, o que pode acarretar em aumento de indivíduos e de populações resistentes e, consequentemente, na perda dessa importante tecnologia para o manejo de lepidópteros-praga em soja. Outra tática de manejo, que deve estar presente no cultivo de soja Bt, é o uso de áreas de refúgio, que é o local da lavoura destinado para o cultivo de soja não Bt, a fim de proporcionar a reprodução de insetos suscetíveis e evitar e/ou retardar os problemas com resistência de lagartas à tecnologia Bt.

Portanto, para o controle eficaz de C. includens deve-se considerar principalmente o tipo da soja cultivada e os inseticidas a serem utilizados quando ocorrer infestações com potencial de causar dano à cultura. Dentre os inseticidas utilizados para o controle de C. includens, o clorfenapir, o indoxacarbe, o clorpirifós e o espinetoram apresentam eficácia no controle dessa espécie e podem ser usados em rotação no controle dessa praga. Além disso, o uso conjunto de outras táticas de controle disponíveis e eficazes, como a soja Bt, os inseticidas biológicos à base de baculovírus e Bt e a rotação dessas táticas são fundamentais para um manejo assertivo e duradouro de C. includens em qualquer sistema de produção.

Clérison R. Perini, Regis F. Stacke, Regina S. Stacke, Ricardo Froehlich, Dayanna N. Machado, Letícia Puntel, Verlaine Selli, Matheus Ceolin, William B. Daltrozo e Jerson C. Guedes, Universidade Federal de Santa Maria - LabMIP

Artigo publicado na edição 251 da Cultivar Grandes Culturas.


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