Importância da escolha da cultivar de trigo para plantios na região Sul

O trigo (Triticum aestivum L.) é uma espécie que, devido ao seu aprimoramento genético, possui atualmente ampla adaptação edafoclimática, sendo cultivado desde regiões com clima desértico, em alguns países do Oriente Médio, até regiões com alta precipitação pluvial, como é o caso de China e Índia (Cadore & Marcolin, 2011). A partir do conhecimento das características das cultivares de trigo e do seu potencial produtivo, pode-se escolher as melhores cultivares para assim maximizar a produção de grãos de determinada região.

Atualmente, a produção anual mundial do trigo é superior a 640 milhões de toneladas, representando a segunda maior produção de grãos em nível mundial, sendo superada somente pelo milho. Essa situação permite que essa cultura tenha uma significativa contribuição na economia agrícola, sendo considerado alimento básico pelos inúmeros derivados obtidos de sua industrialização, como pães, massas, biscoitos, entre outros (Cadore & Marcolin, 2011). Além disso, pode ser utilizada na redução da erosão nos períodos de maior incidência de chuvas no inverno, pela boa quantidade de palha que permanece no solo na rotação de culturas. Com isso, estima-se que há uma redução aproximada de 20% nos custos das lavouras de verão que são precedidas pelo trigo (Colle, 1998), sendo esta, fundamental para o sistema de rotação de culturas e consolidação do plantio direto na região Sul do Brasil.

No Rio Grande do Sul, a área semeada tem se estabilizado em aproximadamente um milhão de hectares, sendo 6,4% superior na safra 2012/2013 em relação à safra anterior. Isso ocorreu devido ao bom valor de venda do produto, estimulado por uma relação limitada entre oferta e demanda local e a ocorrência de insuficiência na produção dos principais fornecedores internacionais (Conab, 2014).

As causas para os aumentos produtivos da cultura do trigo são a redução do ciclo das cultivares aliado com a maior eficiência das cultivares em converter água e CO2 em matéria seca, resistência e/ou tolerância a doenças, acamamento, debulha natural e melhoria na qualidade industrial dos grãos. Fatores relacionados à qualidade da semeadura, como espaçamento, profundidade e densidade populacional adequados, respeitando o período indicado para a semeadura conforme recomendações do zoneamento agrícola para região produtora, bem como investimentos em calagem e a fertilização. O manejo de plantas invasoras, doenças e pragas é fundamental para se atingir o máximo potencial da cultivar escolhida (Embrapa, 2011).

Nas últimas décadas, o advento de novas tecnologias possibilitou o aumento da produtividade média da lavoura de trigo que era de 700kg/há (anos de 1950 a 1960) para mais de oito mil kg/há (Embrapa, 2013). Em média, a substituição das cultivares de trigo permite a ampliação da produtividade em 44,9kg/ha/ano. Sendo que essa evolução é uma das maiores considerando 13 estudos internacionais realizados em diversos países.

No mercado brasileiro, o produtor dispõe de mais de 106 cultivares de trigo (disponibilidade do mercado de sementes e registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) para cultivo em três regiões tritícolas. Essas cultivares possuem adaptação nas mais diversas realidades e padrões tecnológicos, entretanto, pouco se conhece a respeito do seu desenvolvimento nas diferentes regiões e condições climáticas do Brasil, o que torna o processo decisório difícil e com elevado grau de incerteza.

Para a identificação de qual a cultivar ideal para cada área, é necessária a realização de experimentos em diferentes locais contrastantes, em que várias cultivares são avaliadas (Cargnin et al, 2006). Entretanto, para determinados caracteres de interesse, principalmente produção de grãos, ocorre a interação dos genótipos com os ambientes, que é uma resposta diferencial dos genótipos frente à modificação do ambiente (Allard, 1999), o que dificulta a identificação das cultivares superiores, quando ocorre inconstância de desempenho nos diferentes ambientes (Carvalho et al, 2002). Contudo, ao considerar-se uma propriedade, não é recomendado basear-se em apenas uma cultivar, mas em um conjunto de cultivares que podem ser utilizadas em função de sua dimensão e de sua capacidade de manejo. Nesse contexto, este trabalho apresenta uma discussão a respeito de cultivares de trigo, juntamente com as suas características para a região central do Rio Grande do Sul, a fim de auxiliar os produtores na definição das cultivares para a próxima safra.

O trabalho foi realizado em dois locais distintos, sendo um na área experimental do Grupo de Pesquisa em Grandes Culturas, do Departamento de Fitotecnia do Centro de Ciências Rurais, no campus da Universidade Federal de Santa Maria, e o outro na Cooperativa Central Gaúcha LTDA (CCGL), no município de Cruz Alta, Rio Grande do Sul.

Na área experimental de Santa Maria foram utilizadas 11 cultivares de trigo semeadas em 6 de junho de 2013. Em Cruz Alta, na CCGL, foram conduzidos dois ensaios pertencentes à rede de Ensaio Estadual de Cultivares (EECT) de responsabilidade da Fepagro com emprego de 30 cultivares de diferentes obtentores. As semeaduras para Cruz Alta ocorreram nos dias 1° de junho de 2013 e 25 de junho de 2013. Ao verificar as médias das características avaliadas (Tabela 1), observa-se a massa do hectolitro (kg/hl), considerada como uma medida indireta da qualidade do trigo e muito utilizada para classificação por ocasião da comercialização. No Brasil, o trigo é comercializado utilizando-se, como valor de referência, MH igual a 78kg/hl. A obtenção de um alto valor de MH significa maior rendimento em farinha na moagem. Fatores adversos à lavoura, como, por exemplo, chuvas no momento da maturação fisiológica, fazem baixar o MH. No experimento realizado, exceto para a cultivar Fundacep Bravo (MH 72kg/hl), as demais cultivares apresentaram bom MH, entre 77kg/hl e 78kg/hl.

No que diz respeito à produtividade de grãos (Tabela 1 – Santa Maria), observou-se que as cultivares Tbio Itaipu (4.628kg/ha), Quartzo (4.350kg/ha), Mirante (4.107kg/ha) e BRS 327 (4.057kg/ha) são as que apresentaram os melhores resultados. Ao comparar-se com a média de produtividade do estado do Rio Grande do Sul nesta mesma safra, que foi de 3.060kg/ha, estas cultivares apresentam acréscimo médio de 40% em relação à média do estado. A cultivar com a menor produção de grãos é a Tarumã, com uma média de 2.464kg/ha (deve-se considerar que se trata de material com dupla aptidão e que não foi submetida ao pastejo). A produtividade de grãos é uma medida que apresenta forte controle genético, sendo muito dependente do manejo adotado pelo produtor e das condições edafoclimáticas durante todo o ciclo da cultura.

Na variável massa de mil grãos (MMG) pode-se observar que as cultivares BRS 327 e Mirante apresentaram as maiores médias, sendo 41,09 gramas e 40,27 gramas, respectivamente. Este parâmetro é utilizado para classificar o trigo, já que grãos de tamanho excessivo não são desejados pela indústria, pois podem provocar perdas devido às dificuldades de regulagem dos equipamentos de limpeza e moagem. Em contrapartida, grãos muito pequenos podem passar pelas peneiras de limpeza e causar perdas na produção de farinha, pela diminuição da quantidade de trigo moído (Gutkoski et al, 2007). Este parâmetro é muito importante para estimar a produtividade dos cultivos e, no caso de sementes, a qualidade do lote e cálculo da densidade de semeadura (Cunha, 2004)

Tabela 1 – Média da massa de hectolitro (MH, kg/hl), produção de grãos (PG, kg/ha), e massa de mil grãos (MMG, g) de diferentes cultivares de trigo. Santa Maria, RS, 2013

CULTIVAR

MH

PG

MMG

BRS TARUMÃ

78 a

2464 c

26,90 d

OR/BIOTRIGO QUARTZO

77 a

4350 a

36,17 b

OR/BIOTRIGO MIRANTE

77 a

4107 a

40,27 a

TBIO ITAIPU

77 a

4628 a

36,50 b

FUNDACEP RAIZES

78 a

3382 b

34,67 b

FUNDACEP BRAVO

72 b

3782 b

29,49 c

BRS 327

77 a

4057 a

41,09 a

TBIO PIONEIRO

77 a

3661 b

33,89 b

BRS GUAMIRIM

78 a

3953 b

35,96 b

BRS331

78 a

3852 b

32,52 c

TEC VIGORE

77 a

3772 b

30,56 c

MÉDIA

76,9

3819

34,36

CV (%)

2,11

10,86

5,82

*Médias seguidas pela mesma letra na coluna não diferem estatisticamente pelo teste de Skott-Knott (p>0,05).

Na Tabela 2, são apresentados os resultados de produtividade do EECT 2013, para a média geral do estado do Rio Grande do Sul, e os números de duas épocas de semeadura em Cruz Alta. Levando em consideração a média geral do estado, pode-se destacar algumas cultivares, como TBIO Sinuelo (5.541kg/ha), Mirante (5.312kg/ha), TEC Vigore (5.217kg/ha), TBIO Mestre (5.187kg/ha) e Quartzo (5.136kg/ha). Os resultados da média estadual permitem verificar a estabilidade produtiva das cultivares que ficaram nas cinco primeiras posições, o que aumenta a chance de sucesso na escolha de uma destas cultivares.

Em Cruz Alta, na primeira época de semeadura, pode-se destacar entre as cinco cultivares mais produtivas Mirante (7.788kg/ha), BRS328 (7.504kg/ha), Ametista (7.463kg/ha), TEC Vigore (7.411kg/ha) e TBIO Mestre (7.281kg/ha). Já na segunda época de semeadura, estão entre as cinco melhores classificadas as cultivares BRS 327 (3.819kg/ha), TBIO Itaipu (3.713kg/ha), TBIO Tibagi (3.642kg/ha), Mirante (3.590kg/ha) e Fundacep 52 (3.580kg/ha).

Tabela 2 - Produtividade (Prod) (kg ha-1), posição na classificação geral (Class) e grupo de classificação estatística (Estat) pelo teste de Skott-Knott (α = 0,05) para genótipos avaliados no Ensaio Estadual de Cultivares de Trigo 2013. Fepagro – RS

Genótipo

EECT 2013

Média Geral do RS

Cruz Alta (1/6)

Cruz Alta (25/6)

Prod¹

Class²

Estat³

Prod

Class

Estat

Prod

Class

Estat

AMETISTA

4.825

14

d

7.463

3

a

2.837

30

b

BRS 327

4.790

18

d

6.095

22

b

3.819

1

a

BRS 328

4.511

25

e

7.504

2

a

3.403

15

a

BRS 331

4.395

28

e

5.956

24

b

2.870

29

b

GUAMIRIM

4.552

24

e

6.053

23

b

3.510

9

a

PARRUDO

4.998

9

c

7.133

8

a

2.983

26

b

CAMPEIRO

4.798

16

d

7.043

10

a

3.301

18

a

CD 1440

4.822

15

d

7.232

7

a

3.128

24

b

CD 1550

4.671

21

d

6.176

21

b

3.038

25

b

ESTRELA ATRIA

5.040

7

c

4.824

30

b

3.468

11

a

FUNDACEP 52

4.795

17

d

6.799

15

a

3.580

5

a

FCEP BRAVO

4.634

22

d

5.956

25

b

3.444

14

a

HORIZONTE

4.916

11

c

6.863

12

a

3.453

13

a

FCEP RAÍZES

4.487

27

e

6.835

13

a

3.295

19

a

JADEÍTE 11

4.831

13

d

6.390

20

b

3.280

20

a

JF 90

4.489

26

e

6.424

19

b

3.475

10

a

MARFIM

4.706

20

d

6.829

14

a

2.965

27

b

MIRANTE

5.312

2

b

7.788

1

a

3.590

4

a

QUARTZO

5.136

5

b

6.907

11

a

3.527

7

a

TBIO ALVORADA

4.736

19

d

5.824

27

b

2.919

28

b

TBIO IGUAÇU

5.033

8

c

7.235

6

a

3.357

16

a

TBIO ITAIPU

5.063

6

c

6.747

17

a

3.713

2

a

TBIO MESTRE

5.187

4

b

7.281

5

a

3.460

12

a

TBIO PIONEIRO

4.994

10

c

6.525

18

a

3.515

8

a

TBIO SELETO

4.332

30

e

5.534

29

b

3.166

22

b

TBIO SINUELO

5.541

1

a

7.055

9

a

3.267

21

a

TBIO TIBAGI

4.386

29

e

5.841

26

b

3.642

3

a

TEC FRONTALE

4.569

23

e

5.777

28

b

3.350

17

a

TEC VIGORE

5.217

3

b

7.411

4

a

3.534

6

a

TOPAZIO

4.842

12

d

6.756

16

a

3.164

23

b

CV (%)

11,40

11,58

11,65

¹Prod: Produtividade de grãos (kg ha-1). ²Class: Posição da cultivar na classificação. ³Estat: Resultado da comparação de médias pelo teste de Skott-Knott ao nível de 5% de probabilidade.

FONTE: Fepagro, 2013

Os resultados completos do EECT 2013 podem ser acessados pelo site: http://www.fepagro.rs.gov.br/upload/1395063424_Relatorio Resultados EECT 2013 (versão site).pdf. Além dos números de produtividade, podem ser encontrados dados de MH, MMG ciclo, estatura de plantas e locais de condução dos ensaios, servindo de ferramenta para o produtor conhecer o desempenho das cultivares na sua região.

O sucesso de uma lavoura comercial depende necessariamente do desempenho agronômico das cultivares que estão sendo implantadas, da adaptabilidade e da estabilidade de genótipos de trigo, que auxiliam o melhorista na recomendação de novos materiais e de quais as cultivares existentes no mercado possuem melhores resultados nos locais onde estão sendo semeadas, indicando linhagens de adaptação ampla ou específica aos ambientes. Esse procedimento é particularmente importante para a cultura do trigo, principalmente levando em consideração a grande diversidade de ambientes a que o cereal é submetido no Rio Grande do Sul.

Além disso, deve-se considerar a reação das cultivares às principais doenças que incidem sobre a cultura. No que diz respeito ao manejo de doenças, deve-se utilizar diversas estratégias, que incluem rotação de culturas e de cultivares.

A escolha da cultivar adequada, somada aos fatores do ambiente como a distribuição da precipitação pluvial e temperatura, uma correta adubação e o estabelecimento de esquemas de rotação de culturas com leguminosas, aliados a um manejo fitossanitário adequado, compõe os principais fatores que devem ser observados para a obtenção da qualidade tecnológica desejada. E isso deve sempre ser acompanhado do emprego de uma cultivar que responda ou expresse o seu máximo potencial nas diversas condições a que são expostas. Com informações importantes a respeito do desempenho destas cultivares, o produtor estará pronto para a escolha do material que responda às características de sua propriedade, auxiliando assim na sua tomada de decisão. Além disso, deve-se observar o zoneamento e o ciclo de cada cultivar adaptando as cultivares existentes no mercado de sementes às exigências, necessidades e potencialidades das áreas a serem semeadas com trigo.

Confira o artigo na edição 181 da Grandes Culturas.


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