Impacto elevado: prejuízos causados pelo leiteiro na soja

No Brasil, o leiteiro ou amendoim bravo (Euphorbia heterophylla) é uma das principais espécies daninhas que afetam o rendimento de plantas cultivadas. O leiteiro é uma planta de ciclo anual, com grande capacidade de produção de sementes. Na década de 70, quando a cultura da soja apenas engatinhava nas áreas brasileiras, o leiteiro era considerado uma espécie daninha secundária. A utilização por bastante tempo da associação dos herbicidas trifluralina e metribuzin, que não controlam o leiteiro, nas áreas de soja, acabou por selecioná-lo, tornando-o uma das principais espécies daninhas no Brasil, atingindo importantes espécies cultivadas. O grande impacto causado pelo leiteiro ocorre devido a várias causas, dentre as quais destacam-se aspectos biológicos da espécie, sua capacidade competitiva e a resistência de populações a herbicidas.

Figura 1 – Lavoura de soja com grande infestação de leiteiro (E. heterophylla). Foto: Michelangelo Muzell Trezzi

Características biológicas do leiteiro

Dentre as características biológicas que dificultam o controle do leiteiro em áreas de lavoura, destacam-se o rápido desenvolvimento inicial, a emergência em fluxos, a grande produção de sementes e a capacidade de rebrota. O rápido desenvolvimento inicial é característica típica de espécies pioneiras capazes de drenar os recursos do meio para si, dificultando seu acesso às plantas cultivadas.

As sementes de leiteiro são disseminadas de forma “explosiva" e, a partir do solo, a emergência ocorre em fluxos, o que torna o controle químico mais difícil, pois as aplicações em pós-emergência das plantas são capazes de atingir o primeiro fluxo, mas em geral não controlam fluxos posteriores. A emergência em fluxos ocorre porque o processo é dependente principalmente da temperatura do solo e da radiação solar. Assim, alternâncias de temperatura de 25/30ºC estimulam a germinação do leiteiro e a germinação das sementes pode ser sensível ou insensível à radiação, dependendo da época do ano em que as sementes maturaram na planta mãe. O resultado prático disso é que podem ser necessárias grandes quantidades de palha na superfície do solo para conter a emergência do leiteiro. Por exemplo, são necessárias 23 toneladas por hectare de palha de sorgo para reduzir 50% da emergência do leiteiro, enquanto para a guanxuma e o picão-preto, por exemplo, bastam cerca de 1,5 tonelada por hectare a 2 toneladas por hectare para se obter o mesmo efeito. Isso contribui com certeza para que essa espécie encontre-se cada vez mais disseminada, mesmo em áreas com muitos anos em plantio direto com palha.

Competição do leiteiro com espécies cultivadas

O potencial competitivo do leiteiro com espécies cultivadas contribui grandemente para o impacto negativo dessa espécie, pois impõe perdas diárias significativas às culturas. Experimentos apontam perdas diárias de 5,2kg/ha até 6,5kg/ha de grãos de soja resultante do convívio com o leiteiro. Cerca de 32 plantas por m2 são suficientes para gerar 50% de redução do rendimento da soja.

A emergência antecipada do leiteiro em relação às culturas de grãos pode incrementar o dano gerado pois a espécie daninha se adianta e se torna mais competitiva que a cultivada. Experimento conduzido pelo grupo de pesquisa do Núcleo de Investigações em Ciência das Plantas Daninhas (Niped), na UTFPR Campus Pato Branco, com a cultura do feijão aponta que plantas de leiteiro que emergem 12 dias antes da cultura resultam em perda máxima de 63%, enquanto a emergência em conjunto com feijão resulta em perda de apenas 44% (Figura 2). Ou seja, a escolha da estratégia adequada de dessecação pode trazer resultados positivos, evitando perdas de rendimento de grãos e incrementando a receita do agricultor.

Figura 2 – Perda percentual de rendimento de feijão em função de diferentes densidades e épocas de emergência de E. heterophylla. DAS = dias antes da semeadura do feijão. UTFPR, Campus Pato Branco

Figura 3 – Competição de leiteiro com plantas de feijão. Foto: Adriano Machado

Impacto da variabilidade genética da espécie

O leiteiro é nativo das regiões tropicais e subtropicais das américas e o provável centro de origem se encontra no Paraguai e Sudoeste/Oeste do Paraná. Portanto, nesta região essa espécie possui elevada variabilidade genética, traduzida em grande variação morfológica (formato de folhas, pilosidade no caule, ciclo etc) e também fisiológica/bioquímica (variação na absorção, translocação e metabolização de herbicidas, insensibilidade das enzimas a alguns herbicidas etc).

A conjunção de intensificação da utilização de determinados herbicidas sem a devida rotação, áreas com elevadas populações e alta variabilidade genética do leiteiro determinou a face mais nefasta desta espécie, as populações resistentes a herbicidas (Tabela 1). Os primeiros casos de leiteiro resistente no Brasil ocorreram na década de 90, ao mecanismo de ação dos inibidores da ALS (herbicidas Pivot, Scepter etc), que se generalizaram em lavouras da região Sul do Brasil. Em 2004, o grupo de pesquisa do Niped registrou casos mais preocupantes, de resistência múltipla aos inibidores da ALS e Protox (herbicidas Flex, Cobra etc), na região Sudoeste do Paraná. Esse foi o primeiro caso de uma planta daninha com resistência múltipla no Brasil. No ano de 2013, o Niped confirmou a existência de dois novos casos de leiteiro com resistência múltipla aos inibidores da ALS e da Protox, em Medianeira (Paraná) e Vilhena (Rondônia). Se com a resistência de uma população daninha a um mecanismo de ação os agricultores são impedidos de utilizar vários herbicidas do mesmo mecanismo, com a resistência múltipla os produtores perdem também outras alternativas. Em uma comparação, equivaleria a perder muitos antibióticos capazes de controlar bactérias resistentes existentes em hospitais.

Mesmo populações muito distantes geograficamente apresentam características similares de resistência aos herbicidas inibidores da ALS e da Protox. Além disso, apresentam resistência a herbicidas que nunca foram anteriormente aplicados nas áreas. Já se sabe que a resistência do leiteiro aos herbicidas inibidores da ALS deve-se a uma modificação da enzima ALS, o que a torna insensível aos herbicidas e, consequentemente, a enzima continua produzindo aminoácidos essenciais à sobrevivência das plantas. Atualmente, investiga-se a causa da resistência do leiteiro aos inibidores da Protox.

Tabela 1 – Casos de resistência em leiteiro confirmados no mundo, como país e ano de descoberta, culturas em que foram constatados e mecanismos de ação/herbicidas

Localidade

Ano

Culturas em que foi constatada resistência

Mecanismos de ação/herbicidas

Equador

1990

Milho e soja

Inibidores do Fotossistema II-linuron

Paraná - Rio Grande do Sul/ Brasil

1993

Soja

Inibidores da ALS - chlorimuron-etil, cloransulam-metil, imazamox, imazaquin e imazethapyr

Itapua/Paraguai

1995

Soja

Inibidor da ALS - imazethapyr

Paraná/Brasil

2004

Milho e soja

Resistência múltipla aos inibidores da ALS e da Protox - acifluorfen-sodium, cloransulam-metil, diclosulam, flumetsulam, flumiclorac-pentil, fomesafen, imazethapyr, lactofen, metsulfuron-metil e nicosulfuron

Fonte: Adaptado de The International Survey of Herbicide Resistant Weeds. www.weedscience.org, 2014.

Por quanto tempo populações resistentes persistem nas lavouras?

Quando surge uma população resistente, uma das primeiras consequências reside no fato de que os agricultores passam a não utilizar mais os herbicidas selecionadores das plantas daninhas resistentes. A substituição dos herbicidas por outros mais eficientes, no entanto, não significa que os propágulos do banco sejam eliminados das áreas de lavoura. Como a utilização de antigos herbicidas pode ser uma necessidade dos agricultores, é preciso conhecer o tempo de permanência das sementes nas áreas.

O Niped investigou em 2013 a persistência de populações resistentes aos inibidores da ALS e ALS/Protox em áreas da região Sudoeste do Paraná, cuja resistência a herbicidas tinha sido detectada no ano de 2002 (Figura 4). Descobriu-se que, em todas as áreas, populações resistentes aos inibidores da ALS e Protox permanecem ainda hoje, ou seja, mesmo após dez anos. Esta informação é um alerta para dificuldades que poderão ser encontradas pelos agricultores no manejo do leiteiro em áreas onde anteriormente fora constatada a resistência e se deseja aplicar novamente os herbicidas selecionadores. Com essa informação tem-se a dimensão do nível de conhecimento que os técnicos deverão ter dos talhões e das áreas de lavoura que já possuíam espécies daninhas resistentes a herbicidas ao longo do tempo, ou seja, é muito importante que detenham o histórico das áreas, situação que é agravada em casos de resistência múltipla.

Figura 4 - Níveis de controle de populações de leiteiro resistentes a herbicidas inibidores da ALS após aplicação de herbicidas: A) visão geral de controle, B) controle com inibidores da Protox (fomesafen), C) com inibidores da EPSPS (glifosato), D) com inibidores da ALS (imazethapyr). Foto: Elouize Xavier

Considerações finais

A existência de características biológicas favoráveis, de elevada capacidade competitiva e de alta variabilidade genética tem aumentado o impacto do leiteiro sobre culturas de lavoura e também agravou a dificuldade para controlar essa espécie daninha. A pesquisa, assistência técnica e agricultores devem se preparar para enfrentar o problema, que apresenta grau de complexidade cada vez maior e, consequentemente, necessita de uma maior complexidade nas soluções apresentadas. É importante salientar que preceitos básicos do manejo de plantas daninhas são fundamentais para reduzir os impactos negativos desta espécie e de outras daninhas. Destacam-se a integração de métodos de manejo (preventivo, cultural, químico), com o objetivo de reduzir as populações de plantas daninhas nas áreas; a rotação de culturas e de mecanismos de ação herbicida; o controle das daninhas em estádios de desenvolvimento precoce e nos períodos em que estas plantas impactam menos sobre as culturas; não utilizar subdoses de herbicidas e o emprego de tecnologia de aplicação adequada, entre outros.

Este artigo foi publicado na edição 183 da revista Cultivar Grandes Culturas. Clique aqui para ler a edição.

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Michelangelo Muzell Trezzi, Adriano Bresciani Machado e Elouize Xavier

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