Manejo de resistência a plantas daninhas

As plantas daninhas representam atualmente um enorme desafio para agricultores de todo o mundo e são responsáveis por perdas na produtividade das lavouras, em diferentes cultivos. Além de competir por fatores vitais ao desenvolvimento das culturas, também podem provocar perda na qualidade agrícola do produto final. Diversos autores demonstram que as médias de perdas ocasionadas pela interferência das plantas daninhas estão entre 20% e 80%. Este fato não se deve apenas ao crescimento do número de espécies que infestam as propriedades agrícolas, mas também à mudança da flora existente, contendo variados biótipos da mesma espécie, entre eles, plantas resistentes a herbicidas para um ou múltiplos mecanismos de ação.

Em termos de sensibilidade a herbicidas, pode-se dividir as plantas daninhas em três grupos: suscetíveis, tolerantes e resistentes. As plantas daninhas suscetíveis são aquelas que, uma vez aplicada uma dose padrão recomendada do herbicida, sua população é reduzida a uma forma que não consegue finalizar seu desenvolvimento. Por tolerantes, consideram-se as plantas que possuem uma capacidade própria da espécie de tolerar a aplicação do herbicida e, mesmo que apresente algum tipo de dano, conseguirá finalizar seu ciclo, ainda que apresente alguma limitação.

Já as plantas resistentes são aquelas que, de alguma forma, demonstram a capacidade de sobreviver à aplicação de herbicidas, mesmo que em doses elevadas. A resistência das plantas pode decorrer de mutações genéticas das plantas (difícil de ocorrer no ambiente), de modificações biotecnológicas de interesse agrícola (introdução de gene de tolerância a herbicida específico) ou da seleção de biótipos, sendo este o mais corriqueiro.

FATOR RESISTÊNCIA

Os primeiros casos de resistência constatados ocorreram nos Estados Unidos (EUA) e no Canadá na década de 50, porém, somente foram reportados, oficialmente, em 1998, pela Sociedade Americana da Ciência das Plantas Daninhas (WSSA, na sigla em inglês). Em menos de 60 anos após o primeiro registro, houve um salto para 434 casos catalogados no mundo, com 237 espécies sendo reportadas em 82 culturas em 65 países (doutor Ian Heap - Pesquisa Internacional de Plantas Daninhas Resistentes a Herbicidas).

O cenário se agrava ao serem constatados números superiores a 80% de redução da produtividade das lavouras quando infestadas pelas plantas daninhas, que disputam com os cultivos por água e nutrientes. Alguns estudos realizados por instituições brasileiras de pesquisa relatam que aproximadamente 18 plantas de buva (Conyza ssp.) por m2 podem reduzir em até 50% a produtividade da soja, e este número se torna ainda mais preocupante quando se analisa a capacidade desta planta de se reproduzir: apenas uma planta de buva pode produzir até 200 mil sementes.

IMPORTÂNCIA DO MANEJO

A necessidade de um controle completo das daninhas para evitar sua disseminação torna-se requisito indispensável quando se pensa no gerenciamento das plantas daninhas. Utilizando os EUA como exemplo, verifica-se que, nos últimos dois anos, o número de hectares infestados com plantas daninhas reportadas como resistentes ao glifosato aumentou em 80%, e a baixa eficiência de controle permite que as plantas se multipliquem ano após ano.

Os atuais sistemas para controle de plantas daninhas mostram sinais da necessidade de uso de novas tecnologias. E para tornar ainda mais complexa a situação de controle de daninhas, tem-se que a maior parte das culturas tolerantes a herbicidas baseia-se em um único gene ou produto: o glifosato. Pelas questões abordadas, o aparecimento de plantas daninhas resistentes, além da disseminação de outras de difícil controle em culturas como soja, milho e algodão, aponta para o fato de que, em grande parte dos casos, o glifosato, sozinho, não é mais uma alternativa eficiente.

Gráfico - Número de casos de resistência a um único mecanismo de ação


Contudo, não apenas a resistência ao herbicida glifosato (EPSPs) tem preocupado os agricultores. Em 2014, mais de 45 plantas daninhas resistentes a herbicidas no Brasil e aproximadamente 160 nos EUA estão registradas. Mais do que isso, hoje são encontradas plantas com resistência múltipla, ou seja, resistentes a mais de um mecanismo de ação de herbicidas. O Amaranthus tuberculatus (uma espécie de caruru, presente nas propriedades americanas) já pode ser encontrado com resistência a quatro diferentes mecanismos de ação.

Dificilmente os níveis de resistências voltarão aos patamares do passado, uma vez que as plantas resistentes foram selecionadas, porém, o gerenciamento das áreas agrícolas é uma ferramenta de extrema importância para que sejam mantidos os níveis de controle das plantas daninhas.

Alguns pontos devem ser seguidos e certamente irão auxiliar no manejo destas daninhas. Iniciar aceitando que as plantas daninhas de difícil controle e resistentes são uma realidade no entorno de sua propriedade é o ponto de partida do agricultor. A partir daí, aplicar táticas de manejo sustentáveis, prever riscos e balancear investimentos são ações que irão auxiliar a prevenir e reduzir perdas ocasionadas pelas plantas daninhas.

O desenvolvimento de um plano de ação de médio/longo prazo também é peça-chave neste contexto. É importante ter em mente que não apenas a cultura semeada/implantada é a fonte do sucesso, como também outras atividades durante todo o ano, a exemplo da utilização de culturas de cobertura, da rotação de cultivos, do manejo de plantas daninhas durante período entressafra (pousio), evitando a “chuva de sementes" – que aumenta o banco de sementes do solo por múltiplos anos –, da limpeza de equipamentos, da rotação de mecanismos de ação de herbicidas, da adoção de práticas culturais diferenciadas e do uso de sementes de alta qualidade e performance.

Além de implantar todos os itens por um longo período, também é necessário monitorar o plano de ação e verificar seus efeitos, ajustando o que for necessário. O sucesso para o manejo de plantas daninhas de difícil controle ou resistentes está não só no uso correto das práticas adotadas, como também na validação do que foi empregado.

Outro fator crucial diz respeito ao correto entendimento dos herbicidas e de sua aplicação. Compreender os diferentes mecanismos de ação empregados, adequando a realidade da planta daninha e da área a ser tratada, usar corretamente a dose indicada do produto para o estádio da planta daninha, utilizar equipamentos de aplicação regulados e condizentes com a área de aplicação e a cultura-alvo – levando em consideração as variedades ambientes e a combinação de herbicidas –, são fatores básicos para ter sucesso no controle destas pragas.

NOVAS TECNOLOGIAS

As novas ferramentas para controle das plantas daninhas que algumas empresas têm trabalhado para disponibilizar aos agricultores vêm através do emprego da biotecnologia no desenvolvimento de plantas tolerantes à aplicação de mais de um mecanismo de ação, auxiliando o gerenciamento da resistência. Entre as soluções tecnológicas mais recentes e que estão em fase de aprovação para comercialização, está o Sistema Enlist™ de Controle de Plantas Daninhas, tecnologia desenvolvida empresa Dow AgroSciences para dar sustentabilidade e aprimorar as práticas agrícolas tradicionais, como o plantio direto e o manejo integrado de culturas, com ganho de eficiência, com ampla flexibilidade de utilização, e assim entregando produtividade no campo em culturas como soja, milho e algodão.

Essa tecnologia oferece uma nova opção de manejo de plantas daninhas e ainda oferecerá controle de lagartas na soja, contendo as características provenientes da biotecnologia de tolerância a múltiplos grupos herbicidas e resistência a insetos, aliadas a uma inovadora solução herbicida.

  • Em soja, contém genes de tolerância a três herbicidas com diferentes modos de ação: auxínicos, EPSPs e glutamina sintetase. Já em milho, contém genes tolerantes aos herbicidas com quatro diferentes mecanismos de ação: auxínicos, EPSPs, glutamina sintetase e ACCase (haloxifope).

O sistema inclui um pacote tecnológico de tolerância a herbicidas com uma formulação inovadora de Sal Colina (sal quaternário de amônia). Nele, encontra-se a tecnologia proprietária Colex-D, uma nova formulação do tradicional 2,4-D, que oferecerá benefícios importantes ao agricultor, entre os quais: ultrabaixa volatilidade, que diminui a possibilidade de o produto se transformar em gás e se dispersar; agente antideriva, que reduz a chance de o herbicida atingir o que não for seu alvo; e odor reduzido, além de características melhoradas de manejo e disponibilidade em mistura pronta com glifosato, mantendo o controle de amplo espectro das plantas daninhas de folha larga.

A tecnologia Enlist já foi submetida para registro, regulamentação e autorização para comercialização no Brasil nas agências reguladoras responsáveis, sendo disponibilizada ao mercado brasileiro assim que cumpridas todas as etapas de registro.

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Sistema Enlist - Aliado também no combate a lagartas

No Brasil, além de conter genes tolerantes a três diferentes tipos herbicidas, o Sistema Enlist™ de Controle de Plantas Daninhas para a soja expressa duas proteínas Bt (Bacillus thuringiensis), o que torna também resistente às espécies mais comuns de lagartas que atacam as lavouras brasileiras. Entre elas, a da soja (Anticarsia gemmatalis), da maçã (Heliothis virescens), da falsa-medideira (Chrisodeixis includens) e do cartucho (Spodoptera frugiperda).

Já o milho Enlist deverá agregar, no futuro, a tecnologia Powercore, plataforma já adotada com sucesso no mercado brasileiro. Desta forma, além da tolerância aos herbicidas, o milho vai agregar a resistência a insetos lepidópteros, a exemplo de lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), broca-do-colmo (Diatraea saccharalis), lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea), lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus) e lagarta-rosca (Agrotis ipsilon).


Este artigo foi publicado na edição 184 da revista Cultivar Grandes Culturas. Clique aqui para ler a edição.

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Felipe Ridolfo Lucio

Dow Agrosciences

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