Importância do tratamento de sementes de soja

Para a obtenção de uma lavoura de soja com estande adequado, plântulas vigorosas e consequentemente elevadas produtividades, é fundamental a utilização de sementes com altas qualidades física, fisiológica, genética e sanitária

Sementes com alta qualidade sanitária são aquelas livres da presença de fitopatógenos, que associados se tornam um dos meios mais eficientes de se introduzir e acumular inóculo de patógenos em áreas de cultivo, o que acarreta na redução do poder germinativo e do nível de vigor das sementes, limitando assim a produtividade e aumentando o custo de produção.

O tratamento de sementes é uma técnica que tem por objetivo assegurar a qualidade sanitária das sementes, através da aplicação de produtos químicos eficientes para controlar fitopatógenos, principalmente fungos associados às sementes ou presentes no solo, além de atuar contra o ataque inicial de pragas específicas do solo, protegendo as plântulas durante o processo germinativo e de emergência.

Entre os principais fungos transmitidos via sementes e causadores de doenças na cultura da soja, destacam-se: Phomopsis sp. (queima da haste e da vagem); Colletotrichum dematium var. truncata (antracnose); Cercospora kikuchii (mancha púrpura); Macrophomina phaseolina (podridão negra das raízes); Rhizoctonia solani (tombamento e morte em reboleira); Sclerotinia sclerotiorum (podridão branca da haste e da vagem); Fusarium sp. Além desses fitopatógenos, os fungos responsáveis por perdas durante o armazenamento são dos gêneros Aspergillus e Penicillium. Sendo Aspergillus flavus o mais frequente. Atualmente, o tratamento de sementes tem incorporado também inseticidas (além de fungicidas) para controlar insetos-praga, que podem ocorrer em determinadas áreas ou lavouras. Entre as principais pragas que atacam a cultura da soja, encontram-se: tamanduá-da-soja (Sternuchus subsignatus), os corós (Demodema brevitarsis, Diloboderus abderus e Plyllophaga triticophaga), as vaquinhas (Diabrotica speciosa e outras espécies), a lagarta elasmo ou broca-do-colo (Elasmopalpus lignosellus), as lesmas e os caracóis.

O tratamento das sementes geralmente é realizado tanto na Unidade de Beneficiamento de Sementes (UBS) quanto na propriedade, antes da semeadura. Em relação ao tratamento na UBS, em muitas empresas o tratamento de sementes industrial (TSI) já faz parte das etapas do beneficiamento das sementes, sendo realizado com a utilização de equipamentos especiais e altamente sofisticados, que podem combinar a aplicação de fungicidas, inseticidas, micronutrientes, nematicidas, entre outros produtos. Este tipo de tratamento tem ganhado espaço no mercado de sementes de soja (cerca de 40% das sementes são tratadas neste sistema), pois no mercado verticalizado de sementes de milho esta tecnologia já está estabelecida, em que grande parte das empresas que vendem as sementes já realiza o tratamento no pré-ensaque, antes do armazenamento ou no momento da entrega das sementes ao produtor.

Este tratamento realizado na UBS apresenta uma série de vantagens em relação ao tratamento convencional (tambor), tais como: maior precisão do volume de calda e quantidade de sementes a serem utilizadas, proporciona melhor cobertura da semente com o produto químico, menor risco de intoxicação dos operadores e maiores rendimentos por hora (existem no mercado máquinas para tratamento industrial, com capacidade de tratar até 20 toneladas de sementes por hora). Entretanto, deve-se tomar cuidado com os pacotes de tratamento de sementes, pois muitas vezes é utilizada uma ampla gama de produtos na mesma semente, como a combinação de fungicidas, inseticidas, inoculantes, micronutrientes, nematicidas, reguladores de crescimento e polímeros, que podem causar fitotoxicidade às sementes, além do impacto ambiental, devido ao excesso de produtos utilizados que, muitas vezes, não são necessários em determinadas realidades agrícolas ou situações.

O efeito fitotóxico pode afetar a qualidade fisiológica das sementes, reduzir a germinação e a emergência de plântulas, por provocar engrossamento, encurtamento, rigidez e fissuras longitudinais em hipocótilos, principalmente em semeaduras profundas, atrofia do sistema radicular, retardamento do desenvolvimento vegetativo da parte aérea das plantas, associado ao encurtamento da distância de entrenós e em algumas situações a presença de multibrotamento no nó cotiledonar, reduzindo assim o estabelecimento e a produtividade da cultura.

Diante disso, é fundamental que os agricultores fiquem atentos à forma que o mercado impõe esses pacotes de tratamento de sementes, devendo ser levados em consideração alguns aspectos antes da sua realização, como:

  • Necessidade do tratamento: antes de realizar o tratamento, o agricultor deve conhecer a necessidade da sua lavoura, pois de nada adianta tratar as sementes de soja com determinados inseticidas, nematicidas, entre outros produtos de ação específica, se não existe a presença destes possíveis fungos, insetos-praga ou nematoides em sua área, para que a finalidade do tratamento não se torne infrutífera.
  • Eficiência dos produtos: um aspecto muito importante é conhecer a eficiência dos produtos (Tabela 1) que estão sendo aplicados nas sementes. Para isso o técnico que irá recomendar o tratamento, deve estar constantemente informado, através de dados de pesquisa ou informações técnicas, a fim de evitar uma aplicação menos eficiente e que somente elevará o custo da produção final da lavoura.
  • Compatibilidade dos produtos: é necessário sempre utilizar os produtos que são recomendados para a cultura e conhecer a compatibilidade entre as formulações aplicadas, como ao efetuar a aplicação de inoculantes, pois em alguns trabalhos é possível verificar a redução da eficiência de alguns inoculantes através da influência de produtos (fungicidas).
  • Volume de calda: este é um aspecto muito importante, pois, com a ampla variedade de produtos e pacotes para o tratamento de sementes de soja existentes no mercado, muitas vezes são aplicadas várias formulações, que podem exceder o volume de calda recomendado (antigamente 600 ml/100kg de sementes), quando os produtos eram pós secos (em sua maioria) e a água era usada como o veículo para a aplicação dos fungicidas. Atualmente, a maioria dos produtos (misturas de fungicidas de contato + sistêmico) já vem formulada com outros veículos, incluindo corantes, polímeros etc. Por essa razão, dependendo dos produtos (formulações), volumes de até 1.100ml/100kg de sementes já foram empregados sem prejuízo à qualidade das sementes. Porém, vale ressaltar que as sementes têm que ter alta qualidade fisiológica (germinação e principalmente vigor) e a semeadura deve ser efetuada logo após o tratamento. Sementes com danos mecânicos, baixo vigor, tendem a soltar o tegumento quando se utilizam volumes elevados de calda, prejudicando a qualidade da semente, em desacordo com o objetivo do tratamento.
  • ØArmazenamento após o tratamento: é importante ficar atento, pois ainda não se tem comprovado quais os efeitos que os tratamentos com volumes elevados de calda podem ocasionar nas sementes ao longo do período de armazenamento. Estudos estão sendo conduzidos na Embrapa Soja e os resultados estarão disponíveis já para a próxima safra.

Tabela 1 - Atividade específica de fungicidas em sementes de soja. Reunião de Pesquisa de Soja da Região Sul, Passo Fundo (RS), 2012

Ingrediente ativo

Pythium

Phytophthora

Rhizoctonia

Phomopsis

Fusarium

captan

bom

baixo

bom

regular

regular

carbendazim

baixo

baixo

ineficaz

Bom

bom

carboxin + thiram

baixo

ineficaz

regular

bom/regular

bom/regular

difenoconazol

baixo

baixo

ineficaz

Baixo

baixo

fludioxonil

baixo

baixo

bom

regular

regular

metalaxyl

excelente

excelente*

ineficaz

ineficaz

ineficaz

piraclostrobina

bom

ineficaz

bom

ineficaz

bom

tiabendazol

baixo

baixo

?

excelente

excelente

tiofanato metílico

baixo

baixo

?

Bom

bom

thiram

Regular

baixo

bom

regular

regular

tolilfluanida

Ineficaz

ineficaz

ineficaz

regular

regular

*este efeito só é obtido se o produto contiver doses de metalaxyl entre 15,5 e 31g i.a./100kg de sementes, e se for usado em cultivares de soja com alta resistência de campo à fitóftora. (Fonte: Drª Leila Costa Milan, Embrapa Trigo).

Histórico do tratamento de sementes

A primeira recomendação de tratamento de sementes com fungicidas em soja, para a maioria dos estados produtores do Brasil, ocorreu oficialmente em 1981. Porém, somente em 1983, esta técnica foi estendida para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, abrangendo, dessa maneira, todas as regiões brasileiras.

No Brasil, decorridos 32 anos desde a sua primeira recomendação, a tecnologia de tratamento de sementes de soja apresentou muitos avanços. Atualmente, cerca de 95% das sementes são tratadas com fungicidas, 90% com inseticidas, 50% com micronutrientes e produtos de recobrimento (film coating) à base de polímeros que asseguram cobertura e aderência uniformes às sementes (Baudet e Peske, 2006). A utilização de fungicidas e inseticidas via tratamento de sementes representa aproximadamente 7,6% do mercado de agroquímicos no país, mas que representa um custo pequeno em relação ao grande potencial de retorno do investimento.

Clique aqui para ler o artigo completa na edição 173 da Cultivar Grandes Culturas.

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Julia Abati, Cristian Rafael Brzezinski (Mestrandos da UEL – Universidade Estadual de Londrina) e Ademir Assis Henning (Embrapa Soja)