Importância do tratamento de sementes de trigo

Cuidar da sanidade do material genético utilizado nas lavouras de trigo é tarefa indispensável para obter bons resultados e evitar prejuízos não somente na safra atual, mas também nos cultivos subsequentes. O tratamento de sementes é uma alternativa para ao menos minimizar a incidência de doenças causadas por fungos e bactérias.

Para obter sucesso na lavoura de trigo é imprescindível cuidar da sanidade das sementes, com especial cuidado aos patógenos vinculados a estes materiais genéticos, pois dão continuidade ao ciclo biológico.

As sementes podem abrigar e transportar microrganismos de todos os grupos taxonômicos, patogênicos ou não. Por isso a detecção desses organismos torna-se uma das mais importantes ferramentas no manejo fitossanitário de doenças. Os resultados dos testes empregados para este fim podem indicar a ausência de patógenos ou, ainda, caso o patógeno esteja presente, o nível de inóculo nas sementes.

A incidência e severidade dos patógenos variam com o tempo e em função de diversos fatores, como localização, temperatura e umidade. Assim, é importante o monitoramento contínuo a fim de supervisionar qualitativa e quantitativamente a presença desses patógenos veiculados às sementes de trigo (Brancão, 2008).

A adoção de medidas conjuntas, como rotação de culturas, eliminação de plantas voluntárias e de hospedeiros secundários, tratamento e utilização de sementes sadias, uso de cultivares resistentes, aplicação de fungicidas e de produtos alternativos, tornam mais eficiente o controle das doenças do trigo (Santos et al, 2011).

Dos fitopatógenos encontrados nas sementes de trigo, os fungos são os mais numerosos e importantes que atacam os cereais de inverno. É o caso de Alternaria, fungo extremamente comum e saprofítico, conhecido como mancha de alternária, caracterizado pela ocorrência de um ponto negro no local da penetração do fungo, com um halo amarelecido ao redor pouco proeminente, porém não se desenvolve sobre as nervuras mais espessas e causa a desfolha das plantas (Reis & Casa, 2012). 

Figura 1 - Microscopia do fungo Alternaria. Fonte: os autores, 2013
Figura 1 - Microscopia do fungo Alternaria. Fonte: os autores, 2013

Bipolaris sorokiniana

Bipolaris sorokiniana, causador da podridão comum das raízes, é responsável pela mancha marrom, considerada uma das doenças mais danosas à cultura do trigo, com perdas de 20% a 80% no rendimento (Barros et al, 2006). Sob condições favoráveis com temperatura de 20ºC e 28oC e pelo menos 15 horas de molhamento foliar, a doença ocorre durante todo o ciclo da cultura (Bacaltchuk et al, 2006).

Com o progresso da doença, as lesões se tornam elípticas e geram abundante esporulação do fungo de coloração castanho-escuro, o que dá uma aparência negra às lesões (Prates & Fernandes, 2001).

Os inóculos primários desta patologia são as sementes geralmente com ponta preta, restos culturais de centeio, cevada, trigo, triticale, plantas voluntárias, hospedeiros secundários e conídios dormentes no solo. Podem ser disseminados através de chuva, vento e sementes contaminadas (Kimati et al, 2005).

Figura 2 - Microscopia do fungo Bipolaris Fonte: os autores, 2013
Figura 2 - Microscopia do fungo Bipolaris. Fonte: os autores, 2013

Fusarium

Fusarium é causado pelo fungo Gibberella zeae, que ocasiona a giberela no trigo. Os principais inóculos desses fungos são os ascósporos, que ficam sobre os restos culturais e que permanecem entre uma estação de cultivo e outra devido à ampla gama de hospedeiros podendo ser transportados pelo vento a longas distâncias e depositados sobre anteras causando infecção (Brasil, 2009). Também pode ser disseminado a curtas distâncias quando os conídios são transportados por respingos de chuva. 

Figura 3 - Microscopia do fungo Fusarium Fonte: os autores, 2013
Figura 3 - Microscopia do fungo Fusarium. Fonte: os autores, 2013

Drechslera

Drechslera causa a mancha amarela que é predominante no Rio Grande do Sul, favorecida pelo sistema de plantio direto, que propicia a sobrevivência e multiplicação do patógeno, bem como pelo clima da região, com condições ideais de temperatura entre 18oC e 28oC e período de molhamento foliar superior a 30 horas. É um fungo necrotrófico, portanto com capacidade de sobreviver em restos culturais.

O sintoma mais característico é a mancha amarela. As lesões são elípticas ou em forma de diamante, geralmente com uma borda amarela e o centro marrom-escuro. Dependendo da cultivar, pode-se observar maior ou menor clorose e necrose, devido à ação de toxinas específicas do patógeno (Manning & Ciuffetti, 2005).

Além destes fungos que acometem as plantas nas lavouras, é necessário observar os fungos de armazenamento, como Aspergillus, verticillium e Penicillium, que causam perdas e deixam o cereal impróprio para o consumo humano ou animal.

Figura 4 - Microscopia do fungo Penicillium. Fonte: os autores, 2013
Figura 4 - Microscopia do fungo Penicillium. Fonte: os autores, 2013

As bactérias fitopatogênicas podem estar associadas às sementes tanto externa quanto internamente. A contaminação pode ocorrer na cultura, no período de maturação da semente, quando o inóculo produzido sobre folhas ou outras partes da planta atinge a sua superfície, por meio de respingos de chuva, água de irrigação, vento, insetos ou durante as operações de colheita, transporte, beneficiamento e armazenamento (Brasil, 2009).

Pectobacterium Os sintomas causados por Pectobacterium se devem à produção de grandes quantidades de enzimas que degradam a parede celular das plantas. Variam de acordo com as condições do ambiente, resistência ou suscetibilidade da cultivar e parte 

Figura 5 - Amostra com incidência de Pectobacterium Fonte: os autores, 2013
Figura 5 - Amostra com incidência de Pectobacterium. Fonte: os autores, 2013

Experimento com tratamento de sementes

Foi realizado no Laboratório de Fitossanidade da Faculdade Ideau, um experimento utilizando sementes de trigo Mirante tratadas e não tratadas com thiran + carbendazin na proporção ml/kg em meios de cultura BDA (batata-dextrose-ágar) e AA (água-ágar).

As sementes de trigo foram separadas em lotes de 50 sementes de cada método e colocadas em gerbox. Após, os meios permaneceram em câmara de crescimento a uma temperatura de 20oC (± 2oC), por um período de 12 horas de luz e 12 horas de escuro durante sete dias, induzindo a germinação das sementes e a esporulação dos patógenos. Após esse período, foi analisada a incidência de patógeno em cada meio de cultura.

Figura 6 - Meios de cultura com isolamento da semente de trigo Mirante Fonte: os autores, 2013
Figura 6 - Meios de cultura com isolamento da semente de trigo Mirante. Fonte: os autores, 2013

Na primeira amostra de sementes não tratadas em meio BDA ocorreu grande incidência de Pectobacterium. Isso pode ser explicado devido a não realização de um tratamento específico para bactérias em sementes. Os fungos de maior incidência foram Drechslerae bipolarise de armazenamento Penicilliume aspergillus, por carecer de tratamento fúngico e pelas sementes estarem armazenadas em sacos desde a safra anterior, muitas vezes em locais inadequados.

Gráfico 1 - Quantidades de fungos encontrados em sementes não tratadas em meio BDA.
Gráfico 1 - Quantidades de fungos encontrados em sementes não tratadas em meio BDA.

Na amostra 2 de semente não tratada em meio AA, observou-se uma menor incidência de Pectobacterium e também dos fungos. A explicação pode residir no fato de esse meio ser mais utilizado para a germinação de esporos, funcionando como câmara úmida (Alfenas et al, 2007) e também por ter menos nutrientes para o desenvolvimento de organismos.

Gráfico 2 - Quantidades de fungos encontrados em sementes não tratadas em meio AA
Gráfico 2 - Quantidades de fungos encontrados em sementes não tratadas em meio AA.

Na amostra 3 de sementes tratadas em meio BDA, observou-se um aumento expressivo de Pectobacterium. Segundo Sexto (2013), as bactérias conseguem se desenvolver em meios onde há menor incidência de fungos. Obteve-se menor incidência de fungos devido ao tratamento das sementes, porém houve novamente o aparecimento de Bipolaris. Segundo Reis & Forcelini (1993), a ponta preta nem sempre se manifesta, fazendo com que a semente se mostre aparentemente sadia. Porém o fungo encontra-se no interior das sementes, dificultando a esterilização através do tratamento com fungicidas que atingem apenas o tegumento.

Gráfico 3 - Quantidades de fungos encontrados em sementes tratadas em meio BDA
Gráfico 3 - Quantidades de fungos encontrados em sementes tratadas em meio BDA.

A amostragem 4 apresentou somente fungos do gênero Bipolaris e novamente a incidência de bactérias, porém em menor quantidade que em meio BDA.

Gráfico 4 - Quantidades de fungos encontrados em sementes tratadas em meio AA
Gráfico 4 - Quantidades de fungos encontrados em sementes tratadas em meio AA.

A partir dos resultados obtidos no experimento observou-se que a eficácia de controle inferior a 100% não é suficiente e as sementes infectadas semeadas não cortam o ciclo de vida do parasita.

Dessa forma, pode-se observar na pesquisa a grande incidência de patógenos em sementes não tratadas e sua significativa diminuição nas tratadas, demonstrando a importância do uso da quimioterapia, que embora não erradique as doenças, o que seria muito difícil, diminui a incidência. Se essas sementes fossem utilizadas em lavouras, certamente haveria grande índice de limiar de dano econômico na safra e também nos tratos culturais para os próximos cultivos.


Ediane Roncaglio Baseggio, UFFS - Campus Erechim/Fapergs; Paloma Alves da Silva Sexto, Faculdade Ideau – Campus Getúlio Vargas, RS


Artigo publicado na edição 198 da Cultivar Grandes Culturas.


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