Importância do uso de inseticidas na época de dessecação para o combate das lagartas do gênero Spodoptera em soja, milho e algodão

Embora seja uma prática comum no campo, o uso de inseticidas na época de dessecação da área para formação da palha para o plantio direto (com o objetivo de reduzir a população de pragas, principalmente lagartas, no inicio do ciclo de cultivo da soja, milho e algodão e com isso diminuir os danos provocados pelas pragas na fase de estabelecimento destas culturas), é uma prática que ainda não tem o suporte suficiente de trabalhos científicos que comprovem sua real necessidade e validade. Os principais questionamentos são de que, na palha, as lagartas não teriam mais alimento disponível e, consequentemente, não sobreviveriam. Entretanto, trabalhos de pesquisas desenvolvidos pelo professor Geraldo Papa e sua equipe têm constatado a presença de significativas populações de lagartas, principalmente do gênero Spodoptera, que sobrevivem na palha e provocam danos no início do desenvolvimento da cultura recém-emergida.
Nos sistemas agrícolas constituídos por soja, milho e algodão ocorre uma disponibilidade constante de alimentos a insetos polífagos, como é o caso de espécies do gênero Spodoptera (Santos, 2001). A sucessão de culturas, o plantio escalonado de diversas culturas e a existência de culturas irrigadas, principalmente na região de cerrado, prolonga no tempo a sobrevivência de insetos, aumentando o número de gerações neste tipo de agroecossistema. Essa situação favorece o processo migratório das mariposas entre lavouras formadas por espécies vegetais semelhantes, naquelas implantadas em épocas diferentes e, também entre diferentes espécies botânicas (Santos, 2003; Barros e Torres, 2009).
As espécies do gênero Spodoptera são amplamente distribuídas no mundo e das 30 espécies descritas, a metade é considerada praga de variadas culturas de importância econômica (Pogue, 2002). Destaca-se a lagarta-militar, Spodoptera frugiperda por se alimentar de mais de 80 espécies de plantas, incluindo o algodão, milho e soja (Capiner, 2002). Apesar da amplitude hospedeira ela é considerada praga importante de plantas da família Poaceae (gramíneas) como milho, arroz, trigo, entre outras. Entretanto, seus surtos têm ocasionado perdas significativas em outras plantas como algodão, soja e solanáceas cultivadas (Latorre, 1990; Bastos e Torres, 2004), além de utilizar hospedeiros alternativos para se manter nos agroecossistemas.
A lagarta-militar, S. frugiperda ocorre em quase todo o continente americano e constitui-se em sério problema fitossanitário. Essa praga tem provocado prejuízos econômicos a uma série de culturas de importância econômica. É considerada a principal praga dos campos de milho no Brasil (Cruz, 1995), mas nos últimos anos este inseto tem se destacado como importante problema fitossanitário na cultura do algodão e da soja, principalmente nas regiões produtoras dos cerrados brasileiros. O fato de o milho ser plantado o ano todo no país (Safra/Safrinha/Inverno), somado à existência de várias outras culturas que podem hospedar a S. frugiperda, proporciona a esta praga condições para atravessar pontes biológicas entre os ciclos produtivos para encontrar condições de proliferação e tornar-se uma espécie bastante frequente nos cultivos do cerrado, cuja época de meados do ciclo de cultivo coincide com a colheita do milho de primeira safra e plantio da safrinha (Papa, 2005).
Além da S. frugiperda, a espécie S. eridania, que tradicionalmente não era praga importante para os cultivos do cerrado é uma praga em expansão nas culturas de algodão e de soja, necessitando de estudos para subsidiar os programas de manejo. Nessa região, as lagartas migram das plantas de soja em final de ciclo e passam para plantas invasoras e também para a soja e algodão (Santos, 2005).
A pesquisa tem investido, com o objetivo de melhorar a qualidade e produtividade dos cultivos agrícolas, o que tem se revertido em importantes resultados, pois a produtividade vem aumentando. Inicialmente desenvolveu o Plantio Direto na cultura da soja e posteriormente para milho e algodão, sendo o Brasil a referência nessa modalidade de plantio, que muito ajudou no aumento da produtividade. Através de Órgãos de Pesquisas privadas e oficiais, melhorou-se a genética de cultivares, além da modernização de implementos e maquinários aliados ao investimento de empresas de defensivos agrícolas que tem aportado recursos em novas moléculas inseticidas, com objetivo de ofertar aos produtores para que garantam o potencial produtivo da cultura.
Neste cenário de modernização do sistema produtivo e de sustentabilidade, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) é a forma mais racional de controle, com garantia da produtividade dos cultivos, minimizando os efeitos nocivos ao ambiente. Trata-se de uma estratégia de controle múltiplo de infestações que se fundamenta no controle ecológico e nos fatores de mortalidade naturais, onde se procura desenvolver táticas de controle que interfiram minimamente com esses fatores, tendo o objetivo de diminuir as chances dos insetos se adaptarem a alguma prática defensiva em especial (Alves, 1998). Neste contexto o uso de inseticidas de forma preventiva contraria os princípios do MIP e é uma prática que deve ser evitada. Assim, para a tomada de decisão do uso de inseticidas na época da dessecação, é necessário que sejam realizadas amostragens, ainda na cobertura verde do solo antes da aplicação do dessecante, para verificar a existência ou não de populações significativas de pragas que justifiquem a aplicação de inseticidas na época da dessecação.
A utilização de culturas de cobertura do solo como o milheto, semeado anteriormente ao plantio comercial é uma prática frequente no cerrado brasileiro. Atribui-se este fato à sua fácil instalação e à adaptação às condições desfavoráveis de cultivo, destacando-se: tolerância à seca, crescimento rápido, maior capacidade de ciclagem de nutrientes e alta produção de biomassa. Assim, com o crescimento da fronteira agrícola para o Cerrado e com expansão do sistema de semeadura direta, o cultivo do milheto também cresceu como planta de cobertura (Garcia e Duarte, 2009). Neste cenário, a lagarta-militar, S. frugiperda, tem se beneficiado, pois tem a capacidade de se reproduzir nas plantas de milheto e, após sua dessecação e plantio comercial da cultura, as lagartas se abrigam na palhada junto ao solo e passam a cortar as plântulas recém-emergidas, podendo causar redução do estande. Nesse contexto, o controle das pragas iniciais passa a ser importante. Os inseticidas mais utilizados nesta estratégia de controle são os de menor custo como piretróides, carbamatos e organofosforados. Entretanto, geralmente, estes grupos de inseticidas apresentam a desvantagem de não serem seletivos aos inimigos naturais das pragas. Assim, novas moléculas inseticidas mais modernas e mais seletivas aos mamíferos e aos artrópodos benéficos estão sendo introduzidas na agricultura, inclusive para uso na época da dessecação, período preparatório ao plantio direto.
A equipe de pesquisa coordenada por Geraldo Papa, da Unesp de Ilha Solteira, tem desenvolvido trabalhos com o objetivo de verificar a real necessidade da aplicação de inseticidas na época da dessecação que antecede a semeadura nos sistemas de plantio direto, visando encontrar respostas para os seguintes questionamentos: 1) As lagartas que sobrevivem na palha diminuem significativamente o estande dos cultivos? 2) A aplicação de inseticidas na dessecação preparatória para o plantio direto diminui significativamente a infestação de lagartas no inicio do ciclo da cultura? 3) Os cultivares transgênicos tolerantes ao ataque de Lepidopteros são danificados pelas lagartas de terceiro ou quarto instar que sobreviveram na palha? A produtividade da soja, milho e algodão são afetadas pelos danos provocados pelas lagartas que sobrevivem na palha. 4) Existe benefícios aos agricultores em utilizar inseticidas na dessecação preparatória para o plantio direto?
Para condução destas pesquisas foi semeado milheto e, 60 dias após, foram realizadas amostragens, onde constatou-se a presença de alta população de lagartas, com predomínio da espécie Spodoptera frugiperda. Procedeu-se a aplicação de herbicida dessecante e três dias após foram aplicados inseticidas na área com milheto e semeadas parcelas com soja, algodão e milho. Os parâmetros avaliados foram: número de lagartas na área antes da dessecação; o número de lagartas encontradas sob a palha após a formação da palha; número de plantas cortadas pelas lagartas após a emergência da soja, algodão e milho; porcentagem de desfolha provocada pelas lagartas nas culturas da soja, milho e algodão e produtividade média das culturas. Pela análise dos resultados concluiu-se que a aplicação de inseticidas na época da dessecação preparatória para o plantio direto de soja, milho e algodão foram eficientes no controle da S. frugiperda, proporcionando menor número de plantas atacadas pelas lagartas, melhor estande das culturas e maior produtividade.
Geraldo Papa
Fernando Juari Celoto

Unesp/Câmpus de Ilha Solteira-SP

Este artigo foi publicado na edição número 143 da Revista Cultivar Grandes Culturas, de abril de 2011. ver mais artigos

gilvan.quevedo@grupocultivar.com

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