Efeitos do uso de calda sulfocálcica na cultura do citros

A calda sulfocálcica é um produto de uso frequente por agricultores, sendo empregada na citricultura para controle de ácaros e de cochonilhas. Em citros orgânicos, a calda sulfocálcica é um dos poucos produtos químicos aceitos pelo Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural. É um sulfurado inorgânico que possui como princípio ativo o polissulfeto de cálcio, obtido pela dissolução de enxofre em pó e cal virgem ou hidratada. A toxicidade da calda deve-se à liberação dos gases tóxicos sulfeto de hidrogênio (H2S) e dióxido de enxofre (SO2). A calda sulfocálcica também possui ação fungicida, inseticida e acaricida, sendo utilizada, ainda, como fertilizante foliar. Além disso, a calda sulfocálcica fornece cálcio e enxofre ao metabolismo das plantas, que estimulam as reações de fotossíntese e induzem-nas à maior resistência às pragas.

Entretanto, após as aplicações de calda observa-se que os seus resíduos, compostos basicamente de carbonato de cálcio, podem permanecer por muitos dias sobre as folhas de citros, mesmo após as chuvas. Diante dessa observação, muitos produtores questionavam se estes resíduos poderiam interferir na eficiência de produtos fitossanitários, entre estes os acaricidas empregados no controle do ácaro Brevipalpus phoenicis, popularmente conhecido como ácaro-da-leprose-dos-citros.

O ácaro-da-leprose-dos-citros é uma das principais pragas da citricultura, por ser o único vetor conhecido do vírus (CiLV) causador da leprose-dos-citros, uma das doenças mais graves da citricultura no Brasil. O controle da leprose é realizado com acaricidas para combater o ácaro-vetor e tem sido nos últimos anos a única tática de manejo desta doença nos pomares, nos quais os custos de controle chegam a atingir 80 milhões de dólares por ano. A leprose-dos-citros compromete a produtividade e reduz a vida útil das plantas. Os principais sintomas da leprose são manchas amareladas nas folhas, lesões corticosas nos ramos e manchas necróticas arredondadas nos frutos. As plantas afetadas apresentam desfolha, queda prematura de frutos, seca de ramos e morte de ponteiros.

Historicamente, o primeiro relato da leprose ocorreu em 1907, no distrito de Pinellas, Flórida, EUA, sendo denominado de scalybark. Nos EUA, a doença foi controlada e, em meados dos anos 50, desapareceu, resultado que foi atribuído às condições climáticas adversas e às sucessivas pulverizações com enxofre, que reduziram drasticamente a população do ácaro-vetor.

Na América do Sul, os primeiros relatos da doença surgiram na década de 20, com a denominação de lepra explosiva, que afetava plantas de laranja em Missiones, Argentina. O primeiro relato da doença no Brasil foi feito por Bitancourt, na década de 30, que a constatou no estado de São Paulo, denominando-a de leprose dos citros. Na década de 30, através de fotos dos sintomas de scalybark dos EUA, da lepra explosiva da Argentina e da leprose dos citros do Brasil, os pesquisadores Fawcett e Knorr concluíram que se tratava da mesma doença.

A importância da leprose no Brasil é explicada por sua ocorrência generalizada, pelos sérios prejuízos que causa e especialmente pelas dificuldades no manejo, o que exige de pesquisadores e citricultores conhecimentos sobre as relações entre o ácaro-vetor, vírus, plantas hospedeiras do ácaro e do vírus, e dos fatores ambientais. A leprose é mais severa nas laranjas-doces [Citrussinensis (L.) Osbeck], laranjas-azedas (C. aurantium) e nos pomelos (C. paradisi). Em outras espécies de citros, como mandarins (C. reshni Tanaka, C. deliciosa, C. reticulata,), a incidência é bem menor e híbridos como o Tangor Murcott são muito pouco suscetíveis, enquanto lima-da-pérsia (C. aurantifolia), limões-verdadeiros (C. limon), limas-ácidas (C. aurantifolia) e limas-doces (C. limettioides, C. medica) são considerados resistentes à doença.

A calda sulfocálcica desde que utilizada de maneira criteriosa e com nível de infestação do ácaro-da-leprose entre 10% e 15% apresenta eficiência considerável sobre este ácaro. Entretanto, em uma eventual necessidade de reaplicação, o citricultor comumente a faz utilizando-se de um acaricida com maior período residual. Com base nesta hipótese de que os resíduos da calda sulfocálcica possam interferir negativamente na eficiência de acaricidas foi realizado um experimento na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (FCAV/Unesp), Campus de Jaboticabal, em São Paulo.

Em um pomar de laranja Pera localizado na FCAV/Unesp foram selecionadas dez plantas com frutos de aproximadamente 5cm de diâmetro. Em seguida, aplicou-se calda sulfocálcica em cinco plantas, na concentração de 8g i.a./L de água, e as outras cinco plantas foram deixadas sem aplicação. A calda sulfocálcica utilizada foi a Super S20, fabricada pela Fertibom, de Catanduva, São Paulo, com a concentração de 200g de enxofre/L de produto comercial. Decorridos 30 dias da aplicação os frutos com e sem resíduo de calda foram colhidos e levados para o laboratório. Os frutos foram parcialmente parafinados, deixando-se em cada fruto uma arena de 2,5cm de diâmetro sem parafina, delimitada comum a barreira de cola Tree Tanglefoot. Os frutos foram distribuídos em vários tratamentos e testemunhas para avaliar se a eficiência dos acaricidas propargite, óxido de fenbutatina, azocyclotin, dicofol e dinocap sobre o ácaro-da-leprose seria prejudicada com os resíduos de calda. Os acaricidas foram aplicados sobre os frutos sob Torre de Potter, equipamento de precisão que proporciona aplicações uniformes. Após as aplicações foram transferidos dez ácaros-da-leprose para cada fruto. Foram realizadas avaliações 24 horas e 48 horas depois da transferência dos ácaros para quantificar o número de ácaros mortos e vivos. Ao contrário do que se esperava, os resíduos de calda contribuíram positivamente na eficiência dos acaricidas propargite, óxido de fenbutatina e fenpyroximate, entretanto, sem diferença significativa. Provavelmente, os resíduos da calda sulfocálcica presentes sobre os frutos ainda apresentavam ação residual sobre os ácaros após 30 dias da aplicação e contribuíram para o aumento da eficiência destes acaricidas. Os demais acaricidas também apresentaram eficiência similar em frutos de laranja com e sem resíduo de calda sulfocálcica (Tabela 1).

Por outro lado, nas avaliações realizadas 48 horas após as transferências, constatou-se que ocorreu acréscimo significativo da porcentagem de eficiência em todos os tratamentos, indicando que o tempo de exposição do ácaro sobre os resíduos dos produtos aumentou consideravelmente sua mortalidade.

As testemunhas com e sem resíduo de calda sulfocálcica não apresentaram diferença entre si, indicando que o resíduo não teve efeito significativo na mortalidade do ácaro-da-leprose. Dessa forma, infere-se que o resíduo de calda sulfocálcica, após 30 dias da aplicação, não proporcionou mortalidade expressiva do ácaro-da-leprose. Contudo, em épocas do ano em que haja reinfestação deste ácaro, é possível a aplicação dos acaricidas avaliados após 30 dias da aplicação da calda sulfocálcica na dose de 4L/100L de água. Todavia, a recomendação da calda sulfocálcica para controle do ácaro deve ser sempre criteriosa e associada a outras estratégias de manejo, com o intuito de aumentar o período de controle, bem como evitar a seleção de populações de ácaros resistentes.

Tabela 1 - Eficiência de acaricidas no controle do ácaro-da-leprose-dos-citros aplicados em frutos de laranja com e sem resíduo de calda sulfocálcica

Acaricidas

Eficiência de controle (%)1

Com resíduo de C. sulfocálcica

Sem resíduo de C. sulfocálcica

24 horas

48 horas

24 horas

48 horas

Propargite

75,6aA

94,2aA

73,3aA

92,3aA

Óxido de fenbutatina

83,3aA

98,1aA

75,4aA

96,6aA

Cyhexatin

98,7aA

100,0aA

94,6aA

100,0aA

Azocyclotin

98,7aA

100,0aA

99,2aA

100,0aA

Fenpyroximate

62,8aA

84,1aA

61,4aA

78,7aA

Dicofol

99,5aA

100,0aA

96,7aA

100,0aA

Dinocap

98,3aA

100,0aA

97,9aA

100,0aA

Testemunha

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1Médias seguidas pela mesma letra minúscula na coluna e maiúscula na linha não diferem significativamente, pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade.

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Daniel Junior de Andrade; Fernando César Pattaro e Carlos Amadeu Leite de Oliveira

FCAV/Unesp

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