Inverno com pulgões

O controle biológico é um fenômeno natural entre organismos vivos que forma cadeias de relações complexas entre vegetais (produtores) e as diversas castas de animais (consumidores), resultando em equilíbrio de populações e em comunidades estáveis.

Com a introdução da agricultura e o cultivo de trigo, de cevada e de aveia em áreas extensivas, criaram-se condições favoráveis à ocorrência de espécies que poderiam tornar-se praga. Os pulgões, nativos da Ásia e da Europa, chegaram ao Brasil livres de seus inimigos naturais e encontraram clima favorável e áreas extensivas cultivadas com cereais, fatores que permitiram a explosão de populações do pulgão-dos-cereais, do pulgão-da-folha e do pulgão-da-espiga, além de espécies de ocorrência esporádica (Tabela 1 - veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF).

Durante a década de 70, os pulgões foram o principal problema fitossanitário em cereais de inverno. Os agricultores aplicavam inseticidas de três a cinco vezes, para controle da praga, durante o desenvolvimento das culturas.

Na Embrapa Trigo, em 1978, sob coordenação do pesquisador Luiz A.B. de Salles e participação de Franco Luchini, iniciou-se o programa de controle biológico de pulgões de trigo. As ações receberam apoio da FAO, da Universidade da Califórnia, dos entomólogos Robert van den Bosch, Enrique Zuñiga, Paul A. Guttierez e de outros especialistas em controle biológico. Os pesquisadores F. Luchini e L.A.B. de Salles foram substituídos por Fernando J. Tambasco e Dirceu N. Gassen, respectivamente, que deram continuidade ao programa.

Com base no método clássico de controle biológico, foram introduzidas 14 espécies de himenópteros parasitóides e duas espécies de joaninhas predadoras de pulgões (Tabela 2 - veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF). Em insetários da Embrapa Trigo, foram criados 3,8 milhões de parasitóides, principalmente de oito espécies: Aphelinus asychis, Aphidius ervi, A. rhopalosiphi, A. uzbeckistanicus, Ephedrus plagiator, Praon gallicum, P. volucre e Lysiphlebus testaceipes. Esses parasitóides foram liberados nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. Em 1981, foram enviadas matrizes de parasitóides à Argentina, onde foi iniciado o programa de controle biológico de pulgões.

No Brasil, observou-se adaptação de Aphidius uzbeckistanicus sobre o pulgão S. avenae e de Aphidius rhopalosiphi e Praon volucre sobre os pulgões S. avenae e M. dirhodum. Foi verificada diapausa estival facultativa (dormência durante o verão) dos parasitóides A. uzbeckistanicus e A. rhopalosiphi, na fase de pupa, durante o verão, no Rio Grande do Sul. Essas características sugerem que os restos culturais não devem ser queimados ou incorporados, mas, sim, mantidos na superfície do solo para servirem de refúgio aos parasitóides durante o verão.

A espécie P. volucre passou a hospedar outros afídeos em plantas ornamentais, em alfafa, em ervilha e em gramíneas nativas.

Os pulgões dos gêneros Rhopalosiphum e Schizaphis são parasitados com maior freqüência por Aphidius colemani e por Diaeretiella rapae. Com menor intensidade, observou-se parasitismo por Ephedrus plagiator, por Aphelinus sp. e por Praon gallicum.

Os parasitóides da família Aphidiidae apresentam aspecto geral do corpo semelhante e têm aproximadamente dois milímetros de comprimento. Para diferenciação dos gêneros de adultos, usam-se desenhos das nervuras das asas anteriores.

Os parasitóides fazem a postura no interior do corpo de pulgões, onde eclodem as larvas. Aproximadamente sete dias após, os parasitóides causam morte dos pulgões, passando à fase de pupa no interior do corpo do hospedeiro. O pulgão morto pelas vespas é denominado múmia, dentro da qual desenvolve-se a pupa, que dá origem a uma vespa.

Os pulgões mortos por parasitóides dos gêneros Ephedrus e Aphelinus tornam-se pretos na fase de múmia. Os parasitóides do gênero Praon tecem um casulo na parte inferior do pulgão morto, onde passam à fase de pupa. As espécies do gênero Aphidius, Diaeretiella e Lysiphlebus causam morte de pulgões, conferindo-lhes coloração pardo-clara, aparentando pulgão seco, e mantendo formas normais do hospedeiro.

A meta inicial do programa de controle biológico foi contribuir com 10 a 15 % de mortalidade dos pulgões de trigo. Essa meta foi amplamente ultrapassada. Após introdução e adaptação dos parasitóides, houve acentuada redução das populações médias de pulgões que se mantiveram abaixo dos níveis de dano econômico. Levantamentos realizados em cooperativas e em propriedades agrícolas evidenciaram redução de 95 % de uso de inseticida para controle da praga em trigo. O impacto econômico do controle biológico de pulgões, durante a década de 80, foi calculado em 20 milhões de dólares anuais, somente na redução de custos diretos de inseticidas e de aplicações.

Parasitóides secundários (hiperparasitos) hospedam pulgões com parasitóides primários, interrompendo a cadeia de controle biológico da praga. Os principais parasitóides secundários encontrados no Brasil foram: Alloxysta sp. (Hym., Cynipidae), Aphidencyrtus sp. (Hym., Encyrtidae), Tetrastichus sp. (Hym., Eulophidae), Asaphes sp. e Pachineuron sp. (Hym., Pteromalidae).

Os pulgões em trigo também podem ser infectados pelos fungos Conidiobolus obscuros, Entomophthora planchiniana, Erynia neoaphidis e Zoophthora radicans.

As joaninhas (Col., Coccinellidae), de tonalidade brilhante, são predadoras de pulgões de ocorrência freqüente nas lavouras. Cada indivíduo pode consumir mais de 20 mg de pulgões diariamente. O peso médio de pulgões adultos, em trigo, varia de 0,5 a 1,5 mg/pulgão nas espécies S. graminum e M. dirhodum, respectivamente.

Entre espécies observadas com maior freqüência em trigo, destacam-se: Coccinellina ancoralis, C. pulchella, Coleomegilla quadrifasciata, Cycloneda sanguinea, Eriopis connexa, Hippodamia convergens, Hyperaspis sp., Olla v-nigrum, Scymmus sp. e outras encontradas esporadicamente.

As espécies Coccinella septempunctata e Hippodamia quinquesignata, introduzidas no Brasil, não foram mais recoletadas e, possivelmente, não se adaptaram ao novo ambiente.

As larvas de moscas da família Syrphidae são predadoras de pulgões, introduzindo o aparelho bucal no interior do corpo da presa, da qual extraem substâncias líquidas. Os adultos alimentam-se de néctar, de pólen e de substâncias adocicadas. Entre os sirfídeos citados em trigo, destacam-se Allograpta spp., principalmente A. exotica; Pseudodorus clavatus e Toxomerus spp.

O controle químico de pulgões, através de inseticidas de ação rápida, de baixo preço e de fácil aplicação, ainda é o método preferido por muitos agricultores. Atualmente, há preocupação quanto à escolha de métodos mais permanentes e menos agressivos ao ambiente, destacando-se as práticas culturais, que facilitem a sobrevivência dos inimigos naturais.

Quando o uso de inseticidas for necessário, deve-se dar preferência a produtos seletivos a predadores e a parasitóides.

Os pulgões passaram da condição de principal problema fitossanitário em trigo, na década de 70, com intenso uso de inseticidas, para a condição de inseto secundário após a introdução, criação massal e liberação dos agentes de controle biológico.

A introdução de parasitóides para controle natural de pulgões de trigo, no Brasil, é um dos exemplos clássicos de maior sucesso prático de controle biológico de pragas já estabelecidos no mundo.

Dirceu Gassen,
Cooplantio

* Este artigo foi publicado na edição número 39 da revista Cultivar Grandes culturas, de maio de 2002.

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