Irrigação no algodoeiro

A irrigação pode beneficiar a produtividade do algodoeiro, especialmente quando cultivado em solos arenosos e em condições climáticas, onde é frequente a ocorrência de veranicos. Na cultura do algodão podem ser empregadas as irrigações localizadas ou por aspersão. O adequado fornecimento de água proporciona maior retenção dos botões florais, o que concorre para maior número de capulhos por planta e, com isso, maior produtividade.

O algodoeiro (Gossypium hirsutum L.) destaca-se pela tolerância relativamente alta à seca. Isso advém de seus ajustes fisiológicos e de sua capacidade de crescimento e plasticidade radicular. O sistema radicular do algodoeiro pode atingir 2m de profundidade, mas a maior parte se concentra na camada de solo de 0cm - 40cm. Quando profundo permite explorar grande volume de solo e aproveitar melhor a água contida neste.

Nos últimos anos, tem ocorrido expansão das áreas de cultivo do algodão em solos de textura média e arenosa devido ao menor custo da terra e à escassez de áreas de solos argilosos. No entanto, a menor capacidade de armazenamento de água desses solos associada à distribuição irregular de chuvas pode predispor a cultura a déficit hídrico e comprometer sua produtividade.

A cultura do algodão requer, durante seu ciclo de vida, entre 650mm e 900mm de água. A demanda hídrica depende das práticas culturais, da oferta de água no solo, da cultivar e da demanda evapotranspirométrica. Geralmente, na fase inicial até o aparecimento dos primeiros botões florais, o requerimento hídrico é inferior a 2mm d-1. Após essa fase, com o rápido crescimento vegetativo, aumenta-se o consumo de água que pode ultrapassar 8mm d-1.

O estádio mais sensível ao déficit hídrico é o reprodutivo, durante a floração e formação das maçãs, em que o déficit ou excesso hídrico pode provocar queda das estruturas reprodutivas e reduzir a produtividade da cultura. A deficiência hídrica pode reduzir o diâmetro do caule, a altura das plantas, a retenção de maçãs e, consequentemente, a produtividade. O fornecimento adequado de água favorece a maior retenção de botões florais, especialmente nos primeiros ramos reprodutivos, além de aumentar a massa das sementes.

Experimento

Para avaliar o crescimento e a produtividade do algodoeiro cultivado em solo arenoso sob condições de sequeiro ou de irrigação por aspersão ou gotejamento, foi conduzido um experimento, no período de novembro de 2008 a abril de 2009, na região norte de Minas Gerais. A área experimental fica localizada na latitude 15º 28’ 55’’ S e longitude 44º 22’ 41’’ W, altitude 554m. A precipitação e temperatura média anual são 850mm e 25º, respectivamente.

A instalação da cultura e os tratos culturais foram os que comumente são preconizados para o algodoeiro. O solo da área experimental, de textura arenosa, é classificado como Neossolo Quartzarênico. Os atributos físicos e químicos se encontram na Tabela 1.

Calagem e adubação foram baseadas nos resultados da análise química do solo e em recomendações para a cultura do algodoeiro. Na semeadura, foram aplicados N, P2O5, K2O, Zn e B, nas doses de 12kg/ha, 60kg/ha, 25kg/ha, 2kg/ha e 1kg/ha. Em cobertura, foram aplicados 168kg/ha de N e 116kg/ha de K2O, parcelados em aplicações aos 25, 35 e 45 dias após a emergência (DAE).

Utilizou-se a cultivar Delta Opal. A semeadura foi realizada em 11/11/2008. Adotou-se o espaçamento entre fileiras de 80cm e a densidade de oito plantas/m, para alcance de uma população de 100 mil plantas/ha.  

Os tratamentos constaram de três sistemas de cultivo: irrigado por aspersão convencional, irrigado por gotejamento e cultivo em regime de sequeiro. Adotou-se o delineamento blocos casualizados, com 24 repetições. As unidades experimentais constituíram-se de cinco fileiras de 6m de comprimento distanciadas entre si de 0,8m. A área útil foi composta pelas três fileiras internas, menos 0,5m das extremidades.

Nas parcelas irrigadas pelo sistema de gotejamento foi utilizada uma linha lateral para cada fileira de planta, com gotejadores espaçados de 0,5m e operando com vazão de 2,2L/h. Nas irrigadas por aspersão convencional, utilizaram-se aspersores com bocais de 2,8mm e 2,4mm com pressão de operação de 2,5bar e com o espaçamento de 12m x 12m. Avaliou-se a uniformidade de aplicação pelo coeficiente de Cristhiansen (CUC), que foi de 92% e 84% no gotejamento e na aspersão convencional, respectivamente. Os dados meteorológicos foram registrados de uma estação localizada próxima à área do experimento. A partir desses, calculou-se a evapotranspiração de referência (ET0) de acordo com a equação de Penman - Monteith. Calculou-se a evapotranspiração diária da cultura pelo produto ET0 x Kc (coeficiente de cultura). Diariamente foi reposta a lâmina, via irrigação, necessária para elevar o solo à capacidade de campo.

Aos 80 dias após a emergência (DAE), ocasião em que as plantas exibiam pleno desenvolvimento das maçãs, coletou-se a parte aérea de seis plantas de cada parcela. Separam-se: folhas + caules das estruturas reprodutivas (botões florais, flores e maçãs). Essas partes foram secas em estufa com ventilação forçada de ar a 70ºC para determinação da matéria seca de parte aérea e de estruturas reprodutivas. Mediu-se a altura e determinou-se o número de estruturas reprodutivas por planta.

A desfolha foi realizada com aplicação de carfentrazone - ethyl associado a óleo mineral no cultivo de sequeiro aos 128 DAE e nos irrigados aos 138 DAE. Procedeu-se a colheita aos 138 DAE e 148 DAE nos cultivos sequeiro e irrigado, respectivamente. Foram determinados o número e massa de capulhos abertos de 20 plantas de cada parcela. A produtividade de algodão em caroço foi determinada após a colheita dos capulhos abertos da área útil da parcela.

Os dados das características avaliadas foram submetidos à análise de variância. As médias dos tratamentos foram comparadas pelo teste de Tukey a 1% de probabilidade. 

Dados observados

Houve aumento de todas as variáveis avaliadas com o uso da irrigação, exceto matéria seca de estruturas reprodutivas e massa de capulho, independentemente do sistema de irrigação utilizado (Tabela 2). Sob déficit hídrico comumente há redução da expansão foliar, da altura de plantas e do número de ramos reprodutivos por planta, o que se reflete em menor crescimento e produtividade do algodoeiro.

A matéria seca de estruturas reprodutivas aos 80 DAE não foi influenciada pelos tratamentos. No entanto, na colheita a irrigação promoveu maior número de capulhos por planta, o que resultou em maior produtividade de algodão em caroço. O algodoeiro é sensível ao déficit hídrico após o início de florescimento e na fase de formação e crescimento de maçãs. A irrigação beneficia a produtividade do algodoeiro por aumentar o pegamento de estruturas reprodutivas, especialmente daquelas formadas por último no terço superior do dossel da planta (Figura 1).

A precipitação total superou a evapotranspiração da cultura ao longo do ciclo (Figura 2). No entanto, devido ao cultivo em solo arenoso e com baixa capacidade de armazenamento (Tabela 1) associado a períodos de veranicos, especialmente após início de florescimento, houve efeito benéfico da irrigação. Foi suplementada a lâmina líquida de 278mm de água via irrigação durante o ciclo da cultura. A irrigação pode propiciar crescimento de produtividade por aumentar a massa de capulho, mas principalmente por acrescer o número de capulhos por planta.

O acréscimo de produtividade com o uso da irrigação variou de 78% a 85% em relação ao cultivo sem irrigação. Não houve diferença entre a produtividade obtida com o uso do sistema de aspersão convencional ou de gotejamento (Tabela 2). O acréscimo de produtividade com a irrigação está associado a uma série de fatores, tais como cultivar utilizada, sistema de preparo e manejo do solo, textura do solo, distribuição da precipitação pluvial, dentre outros.

Conclui-se, portanto, que a irrigação, independentemente do sistema, aumentou o acúmulo de matéria seca da parte aérea, a altura de plantas e a produtividade de algodão em caroço. Esta operação ainda propiciou acréscimos de produtividade de 78% a 85% em relação ao cultivo sob condições de sequeiro.

Plantas irrigadas por gotejamento.
Plantas irrigadas por gotejamento.
Plantas cultivadas em sequeiro (sem irrigação).
Plantas cultivadas em sequeiro (sem irrigação).
Plantas irrigadas por aspersão.
Plantas irrigadas por aspersão.


Leonardo Angelo de Aquino, Paulo Geraldo Berger, Junia Maria Clemente, Universidade Federal de Viçosa 


Artigo publicado na edição 195 da Cultivar Grandes Culturas. 

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