Lastragem de tratores agrícolas

O lastro ideal é estabelecido por diferentes fatores, entre eles adequação à tração, ao tipo de rodado e às condições da superfície do solo.

Ao se tracionar implementos que mobilizem o solo, há uma transferência de parte do peso do eixo dianteiro do trator para o traseiro, provocando a perda de aderência das rodas motrizes. As consequências desse efeito se manifestam na forma de patinagem ou de instabilidade de direção, acarretando a perda de rendimento de tração, com redução da velocidade de locomoção e com influência direta na perda de potência na barra de tração. Portanto, a relação pneu/solo deverá ser analisada sempre e corrigida quando não apresentar conformidade. Além da perda da capacidade operacional, a patinagem poderá interferir negativamente nas características físicas do solo.

LASTRAMENTO DO TRATOR

O lastramento é um procedimento simples, mas precisa de adequação em função do peso do trator, da configuração do rodado, do implemento e das condições da superfície do solo.

A inclusão de lastro no trator pode ser realizada com peso líquido ou sólido. O lastro líquido consiste em encher os pneus de tração com água pura ou mistura com aditivos anticongelantes (nas regiões mais frias), através das válvulas de calibragem. A operação deve ser realizada com o auxílio de um macaco, tendo o cuidado de girar o pneu e posicionar a válvula na altura referente ao percentual de preenchimento por líquido (Figura 1), respeitando relação diferente para pneus diagonais e radiais. Nos pneus diagonais, deve-se observar o máximo de 75% do volume do pneu para não eliminar suas propriedades de flexão e amortecimento. Já nos casos de pneus radiais, somente em casos especiais e com recomendação do fabricante, preencher com até 40% do volume do pneu. Recomenda-se, ainda, sempre que possível, substituir o lastro líquido pelo equivalente em peso em lastro sólido.

Figura 1 - Representações visuais da relação pneu/solo
Figura 1 - Representações visuais da relação pneu/solo

Efetuado o processo, deve-se baixar o trator colocando a válvula na posição inferior e calibrar o pneu com ar, seguindo a pressão recomendada, com o auxílio de um manômetro especial para pneus com água. A inclusão de água como lastro é a forma mais simples e barata para aumentar o peso nos eixos de tração, no entanto, a sólida é a mais indicada. A inclusão de lastro sólido é efetuada utilizando-se placas de ferro fundido adicionadas às rodas e ao chassi do trator. Os pesos para as rodas estão disponíveis em diversos tamanhos, permitindo maior precisão na distribuição de peso no trator. As placas de ferro fundido são inseridas na dianteira do trator, compensando o peso transferido para a parte traseira pelo uso do implemento, desta forma aumentando ao rendimento de tração. Nos casos dos tratores com tração dianteira auxiliar – TODA, o peso na parte frontal irá conferir maior eficiência do sistema pneu/solo aumentando a eficiência de transferência de tração, já nos tratores sem TDA a função do peso será principalmente melhorar a dirigibilidade.

RELAÇÃO PESO/POTÊNCIA

A força potencial de um trator está relacionada à reação máxima do solo sobre suas rodas motrizes em função de vários parâmetros:

- A carga sobre as rodas motrizes, que é composta pelas seguintes forças exercidas sobre o trator: peso do trator, carga complementar (implemento + lastro) e regulagens de acoplamento;

- A natureza do contato pneu/solo;

- Área de contato com o solo, pressão dos pneus, formas e dimensões do rastro, assim como a textura e a condição física do solo.

Na prática, a força de tração não excede 60% do peso total do trator somado à carga complementar. Um trator com um peso da ordem de quatro toneladas raramente poderá exercer uma força de tração superior a 2,5 toneladas, em solo agrícola.

Sabendo-se que a força de tração está diretamente relacionada com o peso do trator acoplado, torna-se fácil encontrar seu peso ideal ou relação peso/potência. Esta relação é expressa em quilogramas por kilowatt (kg/kW) e é calculada com base na potência nominal do motor. Quanto maior a demanda de força de tração, mais significativa será a necessidade de lastro. No entanto, por razões de conservação de sistemas mecânicos da transmissão, o valor da relação peso/potência para operações com menor velocidade e maior demanda de tração será em torno de 60kg/kW, e para operações com menor demanda de tração e maior velocidade, em torno de 35kg/kW (Tabela 1). Aumentar o coeficiente de aderência do trator assegurará uma melhor tração sem que haja necessidade de diminuir a velocidade ou mesmo aumentar a potência de base do trator.

RELAÇÃO PESO/PNEU

Cada tipo de pneu possui seu limite máximo de carga suportado e ultrapassar tais limites corresponde à perda de garantia do item. Os fabricantes disponibilizam em seus manuais e websites tabelas de base com os valores máximos para cada tipo, classe, lastragem ideal e tamanho de pneus de sua gama de produtos, como pode ser visto na Tabela 3.

É de fundamental importância conhecer a relação peso/potência de forma a equilibrar dinamicamente o trator e desta forma obter o melhor rendimento com o menor impacto no ambiente de produção. Respeitadas as especificações do trator, do pneu e das condições do solo, a lastragem adequada representará ganhos significativos em relação à capacidade operacional dos conjuntos motomecanizados e econômicos, refletindo em produtividade e rentabilidade.

Como constatar e medir a patinagem

De uma forma simples e rápida, é possível constatar a ocorrência de patinagem realizando-se uma análise visual a campo através das marcas deixadas pelos pneus ou através da mensuração para se determinar o índice de patinagem. No entanto, deve-se levar em consideração outros fatores que podem provocar o fenômeno, como pneus com desenho e/ou tamanho inapropriado para a operação, topografia irregular do terreno, umidade do solo elevada, seleção de marcha ou rotação do motor incorreta, incompatibilidade trator/implemento ou regulagem inadequada do implemento. Na análise visual, o ideal é verificar que as marcas deixadas pelos pneus estejam bem definidas nas bordas externas e sinais de deslizamento no centro do rodado. O lastro insuficiente, ocasionando excesso de patinagem, implica redução na potência disponível para realizar a operação, no desgaste acentuado dos pneus e maior consumo de combustível, uma vez que as rodas girarão mais para percorrer a mesma distância, imagem 1A. O excesso de lastro, com ausência de patinagem, proporciona um elevado consumo de combustível, promove deformação no solo, danos aos pneus com rompimento das garras, além de aumentar a carga sobre a transmissão, imagem 1B.

Como lastrar

Exemplo de lastragem para um trator de 90cv, 4x2 com tração dianteira auxiliar, considerando a utilização de um implemento específico:

- Carga de trabalho média = 90cv x 50kg = 4.500kg de peso total.

- Implemento agrícola semeadora = 35% na dianteira e 65% na traseira.

Resultados:

  • Dianteira: 4.500kg x 0,35 = 1.575kg
  • Traseira: 4.500kg x 0,65 = 2.925kg
Inserção da mangueira na válvula de calibragem: pneus diagonais; pneus radiais.
Inserção da mangueira na válvula de calibragem: pneus diagonais; pneus radiais.
Inserção da mangueira na válvula de calibragem: pneus diagonais; pneus radiais.
Inserção da mangueira na válvula de calibragem: pneus diagonais; pneus radiais.
Inserção da mangueira na válvula de calibragem: pneus diagonais; pneus radiais.
Inserção da mangueira na válvula de calibragem: pneus diagonais; pneus radiais.


Thiago de Santana Marques, Gláucia Maria dos Santos Silva, Ismael dos Reis Alves, Marcos Roberto da Silva, UFRB/CCAAB/GPESOA


Artigo publicado na edição 167 da Cultivar Máquinas.

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