Limpeza e descontaminação correta de pulverizadores

O procedimento de limpeza e descontaminação de pulverizadores faz parte da regulagem do equipamento e é uma prática relativamente simples e de muita importância, pois, evita problemas com fitotoxicidade e prolonga a vida útil do pulverizador.

Quando se fala em preparar os pulverizadores para uma aplicação, muitos técnicos e operadores acreditam que se trata apenas de marcar uma área no terreno, verificar o volume de calda que o equipamento está aplicando e fazer os ajustes necessários na velocidade de trabalho e/ou pressão de operação. Ledo engano! Uma pulverização bem feita requer muito mais do que isso.

Para que tudo corra bem e se alcancem os objetivos da aplicação, os trabalhos com o pulverizador devem começar bem antes de verificar o volume de calda aplicado. Assim, é importante que todos os envolvidos na operação de pulverização entendam a diferença entre dois termos muito distintos: regular e calibrar. Resumidamente, regular é preparar o pulverizador para a calibração e posterior uso. Para isso, o pulverizador deve estar com a manutenção em dia. Já a calibração é verificar o volume de calda aplicado e ajustá-lo ao desejado. Nessa etapa, também determina-se a quantidade de produto que vai ser colocada no tanque de pulverização.

Desta forma, é possível afirmar que, se um pulverizador não está bem regulado, ele corre um sério risco não ser calibrado adequadamente e causar graves problemas para as lavouras, para a vida útil dos próprios equipamentos e até para os operadores. Atualmente, diversos trabalhos realizados em lavouras brasileiras apontam muitos descasos com os cuidados que os pulverizadores deveriam receber. Dados do IPP (Inspeção Periódica de Pulverizadores da Unesp de Botucatu-SP) apontam para prejuízo de cerca de 23% com a falta de manutenção em pulverizadores.

Uma boa regulagem passa pelo adequado conhecimento do funcionamento do pulverizador, mas também, deve-se entender a interação que os produtos utilizados possuem com os pulverizadores. Muitos produtos são capazes incrustar em partes de difícil acesso e permanecerem lá por muito tempo, contaminando lavouras e alterando a composição química e física de outros produtos. Podem também causar obstrução de tubulação, registros, filtros e pontas. Em casos mais severos podem causar corrosão em partes importantes do sistema hidráulico do equipamento. Portanto, durante a regulagem, deve-se também realizar uma boa limpeza no pulverizador. Para isso, devem ser utilizados agentes de limpeza específicos e destinado local adequado a essa operação. A limpeza correta deve ser realizada seguindo alguns procedimentos básicos que podem variar de acordo com cada situação específica. A seguir, serão descritas algumas ações que podem ser adotadas.

Limpeza de pulverizador de barra com água pressurizada.
Limpeza de pulverizador de barra com água pressurizada.
Local para limpeza de pulverizadores cercado e com canaleta para condução dos efluentes sanitários visando o tratamento.
Local para limpeza de pulverizadores cercado e com canaleta para condução dos efluentes sanitários visando o tratamento.

LIMPEZA ADEQUADA

Após o término da aplicação, caso ainda reste produto no tanque, deve-se esvaziá-lo complemente, preferencialmente sobre a lavoura pulverizada. O mais indicado é que seja feita uma calibração de modo a não deixar sobrar produto no tanque após o término da aplicação em toda área. No caso de utilizar o mesmo produto no dia seguinte, é aconselhável que coloque água limpa no tanque do pulverizador e pulverize até esgotá-lo novamente. Isso ajudará a prevenir que os resíduos sequem no fundo do tanque. Se por acaso um produto diferente for usado no dia seguinte, uma limpeza mais profunda é recomendada imediatamente após o uso.

Nesse caso, deve-se levar o pulverizador para local adequado na fazenda e proceder a descontaminação. Atualmente, uma das normas para estabelecimento de padrões legais para adequação dos locais de limpeza de pulverizadores nas fazendas é a que trata da descontaminação de aviões agrícolas (Instrução Normativa 02 de 3/1/2008 do Mapa, Artigo VII). Sempre que possível algumas das recomendações dessa Instrução Normativa devem ser adequadas para os demais pulverizadores.

Filtros de pontas de pulverização com resíduos de agroquímicos.
Filtros de pontas de pulverização com resíduos de agroquímicos.
Filtro obstruído pela falta de limpeza interna do pulverizador.
Filtro obstruído pela falta de limpeza interna do pulverizador.
Ralo para captação dos efluentes sanitários em pátio de limpeza.
Ralo para captação dos efluentes sanitários em pátio de limpeza.

De modo geral, o local ou pátio de limpeza deve ser amplo o suficiente para abrigar o pulverizador, deve ser aberto, cercado e possuir sistema de bombeamento para pressurização de água limpa com bico de controle manual de pressão. É necessário que o piso seja impermeável e possua declividade mínima de 3% direcionada à canaleta para condução do efluente fitossanitário ou água de lavagem para local específico para tratamento.

Atualmente, algumas empresas têm desenvolvido sistemas de tratamento desses efluentes, visando atender padrões de boas práticas agrícolas. Um deles consiste em captar o efluente do pátio de limpeza e canalizá-lo para um tanque de evaporação. Esse tanque deve ser construído sobre piso de concreto impermeável, ser revestido de lona resistente, podendo possuir sistema de aquecimento solar para acelerar o processo de evaporação do efluente. Após a completa evaporação da parte líquida, a lona deve ser dobrada para coleta da parte sólida, identificada e descartada com as demais embalagens de agroquímicos vazias. O final desses sólidos geralmente são os fornos das indústrias de incineração especializadas.

Todo local de limpeza deve ser adequadamente sinalizado para indicar que se trata de área com potencial risco de contaminação, evitando o acesso frequente de pessoas que não sejam aquelas envolvidas no processo de limpeza dos pulverizadores. Durante o todo o procedimento de limpeza, o operador deve estar vestido adequadamente com o EPI.

É importante limpar o pulverizador por dentro e por fora. Atualmente, existem no mercado produtos comercializados para fins específicos de limpeza e descontaminação de pulverizadores e, em geral, os fabricantes de agroquímicos disponibilizam nas bulas ou rótulos quais são as bases ou princípios ativos dos agentes de limpeza mais indicados para cada produto de modo específico.

LIMPEZA EXTERNA

Para a limpeza externa, pode-se direcionar água pressurizada para remoção de resíduos que caem sobre o equipamento durante o abastecimento ou deslocamento. Limpezas frequentes geralmente evitam a formação de grandes incrustações. Entretanto, às vezes, torna-se necessário utilizar alguns agentes de limpeza também na parte externa. Nesse caso, eles devem ser adicionados à água que será pressurizada.

Presença de resíduos impregnados na parte externa do pulverizador.
Presença de resíduos impregnados na parte externa do pulverizador.

Algumas partes do pulverizador devem receber atenção especial no momento da limpeza, como, por exemplo: filtros, pontas, registros e válvulas. Filtros e pontas devem ser removidos e lavados utilizando água limpa em baixa pressão ou escova de cerdas macias.

Após a limpeza, deve-se aplicar água limpa pressurizada em todas as partes do pulverizador, além de colocar pelo menos ¼ de água no tanque e esgotá-lo. Isso evitará que resíduos dos agentes de limpeza possam causar problemas de fitotoxicidade nas lavouras. Deve-se destacar também que o pulverizador, como todo equipamento agrícola, deve receber os cuidados necessários com a lubrificação, indicados pelo mapa de lubrificação do fabricante.

Produtos utilizados para limpeza do tanque

Em geral, os agentes de limpeza cuja base é a amônia são os mais recomendados. Isso ocorre porque eles promovem a elevação do pH da solução de enxágue, tornando alguns resíduos de agroquímicos mais solúveis e facilmente removidos pela pressão da água. O cloro também é outra base de agente de limpeza muito utilizada. Entretanto, é importante ressaltar que agentes de limpeza à base de cloro nunca devem ser diretamente misturados à amônia ou fertilizantes líquidos que contêm amônia. Pois os dois materiais juntos reagem formando gás de cloreto de amônia, que é

tóxico e pode causar irritações nos olhos, nariz, garganta e nos pulmões. Resíduos de agroquímicos de formulações oleosas podem ser removidos com aplicações localizadas de diesel ou querosene.

Independentemente do agente de limpeza utilizado, deve-se deixar o pulverizador funcionando durante alguns minutos apenas com agitador de calda ligado com os agentes de limpeza, antes de liberar a passagem do produto para os bicos de pulverização.


Renato Adriane Alves Ruas, João de Deus Godinho Júnior, Guilherme Andrade Gontijo, José Márcio de Souza Júnior, UFV


Artigo publicado na edição 157 da Cultivar Máquinas. 

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