​Greening em citros: longe do fim

Huanglongbing (HLB ou Greening) tem levado ao colapso a citricultura de diversos países. No Brasil, ocorre em São Paulo, Paraná e Minas Gerais. O progresso da doença e das perdas de produção é rápido, considerando a perenidade da cultura. A velocidade da epidemia depende da quantidade de plantas doentes e insetos vetores no pomar, que dependem do rigor da adoção de medidas de manejo, da proximidade de plantas doentes ao redor da propriedade e da idade das plantas no momento da infecção. Caso esteja perto de pomares doentes e não se adotem as medidas de controle, a incidência da doença pode atingir 50% das plantas após três a cinco anos da sua detecção em pomares com até cinco anos. Em pomares adultos se atingirá tal incidência alguns anos mais tarde. A evolução dos sintomas na planta também é rápida, dependendo do porte da planta e do número de infecções. Sintomas severos são observados após um a cinco anos do aparecimento dos primeiros sintomas, sendo a produção e a qualidade dos frutos proporcionalmente reduzidas. Assim, pomares infectados entre o primeiro e o quinto ano de idade tornam-se economicamente improdutivos em dois a quatro anos, enquanto que, para pomares adultos uma redução significativa da produtividade é observada após cinco a oito anos.

As bactérias associadas ao HLB habitam os vasos do floema e colonizam todas as variedades de citros. Não existe cura economicamente viável para a planta infectada. A aplicação de antibióticos, a termoterapia e a poda foram testadas, porém, sem resultados práticos promissores. O melhor modo de retardar o progresso do HLB tem sido a adoção do plantio de mudas sadias, produzidas a partir de materiais sadios em ambiente protegido contra o inseto vetor, eliminação de plantas doentes e redução da população do psilídeo vetor, Diaphorina citri.

Em São Paulo, a produção de mudas em viveiros protegidos de insetos é obrigatória desde 2003. Apesar das vantagens, este sistema ainda não é adotado por outros estados. Entretanto, sua existência em São Paulo antes da descoberta do HLB foi uma grande vantagem em relação aos outros locais onde a doença foi relatada.

A eliminação das plantas com sintomas de HLB é obrigatória desde março de 2005 e é regulamentada pela Instrução Normativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) n° 53, de 16/10/2008 (IN53), pela qual os citricultores devem realizar um mínimo de quatro inspeções anuais e eliminar as plantas doentes. O Estado fiscaliza a execução das atividades dos citricultores e, se necessário, elimina as plantas e autua o citricultor infrator. Estima-se que 22 milhões de plantas foram eliminadas de 2005 a 2012. Entretanto, a erradicação é a medida menos aceita pelos citricultores devido à redução dos ganhos com a eliminação de plantas doentes ainda produtivas. Esta relutância mantém a bactéria no pomar e dificulta a renovação de pomares no longo prazo na propriedade e na região. Outros fatores do HLB dificultam a adoção do roguing e a percepção de que ele é tão importante quanto o controle do vetor na redução da doença: (I) Longo período de tempo entre a infecção e o aparecimento dos sintomas, de meses a mais de um ano; (II) Impossibilidade de detectar a planta doente logo após a infecção e somente após meses, próximo à manifestação visual dos sintomas; (III) Impossibilidade de encontrar todas as plantas sintomáticas nas inspeções, restando plantas escapes, que só serão detectadas no período seguinte, o que torna necessária maior frequência de inspeções, no máximo a cada dois meses; e (IV) Continuidade de infecções causadas por psilídeos vindos de outros pomares, mesmo com a remoção de plantas sintomáticas no pomar.

Avanços foram obtidos com relação à detecção de plantas doentes no campo, como: determinação das épocas do ano para expressão dos sintomas, reconhecimento dos processos cognitivos dos inspetores para identificação de plantas suspeitas e desenvolvimento de plataformas acopladas a tratores ergonometricamente adequadas à inspeção de plantas adultas, com maior eficiência de detecção em relação à inspeção a pé (45% a 75%, contra 5% a 35%). As perspectivas para a detecção de plantas doentes estão no desenvolvimento de óculos especiais para potencializar a visualização de plantas doentes e de métodos para diagnose a campo baseados em técnicas de fotônica e de Elisa.

Quanto ao controle do psilídeo, está sendo feito pela aplicação de inseticidas, prática mais facilmente adotada pelo citricultor. Quanto menos psilídeos, menor será a ocorrência de novas infecções. Os inseticidas reduzem ou impedem a aquisição da bactéria do HLB em uma planta doente pelo psilídeo. Sabe-se também que, após a aquisição da bactéria, existe um período de uma a duas semanas para que possa transmiti-la a outra planta. Também, sabe-se que uma vez adquirida pelo inseto, a bactéria pode ser transmitida enquanto ele viver. Portanto, o controle do vetor logo após a aquisição da bactéria impedirá a transmissão e reduzirá o número de plantas infectadas. Entretanto, a planta de citros está em constante crescimento com surtos vegetativos mal distribuídos e desuniformes ao longo do ano e, portanto, está exposta diariamente por anos ao acesso dos psilídeos. Adicionalmente, as brotações, locais para oviposição e alimentação do inseto, crescem diariamente, o que dificulta a adequada deposição e cobertura dos inseticidas, abrindo “janelas" para a infecção. Este problema poderia ser resolvido com aplicações foliares mais frequentes, mas encareceria o controle, causaria surtos de pragas secundárias e poderia contaminar o ambiente. Ou também com a aplicação de inseticidas sistêmicos, porém, estes têm apresentado bons resultados apenas em plantas jovens até três anos e existem poucos grupos de inseticidas sistêmicos no mercado, o que dificulta a rotação de produtos para evitar a seleção de populações resistentes aos inseticidas. Em segundo lugar, os psilídeos podem ser observados durante todo o ano, atingindo populações elevadas quando ocorrem surtos vegetativos nos pomares, e as reinfestações podem ocorrer rapidamente, porque mesmo realizando um controle eficiente da população local, existe constante migração de psilídeos oriundos de fontes externas, como outros pomares sem controle do vetor e de outras plantas hospedeiras como a falsa-murta. Isto exige o monitoramento constante do psilídeo e aplicações mais frequentes de inseticidas, levando aos mesmos problemas descritos anteriormente. Por último, o psilídeo se movimenta a curtas distâncias e também pode atingir vários quilômetros quando levado pelo vento, disseminando o HLB por dois processos simultâneos, incluindo a disseminação primária, resultante de psilídeos infectivos que emigram de fontes de inóculo de fora do talhão a longas distâncias, e a disseminação secundária ou local, que opera a curtas distâncias por psilídeos transportando a bactéria dentro do talhão. Esta última pode ser mitigada pelas aplicações locais de inseticidas.

Entretanto, a disseminação primária é mais perigosa porque, mesmo com grande número de aplicações locais de inseticidas, é difícil evitar que os psilídeos se alimentem em plantas infectadas fora do talhão, migrem para plantas sadias no talhão pulverizado e transmitam a bactéria antes que morram pela ação do inseticida aplicado nestas plantas. Experimentos e observações de campo têm mostrado que mesmo em pomares com sistemática aplicação de inseticidas, ainda ocorrem novas infecções, mostrando que os programas de controle do psilídeo não evitam totalmente a transmissão da bactéria, principalmente quando o adulto foi originário de uma ninfa criada em uma planta doente, já se encontra apto a transmitir a bactéria, sem o período de latência. Portanto, é fundamental para o controle do HLB que os psilídeos não se multipliquem nas plantas doentes, sejam do pomar ou de fora dele.

Avanços no controle do inseto vetor têm sido obtidos quanto à redução do volume de calda aplicada via pulverizações aérea (5L/ha), terrestre (800L/ha) ou “drench" (1L/planta). Além disso, pelo hábito dos psilídeos se concentrarem nas periferias dos talhões, o monitoramento destes insetos e as aplicações adicionais de inseticidas têm sido realizados nestes locais. Como perspectivas no controle do psilídeo, estão em desenvolvimento novas moléculas com ação sistêmica e com maior seletividade aos inimigos naturais e produtos com fungos entomopatogênicos, desenvolvimento de produtos repelentes e de atrativos, como feromônios sexuais, para serem usados no monitoramento ou em estratégias de confundimento e liberação do parasitoide Tamarixia radiata em áreas não comerciais.

Porém, o maior avanço, tanto no controle do vetor, como na redução do inóculo, tem sido a mudança no conceito da extensão da área de manejo de HLB, passando de um controle local, realizado apenas na propriedade sem coordenação com os vizinhos, para um controle regional ou em áreas extensas, abrangendo todas as propriedades de uma região com ações coordenadas e simultâneas de manejo. Percebeu-se que a eficácia do controle do psilídeo no controle do HLB é reduzida, principalmente, se for adotado de maneira exclusiva (não acompanhado da eliminação de plantas doentes) e isolada (aplicada apenas na propriedade). Para os citricultores que seguem o manejo do HLB apenas na sua propriedade, principalmente aqueles cujos pomares são menores e próximos a áreas sem o adequado manejo da doença, a epidemia parece incontrolável, por causa da disseminação a longa distância do psilídeo, isto é, o isolamento de um pomar é praticamente impossível; da movimentação do psilídeo entre talhões vizinhos, que faz com que talhões, mesmo com constantes aplicações de inseticidas, recebam psilídeos migrantes; e da dificuldade de se evitar totalmente a infecção primária. Desta forma, a velocidade com que novas infecções irão ocorrer depende muito da população regional de psilídeos infectivos, ou seja, quanto menor o manejo regional do HLB ou maior a incidência regional de plantas com HLB e de psilídeos, menor será a eficiência das estratégias de controle local da doença.

O manejo regional do HLB começa pela aplicação da IN53 e conscientização dos citricultores para que todos eliminem suas plantas doentes. Também, foca o controle do psilídeo em grandes áreas e de maneira simultânea, o plantio de novas áreas extensas e contínuas sob um mesmo manejo, o controle mais intensivo do psilídeo nas bordas dos talhões e das propriedades e, por fim, a organização dos grupos voluntários de controle regional do psilídeo.

A eficiência do manejo regional ou em áreas extensas do HLB tem sido constatada em experimentos e por citricultores que atuam em conjunto no manejo do HLB com seus vizinhos ou que possuem grandes propriedades sob um mesmo manejo. Quando comparada a evolução da incidência de HLB nos diferentes tamanhos de propriedades, nos cinco últimos levantamentos do Fundecitrus, se observa que quanto maior a propriedade, menor tem sido a taxa de progresso do HLB, a ponto de propriedades com mais de 700ha estarem mantendo a incidência de HLB abaixo de 1% ao ano ou até reduzido a doença.

Este manejo regional do HLB é eficiente porque o controle coordenado do psilídeo em uma área extensa elimina os refúgios para a criação do vetor em toda a região tratada e, assim, as reinfestações são mais lentas. Além da redução da população de psilídeos, a eliminação regional das plantas doentes faz com que mesmo com a presença de psilídeos na região, esses insetos não tenham onde adquirir a bactéria, ficando menos infectivos. Desta forma, se o objetivo for alcançar uma citricultura sadia e rentável no futuro, enquanto são desenvolvidas e produzidas variedades comerciais resistentes ou tolerantes à doença, é essencial que a prática do manejo regional - controle coordenado do vetor e eliminação das plantas sintomáticas em áreas extensas - seja difundida, assimilada e realizada pelos citricultores.

Clique aqui para ler o artigo na exemplar 81 da Revista Cultivar Hortaliças e Frutas.

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Renato Bassanezi

Fundecitrus

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