Maçãs apodrecidas

O apodrecimento de maçãs constitui um dos problemas fitossanitários mais importantes para a cultura do algodoeiro no Brasil. A podridão dos frutos ou podridão das maçãs nada mais é do que a deterioração progressiva do fruto do algodoeiro antes ou depois de sua abertura, como resultado da ação de agentes patogênicos primários ou da atividade de um complexo de patógenos, cujo desenvolvimento é favorecido por fatores do ambiente, principalmente alta pluviosidade e umidade relativa, bem como pela ação de pragas, tais como bicudo (Anthonomus grandis) e percevejos de diferentes espécies.


Em geral, regiões onde os índices pluviométricos são elevados e se combinam fatores como plantios adensados e desenvolvimento vegetativo vigoroso, é comum a alta incidência da podridão das maçãs. Esse fenômeno tem resultado em prejuízos elevados, sobretudo porque não existem medidas de controle emergenciais que possam reverter o quadro.

A podridão se manifesta na inserção da maçã, no pedúnculo ou na "casca" apresentando- se, normalmente, de coloração escura ou parda e de formato irregular. Lesões arredondadas ou irregulares, verde-escuras e de aspecto oleoso, também podem ser observadas nos carpelos quando a infecção é causada pela bactéria Xanthomonas axonopodis pv. malvacearum. Essas lesões tornam-se posteriormente enegrecidas, coalescem e podem ser afetadas por um complexo de patógenos secundários que, normalmente, cobrem toda a superfície do fruto.

A podridão causada por Colletotrichum gossypii apresenta lesões irregulares escuras e deprimidas de coloração alaranjada ao centro, devido à presença de uma massa de esporos do patógeno. Na podridão causada por Diplodia gossypina são observadas lesões de cor marrom nas brácteas e nas maçãs que, sob condições favoráveis de ambiente, se expandem e afetam toda a maçã. Com o desenvolvimento das lesões o patógeno se reproduz, induzindo uma coloração negra no capulho. A podridão causada por Fusarium, normalmente tem como patógeno mais importante o F. moniliforme e induz, em geral, pequenas manchas necróticas nas brácteas que, com a alta umidade, se expandem tornando-se de coloração azul-escura a marrom.

Os patógenos que afetam as maçãs podem penetrar de três diferentes formas: por aberturas promovidas pela picada de insetos ou injúrias mecânicas que permitem a entrada de fungos e bactérias; por estômatos, nectários e aberturas que se formam na junção dos carpelos; e os fungos em geral podem penetrar diretamente pelo tecido das maçãs de forma ativa secretando enzimas que dissolvem a parede celular e facilitam a penetração das estruturas de colonização. Uma vez o patógeno tendo penetrado, precisa ser capaz de absorver os nutrientes dos tecidos próximos ao sítio de penetração para se manter em desenvolvimento. Isso pode não ocorrer se compostos inibitórios estiverem presentes e forem ativados pela sua presença.

Os níveis de incidência da podridão de maçãs estão associados às condições de alta umidade e sombreamento da cultura em função do desenvolvimento vegetativo acelerado e da ausência de insolação, que permite a permanência de um filme de água sobre as maçãs por períodos prolongados, submetendo-as ao estresse e facilitando a penetração dos agentes patogênicos. Em geral existem quatro condições que favorecem a doença: longos períodos de molhamento das plantas; períodos prolongados com umidade relativa acima de 75%, baixa intensidade de luz e alta temperatura. A podridão é observada, principalmente, em lavouras densas, demonstrando o papel importante do desenvolvimento vegetativo como condição predisponente para o aumento da incidência da doença. No período chuvoso ou em condições de elevada umidade relativa, as maçãs permanecem com umidade sobre sua superfície por longos períodos, ocasionando o gradativo encharcamento dos tecidos e favorecendo a penetração dos agentes primários da doença e a ação de microrganismos secundários. Crescimento vegetativo excessivo, elevadas densidades de plantio e adubação desequilibrada são fatores que contribuem para aumentar a incidência da doença.

A podridão de maçãs do algodoeiro no Brasil


Os principais patógenos que induzem o apodrecimento das maçãs no Brasil são: Colletotrichum spp., Xanthomonas axonopodis pv. malvacearum, Fusarium spp. e Diplodia gossypina. No estado de Goiás, foram constatados os patógenos Colletotrichum gossypii, Fusarium spp. e Diplodia gossypina como os mais importantes associados à podridão de maçãs no ano de 2001. Foram observadas, também, alta incidência de Phoma spp. e lesões causadas por X. axonopodis pv. malvacearum além de patógenos secundários como Rhizopus spp. e Penicillium spp. Já foi observada, também, elevada incidência de Fusarium spp em amostras de maçãs apodrecidas no estado de Mato Grosso.

Naquele estado tem sido observada alta presença de maçãs apodrecidas por Colletotrichum. gossypii e Rhizoctonia solani. Além de alta incidência de Penicillium spp., Phomopsis spp., Aspergillus niger e X. axonopodis pv. malvacearum.

Diversos outros patógenos também já foram encontrados no Brasil associados aos sintomas da doença, tais como: Peronospora gossypina, Stilbum nanum f. sp. gossypina, Verticillium sp., Cercospora gossypina, Nectria sp., Giberella gossypina, Phylosticta gossypina, Sphaeroderma gossypii, Nematospora gossypii, Ovularia sp., Cephalotecium roseum. e Neurospora sp.

As perdas ocasionadas pela podridão de maçãs no Brasil têm mostrado também um caráter sazonal relacionado, principalmente, às condições de ambiente e à cultivar utilizada. Estudos realizados no estado da Bahia na safra de 2005/2006 apontaram perdas que variaram de 5,8 arrobas/ha a 101,5 arrobas/ha de algodão em caroço (Silva Filho et al, 2007)

Na safra 2011/2012, perdas expressivas por podridão de maçãs ocorreram no Mato Grosso do Sul, sobretudo em virtude de um ano atípico no que se refere aos índices pluviométricos. Já nesta última safra o fenômeno não foi registrado com essa magnitude.

É importante ressaltar que danos por apodrecimento dos frutos do algodoeiro sempre irão ocorrer, tanto na fase de enchimento quanto na fase de abertura dos capulhos. Nesta fase, a umidade costuma penetrar através da junção dos carpelos e facilitar a colonização por microrganismos secundários. É importante manter a vigilância sobre os níveis de incidência e as possíveis causas, a fim de que possam ser adotadas as medidas preventivas necessárias.

A podridão de maçãs do algodoeiro no mundo

A podridão de maçãs afeta o algodão em todas as regiões produtoras do mundo. Existem relatos de 1897 de podridão de maçãs causada por Colletotrichum gossypii, Alternaria spp. e Fusarium spp. em regiões produtoras dos Estados Unidos. Mais de 170 microrganismos, a maioria fungos, são capazes de atuar como agentes causadores da podridão de maçãs. A maioria é composta por patógenos oportunistas que penetram pelas aberturas causadas pela picada de insetos, injúrias ou outras aberturas nas maçãs. Outros são organismos secundários que se desenvolvem sobre o tecido necrosado. Poucos têm sido descritos como agentes primários, destacando-se: Alternaria spp, Aschochyta gossypii, Aspergillus flavus, Bacillus pumilus, Bacillus subtilis, Colletotrichum spp., Erwinia aroideae. Fusarium spp, Lasiodiplodiatheobromae, Myrothecium roridum, Pantoea agglomerans, Phoma exigua, Phomopsis sp., Phytophthora spp., Rhizoctonia solani e Xanthomonas axonopodis pv. malvacearum. Entre os organismos oportunistas destacam-se espécies de Alternaria, Chaetomium, Curvularia, Mucor, Pestalotia, Penicillium, Rhizopus e Trichotecium.

Na Austrália, o problema foi atribuído principalmente à infecção causada por Phytophthora nicotianae var. parasitica. Atualmente, esse patógeno é considerado a principal causa do apodrecimento de maçãs de algodoeiro naquele país. Sclerotinia sclerotiorum e espécies de Fusarium têm sido também encontradas em maçãs apodrecidas, além de Colletotrichum gossypii, Rhizopus e Botrytis spp.

Colletotrichum capsici tem sido relatado como agente primário da podridão de maçãs no estado da Louisiana nos Estados Unidos e induz sintomas diferentes daqueles ocasionados por C. gossypii. Este último causa lesões escuras e deprimidas no fruto, cobertas por uma massa rósea de conídios do patógeno, enquanto o primeiro ocasiona lesões que crescem rapidamente e ocupam toda a extensão do fruto. Por outro lado, Phomopsis gossypii também já foi associado como agente primário e Phytophthora boehmeriae foi encontrado causando apodrecimento de maçãs na Grécia.

Os danos ocasionados pela podridão de maçãs são extremamente variáveis e dependem da época, da região, das condições de ambiente, do manejo da cultura e da cultivar utilizada. Já foram observados danos de até 15,3% de maçãs podres em regiões produtoras dos Estados Unidos. Porém, a podridão de maçãs assume sempre um caráter de sazonalidade e está intimamente relacionada às condições favoráveis do ambiente. Levantamentos realizados nos EUA em diferentes épocas e regiões produtoras daquele país demonstraram uma variação que vai de traços de ocorrência em alguns anos até 20% de perdas.

Manejo da podridão de maçãs

A podridão de maçãs é de difícil controle. Trabalhos realizados na Geórgia, EUA, concluíram que a eficiência dos fungicidas não justifica o custo das aplicações. Numerosos testes têm sido realizados e os resultados observados são erráticos ou não se verifica nenhum controle efetivo. Naquele estado americano a desfolha do "baixeiro" chegou a ser proposta, entretanto, o crescimento vegetativo da planta impede que a aplicação do desfolhante seja realizada sem prejuízo à planta como um todo.

No Brasil, estudos realizados por Juliati, Duarte e Freitas, (2001) com o indutor de resistência acilbenzolar nas doses de 5g, 15g e 25g do produto comercial, em combinação com fungicidas, para o controle da mancha de ramulária, ferrugem e podridão das maçãs, constataram que os fungicidas azoxystrobina e oxicloreto de cobre utilizados isoladamente ou em combinação com o acilbenzolar não reduziram a severidade da doença mas diminuíram a incidência, e admitem o potencial do uso da resistência induzida como estratégia de controle.

O uso de cultivares resistentes tem sido considerado como um caminho a ser seguido para o manejo da doença. As cultivares apresentam diferenças em relação à incidência da podridão das maçãs, com forte interação do ambiente. Variações de até 10% em termos de incidência foram observadas entre diferentes cultivares no Alabama, EUA. Também já foi observado que cultivares de algodão com folha tipo okra reduzem a incidência da doença provavelmente por romoverem maior aeração e penetração de raios solares no dossel foliar. A diferença em termos de incidência entre cultivares com folhas normais e cultivares com folhas tipo okra atingiram 4,7% no Paquistão.

Os fatores predisponentes atuam como determinantes para facilitar a infecção pelos patógenos causadores da doença. Assim sendo, as medidas que podem ser mais eficazes são aquelas que têm por objetivo reduzir a ação desses fatores. Destacam-se manejo da época de semeadura; plantios menos adensados; evitar o cultivo em áreas passíveis de encharcamento; e manejar o crescimento vegetativo, por meio de reguladores de crescimento, de modo que se reduza o sombreamento na cobertura foliar, facilitando a aeração e a entrada da luz solar.

Essas ações podem ser associadas a cultivares mais resistentes e a uma adubação equilibrada, além do controle de pragas que possam induzir ferimentos nas maçãs.Entre as pragas mais importantes estão os percevejos, dentre os quais o rajado (Horcias nobilellus), o manchador (Dysdercus sp.) e os percevejos migrantes como o marrom (Euschistus heros), o pequeno (Piezodorus guildinii), o verde (Nezara viridula), além de Edessa meditabunda e Dichelops melacanthus, entre outros. Os percevejos migrantes são assim chamados porque em alguns sistemas de produção, o algodoeiro permanece no campo por um período vegetativo maior em relação a outras culturas como a soja, tornando-se o último hospedeiro da cadeia alimentar para esses insetos. Quando as lavouras de soja entram em fase de maturação, o processo migratório dos percevejos tem início e evolui no decorrer dos dias. As infestações são proporcionais às extensões das áreas plantadas com soja. Os ataques ocorrem a partir das bordaduras avançando para o interior dos talhões. O controle desses percevejos é fundamental para reduzir os índices de podridão de maçãs, sobretudo no final do ciclo vegetativo do algodoeiro.


Este artigo foi publicado na edição 175 da revista Cultivar Grandes Culturas. Clique aqui para ler a edição.

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Alderi Emídio de Araújo

Embrapa Algodão

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