Manejo adequado do bicudo-do-algodoeiro

Principal praga da cotonicultura brasileira o bicudo-do-algodoeiro é um inseto agressivo, que leva à queda de maçãs e botões florais utilizados para alimentação e oviposição. Manejá-lo exige ações conjuntas, coordenadas e aplicadas em âmbito regional, adotadas antes mesmo da instalação da cultura.

O bicudo-do-algodoeiro Anthonomus grandis Boheman, 1843 (Coleoptera: Curculionidae) é a principal praga da cotonicultura brasileira. Foi detectado no Brasil em 1983, em São Paulo, e a partir daí se disseminou por todas as regiões produtoras de algodão do Brasil.

A biologia deste inseto caracteriza-se por apresentar metamorfose completa, ou seja, passa por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto. Fêmeas adultas têm como nicho de oviposição as estruturas reprodutivas do algodoeiro (botão floral e maçãs), tendo preferência por botões florais com cerca de 6mm de diâmetro. O adulto mede aproximadamente de 4mm a 9mm de comprimento e 7mm de envergadura. A variação do seu tamanho é influenciada pela quantidade e qualidade de alimento ingerido durante o período larval. As fêmeas ovipositam um ovo por orifício, o que ocorre através do aparelho bucal nos botões florais e nas maçãs do algodoeiro. Após a oviposição a fêmea sela o orifício com uma substância gelatinosa.

O período de incubação dos ovos é de três a quatro dias, sendo influenciado pela temperatura e umidade. Ao eclodirem as larvas já começam a alimentação do interior dos botões florais e/ou maçãs do algodoeiro. Estas são ápodas de coloração branca e não apresentam pares de pernas. Passam à fase de pupa entre 7 dias a 12 dias, ainda dentro das próprias estruturas atacadas. Após o período de três dias a cinco dias, emergem os adultos, que podem sobreviver de 20 dias a 40 dias. As fêmeas colocam de 100 ovos a 300 ovos.

Larvas de bicudo-do-algodoeiro se alimentando no interior de um botão floral. - Foto: Jacob Crosariol Netto
Larvas de bicudo-do-algodoeiro se alimentando no interior de um botão floral. - Foto: Jacob Crosariol Netto

Terminado o ciclo da cultura, e se boas práticas de destruição dos restos culturais forem realizadas, a população de adultos migra para áreas de refúgios naturais e parte dos adultos sobrevive até a safra seguinte. Estes insetos que migram para áreas naturais entram em período de hibernação reprodutiva, ou seja, apenas se alimentam e não se reproduzem. Em condições de campo, podem ocorrer de cinco a até sete gerações do bicudo durante o ciclo da cultura.

Os danos ou injúrias causadas por A. grandis decorrem da utilização de maçãs e botões florais para alimentação e oviposição, provocando a queda destas estruturas depois de alguns dias. Os danos de oviposição não afetam imediatamente o botão floral, que continua se desenvolvendo normalmente até o início do segundo ínstar larval da praga. Posteriormente, o botão floral cai da planta. Os botões com danos de alimentação são reconhecidos pela presença de orifícios de aproximadamente 1mm de diâmetro, geralmente contendo a sua volta um anel amarelado formado por grãos de pólen. Os botões com danos de oviposição caracterizam-se pela presença de uma substância gelatinosa que seca na forma de cera na entrada do orifício feito pela fêmea por ocasião da postura.

Dano de alimentação de adultos de bicudo-do-algodoeiro em plantas de algodoeiro. - Foto: José Fernando Jurca Grigolli.
Dano de alimentação de adultos de bicudo-do-algodoeiro em plantas de algodoeiro. - Foto: José Fernando Jurca Grigolli

Como manejar

O manejo adequado do bicudo compreende uma série de ações realizadas em conjunto. Essas ações devem ser realizadas desde antes da instalação da cultura e passa pelo monitoramento e controle da praga. O sucesso efetivo do manejo do bicudo se dá por diversas ações coordenadas e aplicadas em um âmbito regional, o que pode contribuir para a convivência com a praga, facilitando o seu manejo e resultando em menores custos de produção e maiores produtividades.    

Histórico da Praga

O levantamento do histórico da praga em cada talhão é fundamental, pois possibilita mapear possíveis focos de bicudo, identificar as possíveis áreas de refúgio e detectar portas de entrada e saída da praga nos talhões. Com esta análise realizada e a identificação dos possíveis refúgios, é possível planejar, antecipar e executar medidas de controle diferenciadas em cada talhão.

Monitoramento do Talhão

 O monitoramento do talhão é recomendado antes do plantio de algodão. O monitoramento de áreas de soja que sucedem o cultivo do algodoeiro deve ser efetivo, com o objetivo de verificar a presença de soqueira ou tiguera de algodoeiro, e em áreas com alta intensidade da praga. Realizar a dessecação da soja com o uso de inseticidas para reduzir a população da praga. Ressalta-se a observância do período de carência do inseticida utilizado, de acordo com a bula de cada inseticida.

Armadilhas de Feromônio

 A instalação de armadilhas com o feromônio Grandlure deve ser realizada 30 dias antes do plantio e mantida pelo menos até as plantas emitirem o primeiro botão floral. Essas armadilhas tem a importância fundamental de detectar os movimentos migratórios da praga para o cultivo do algodoeiro. A instalação deve ser realizada no perímetro dos talhões, em uma distância de 150 metros entre si, com troca do feromônio a cada 15 dias e monitoramento do número de adultos por armadilha semanalmente. É fundamental o registro correto do número de adultos coletados, para observar a flutuação populacional da praga no talhão.

Calendário de Plantio

 Os plantios devem ser realizados com o calendário de semeadura concentrado, principalmente em talhões vizinhos. Esta estratégia de manejo é fundamental para a manutenção da população da praga baixa na região como um todo, e reduzir os problemas de migração do bicudo para outros talhões ou outras propriedades vizinhas.

Treinamentos

O monitoramento é fundamental para a tomada de decisão mais assertiva. Desta forma, o treinamento dos monitores de pragas para a realização da identificação e monitoramento das armadilhas e inspeção visual é fundamental.

Tecnologia de Aplicação

 A definição do momento correto da aplicação de inseticidas é tão importante quanto à aplicação em si dos produtos fitossanitários. Realizar as aplicações com equipamentos ideais e com boa calibração e em horários adequados é fundamental para a garantia de sucesso na aplicação.

Aplicação em Bordadura

 Em função do hábito migratório do bicudo, as aplicações em bordadura são muito interessantes para controlar a praga e reduzir o custo de produção. As aplicações em bordadura devem ser iniciadas a partir do aparecimento da terceira folha, sendo conduzidas até o final da safra. A aplicação deve ser realizada de forma sequencial, a cada cinco dias. Recomenda-se evitar o uso de inseticidas piretroides, pois esta classe de inseticidas pode resultar em surtos de ácaros, mosca-branca e pulgões. Após o florescimento, atenção especial deve ser dada ao monitoramento, a fim de identificar o momento de começar as aplicações em área total.

Aplicação Antecipada (Fase Vegetativa)  

Aplicações nas áreas cultivadas com algodoeiro durante a fase vegetativa devem ocorrer de acordo com o monitoramento das armadilhas de feromônio. Sugere-se quando há até duas armadilhas com bicudo, aplicar nos raios de ação da armadilha e das armadilhas vizinhas. Acima de duas armadilhas com bicudo, aplicar em todo o talhão. Vale ressaltar que o histórico de captura de inseto por armadilha por semana (número BAS) determina a definição das zonas de infestação, auxiliando nas aplicações a partir do surgimento do primeiro botão floral (B1). A classificação das zonas de infestação segue os seguintes parâmetros:

Número de bicudos por armadilha por semana.
Número de bicudos por armadilha por semana.

Monitoramento no Interior do Talhão

O monitoramento no interior dos talhões deve ser realizado semanalmente desde a fase inicial das plantas de algodoeiro. Para tanto, devem ser amostrados 100 plantas por talhão (para talhões maiores que 100 hectares), através da inspeção visual das plantas, registrando-se a porcentagem de botões florais atacados pela praga.

Ações Conjuntas Regionalmente

A realização de ações conjuntas e troca de informações entre os produtores é fundamental. Isso contribuirá para um melhor entendimento do ataque do bicudo-do-algodoeiro e seu manejo em cada propriedade, bem como ter a padronização de boas ações. Além disso, compartilhar alguma ocorrência antecipada pode contribuir para o desenvolvimento de ações regionais que podem resultar em redução populacional da praga.

Dono de oviposição de adultos de bicudo-do-algodoeiro em plantas de algodoeiro.
Dono de oviposição de adultos de bicudo-do-algodoeiro em plantas de algodoeiro.


José Fernando Jurca Grigolli, Fundação MS; Jacob Crosariol Netto, Eduardo Moreira Barros, IMA/MT


Artigo publicado na edição 204 da Cultivar Grandes Culturas.

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