Manejo da antracnose no feijão

Com efeito devastador sobre vagens e grãos de feijoeiro, a antracnose (Colletotrichum lindemuthianum) tem capacidade para levar a perdas de até 100% quando a infecção ocorre no início do ciclo. O plantio de cultivares resistentes e o uso de sementes certificadas estão entre as alternativas mais eficiente de manejo dessa doença.

A cultura do feijoeiro é conduzida através de diversos sistemas de produção, desde a agricultura familiar até emprego de alto nível tecnológico, o que gera grande variação de produtividades entre as lavouras. Além disso, a ocorrência de doenças nas plantas reduz a produtividade, pois a alta temperatura e a umidade elevada favorecem patógenos como a antracnose (Colletotrichum lindemuthianum). Essa doença reduz a qualidade dos grãos e o rendimento do feijoeiro. Presente em todo território brasileiro, e em todas as épocas do ano, esta doença pode causar até 100% de perdas quando a infecção ocorre no início do ciclo. 

A doença é favorecida por temperaturas entre 13ºC e 27ºC e umidade relativa acima de 90%, o que torna o cultivo de outono-inverno, conhecido também como “terceira época de plantio” ou “feijão de inverno” aquele com os maiores riscos de ocorrência de antracnose. Irrigações frequentes e em excesso podem intensificar ainda mais os prejuízos causados à cultura. Os sintomas podem ser observados em toda a parte aérea da planta. Quando a cultura está em estádio inicial é possível visualizar lesões pequenas de coloração marrom ou preta nos cotilédones. Em estádios mais avançados, ocorrem lesões necróticas marrons escuras geralmente na face inferior das folhas. As lesões podem, ainda, se estender para o caule, vagens e sementes. As lesões deprimidas e de coloração marrom que surgem nos grãos ocasionam redução da qualidade do produto final.

Plantas de feijoeiro (Phaseolus vulgaris) em estádio de crescimento vegetativo.
Plantas de feijoeiro (Phaseolus vulgaris) em estádio de crescimento vegetativo.

O controle da antracnose é realizado com a utilização de sementes sadias, manejo correto da irrigação, rotação de culturas e eliminação de restos culturais. A aplicação de fungicidas na parte aérea também é eficiente no controle da doença e tem sido utilizada por agricultores. Cruz (2014) constatou que o uso do silício na nutrição mineral do feijoeiro pode reduzir 52% da incidência da doença na parte aérea. Outra alternativa para o manejo é o controle biológico com o fungo Trichoderma spp., capaz de reduzir a severidade da doença (Pedro, 2012). Além destas práticas de manejo, o uso de cultivares resistentes tem contribuído para redução dos danos e perdas. Porém é restrita a oferta de cultivares com resistência devido à alta variabilidade genética do patógeno, tendo sido identificadas no Brasil mais de 50 raças fisiológicas.

Dada a importância do feijoeiro, e o quanto essa cultura pode ser afetada pela doença, nesse estudo foram quantificados os dados e avaliada a resistência de 10 cultivares de feijoeiro à antracnose. O experimento foi instalado na Fazenda Experimental do Cento de Ciências Agraria e Engenharias da Universidade Federal do Espírito Santo, no município de Alegre, Espírito Santo. O clima da região é quente e chuvoso no verão e frio e seco no inverno. 
As cultivares estudadas foram BRS Notável, BRS Ametista, BRS Pérola, BRS Estilo e BRS Pontal, BRS Esplendor, INCAPER Serrano, Agreste Mulatinho, e duas cultivares tradicionais obtidas com pequenos produtores da região, denominadas como “Carioca Comum” e “Vagem Riscada”. As sementes foram colhidas em julho e a implantação da cultura realizada em abril, com o intuito de coincidir o ciclo com a época favorável a ocorrência da doença. O experimento foi realizado em delineamento em blocos casualisados. Após a colheita, foi avaliada a incidência da doença, quantificando o percentual (%) de grãos e vagens com sintomas da doença.

Visão parcial do experimento, evidenciando o delineamento em blocos.
Visão parcial do experimento, evidenciando o delineamento em blocos.

As cultivares Vargem Riscada, INCAPER Serrano e BRS Esplendor, foram as que apresentaram melhores níveis de resistência à doença. Essas duas cultivares registraram menor incidência da doença nos grãos, o que pode representar grãos de melhor qualidade. Por outro lado, a cultivar Agreste Mulatinho apresentou maior suscetibilidade à antracnose. As cultivares BRS Pérola, BRS Estilo, BRS Pontal, Carioca Comum, INCAPER Serrano e IPR Tiziu, demonstraram suscetibilidade à doença, uma vez que apresentaram incidência superior a 40%.

Figura 1: Incidência (%) de grãos com sintomas de antracnose em vagens e grãos de cultivares de feijoeiro.
Figura 1: Incidência (%) de grãos com sintomas de antracnose em vagens e grãos de cultivares de feijoeiro.

A cultivar Agreste Mulatinho apresentou também alta incidência de antracnose nos grãos. Isso indica que tal material, se cultivado em locais com histórico de problemas com antracnose, além de ter seu rendimento comprometido, pode registrar redução na qualidade dos grãos e afetar a rentabilidade econômica da cultura. O mesmo também pode acontecer com as cultivares BRS Notável, BRS Ametista, BRS Pérola, BRS Estilo e BRS Pontal. 

Caso o produtor queira utilizar sementes colhidas na última safra para plantios posteriores, deve-se tomar muito cuidado com a incidência de antracnose nos grãos, principalmente se as sementes são de cultivares suscetíveis, como Agreste Mulatinho, e provenientes de cultivo outono-inverno. Este cuidado deve ser observado, uma vez que estas sementes servirão de fonte de inóculo inicial para o próximo cultivo, o que tende a representar aumento de custos com o controle fitossanitário e perda qualitativa e quantitativa do produto colhido. Desta forma, é necessário que haja um monitoramento constante do cultivo que irá fornecer as sementes, verificando sempre a incidência de antracnose e demais doenças.

O plantio de cultivares resistentes e o uso sementes certificadas consistem no método mais eficiente de manejo da doença e para evitar a entrada do patógeno na área. No entanto, o agricultor pode, ainda, realizar o tratamento de sementes com fungicidas como medida complementar, de modo a garantir a sanidade da cultura. Por isso é indispensável o acompanhamento de um engenheiro agrônomo durante o planejamento e condução do cultivo. 

Feijão no Brasil 

O feijoeiro-comum (Phaseolus vulgaris) é uma das principais culturas produzidas no Brasil, e um dos alimentos mais consumidos no mundo. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de feijão, sendo que a produção total brasileira nas três safras 2015/2016, foi de 2,51 milhões de toneladas, em uma área plantada de 2,84 milhões de hectares, e produtividade média de 886 kg/ha. Porém mesmo com toda a importância para a população brasileira, a produtividade no país ainda é considerada baixa.


Rogério de Souza Noia Junior, Leonardo José Frinhani Noia da Rocha, Leonardo Leoni Belan, Leandro Pin Dalvi, Leônidas Leoni Belan, UFES


Artigo publicado na edição 214 da Cultivar Grandes Culturas.

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