Manejo da ferrugem da folha do trigo

A ferrugem da folha do trigo é uma das principais vilãs que afetam a cultura no Sul do Brasil. Manejá-la passa por medidas adotadas antes mesmo da instalação da lavoura, com a escolha da cultivar, planejamento de aplicações com fungicidas protetores e, manutenção da doença em baixos níveis com o auxílio de produtos sistêmicos e/ou curativos.

O trigo cultivado na região sul do Brasil é exposto a diferentes estresses bióticos (pragas e doenças) e abióticos (estiagem, excesso de chuva, temperaturas altas ou muito baixas). Esses estresses impedem que cultivares de alto rendimento alcancem o seu máximo potencial produtivo. No Brasil, o trigo é cultivado no período de outono-inverno, se estendendo até meados da primavera. Durante este período, ocorrem grandes variações nas condições ambientais, especialmente na temperatura e umidade relativa do ar, o que favorece o desenvolvimento de diversas doenças, entre elas, as ferrugens. No mundo todo, causam perdas significativas de produtividade no trigo as ferrugens da folha, do colmo e a ferrugem amarela.

A ferrugem amarela, causada por Puccinia striiformis é de pouca importância no Brasil, onde somente casos esporádicos têm sido reportados. Esta doença tem maior importância em regiões mais frias (Europa, Austrália, Chile), sendo menos frequente em condições de clima subtropical, como no Brasil. A ferrugem do colmo (Puccinia graminis) é considerada a doença mais destrutiva do trigo, podendo causar perdas de 100% da lavoura devido a fragilidade e quebra dos colmos quando severamente afetados. O uso de resistência genética, entretanto, tem garantido o controle da doença desde meados da década de 90. Atualmente, a maioria das cultivares brasileiras de trigo apresenta resistência a essa doença.

A ferrugem da folha do trigo, causada pelo fungo Puccinia triticina Eriks. é a doença mais comum e, a mais amplamente distribuída ao redor do mundo. O ambiente é uma condição chave para a dispersão e germinação dos esporos de P. triticina, influenciando diretamente na variação da severidade das epidemias. A dinâmica populacional de P. triticina no Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile e Sul do Brasil) tem determinado uma vida curta da resistência das cultivares comerciais, já que o fungo sobrevive no verão-outono parasitando plantas voluntárias de trigo, que correspondem a principal fonte de inóculo no Brasil.

Alta incidência da ferrugem observada na folha bandeira
Alta incidência da ferrugem observada na folha bandeira

A ferrugem da folha é caracterizada pela presença de pústulas de coloração amarelo-escuro a marrom (Figura 1) ao longo da superfície foliar, podendo ocorrer em todas fases do desenvolvimento das plantas. Temperaturas oscilando entre, 15 ºC e 20 ºC e, alta umidade relativa do ar são as condições ideais para o progresso da doença. As perdas em produtividade ocorrem em decorrência da redução da área fotossinteticamente ativa e do transporte de fotoassimilados para as espigas, acarretando redução no peso de grãos. Em casos de epidemias severas já foram registrados valores de até 65% de perda de produtividade. A doença está associada ainda à redução da qualidade de grãos, o que influencia diretamente na qualidade de panificação.

A utilização de cultivares resistentes e o uso de fungicidas são frequentemente empregados como os métodos mais eficientes de controle da doença. Atualmente existem no mercado, cerca de 100 produtos comerciais registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para a ferrugem da folha em trigo. Destacam-se os grupos das estrobilurinas, triazóis, carboxamidas e ditiocarbamatos. Com a mudança da legislação de alguns anos para cá, hoje é possível se obter produtos comerciais com misturas de ingredientes ativos e mecanismos de ação, o que permite uma melhor eficácia no controle desta enfermidade, com destaque para: estrobilurina + triazol, estrobilurina + carboxamida e triazol + carboxamida.

Há uma tendência por parte dos agricultores a preferirem a mistura de estrobilurinas + triazóis, visto que apresenta uma maior eficiência a campo, pois possuem melhor capacidade fungitóxica e amplo espectro de ação, associados a um maior poder residual, que garante seu efeito por mais tempo na lavoura. Porém, cuidados devem ser tomados, não sendo recomendada a sua aplicação quando os grãos atingirem estágio de leitoso. Nesse estágio, o grão já está praticamente formado, ocorrendo, portanto, uma redução da eficiência e maior predisposição para acúmulo de fungicidas, o que inviabiliza a sua utilização como matéria-prima alimentar. 

O melhoramento de cultivares com resistência genética é uma opção ambientalmente segura e por isso, deve ser preferencialmente utilizada para o controle da ferrugem da folha. Além disso, diminui a necessidade de aplicações de fungicidas, resultando em redução de custos aos produtores. A resistência genética pode ser de dois tipos. A primeira é a resistência completa, que confere imunidade às plantas, não sendo observados sintomas de ferrugem a campo, ou seja, não há o desenvolvimento das pústulas. Esta resistência também é conhecida como vertical, por conferir resistência específica a determinadas raças do patógeno. Dessa forma, o uso da resistência completa em cultivares comerciais determina que esta seja superada em alguns anos após o seu lançamento, devido a alta pressão de seleção exercida pelas raças de P. triticina de maior virulência. O segundo tipo de resistência expressa-se principalmente na fase adulta e caracteriza-se pela redução na quantidade da doença, por isso é denominada como resistência de planta adulta (RPA). Em outras palavras, a planta exibe um padrão de suscetibilidade, porém ocorre um lento desenvolvimento da doença. Portanto, a RPA atua nos componentes da taxa de progresso da doença, como o período de latência, eficiência de infecção e tamanho das pústulas. Apesar de isoladamente a presença de RPA nas cultivares não garantir níveis de controle adequados, possibilita aumentar o intervalo e a eficiência das aplicações reduzindo o custo com fungicidas.

A ferrugem da folha do trigo é um dos principais vilões para a produção desta cultura no Sul do Brasil, pois está presente anualmente, em maior ou menor proporção, nas lavouras. Portanto, as estratégias para o manejo dessa enfermidade devem começar antes da implantação do trigal, com a escolha da cultivar, planejamento de aplicações com fungicidas protetores e, manutenção da doença em baixos níveis com o auxílio de produtos sistêmicos e/ou curativos.

O Trigo

O trigo hexaplóide (Triticum aestivum L.) consumido atualmente, de modo especial na forma de pães, é o resultado da domesticação de uma espécie que surgiu há mais de 10.000 anos, na região que hoje representa o Sudeste Asiático. Foi a espécie pioneira para a criação da agricultura, pois a partir do seu surgimento os homens deixaram de ser nômades e passaram a se fixar em regiões onde era possível o seu cultivo. Atualmente, o trigo é um alimento de primeira necessidade para mais de 50% da população mundial, especialmente nos países da Europa, América do Norte e norte Asiático. Além de ser o terceiro cereal mais cultivado no mundo, está largamente difundido em todos os continentes. Sozinho, o trigo é responsável por cerca de 1/5 (20%) de todas as calorias humanas consumidas no mundo inteiro, sendo a principal fonte de alimento em muitos países em desenvolvimento. 

De acordo com estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) a produção mundial de trigo para a safra 2016/2017 deve alcançar um novo recorde, com produção estimada em aproximadamente 248,37 milhões de toneladas. No Brasil, a triticultura é historicamente importante na região Sul, sendo o Rio Grande Sul o único estado autossuficiente na produção/consumo do grão. A produção nacional, entretanto, não atende a demanda dos brasileiros, o que torna o Brasil um importador deste grão, sendo a Argentina responsável por aproximadamente 75% das importações. Espera-se que em 2016, a Argentina colha em torno de 14 milhões de toneladas de trigo. Já a estimativa brasileira é de produzir 6,3 milhões de toneladas, sendo o Rio Grande do Sul responsável por aproximadamente 30% da produção nacional. Apesar de uma redução de 14,5% da área plantada na safra 2016, estima-se que o Brasil produza mais trigo que na safra passada, devido ao aumento de produtividade de 2,26 ton/ha para 3,0 ton/ha. 

No Rio Grande do Sul, o trigo é uma cultura de grande importância econômica. Quando as condições climáticas são adequadas e não há problemas severos com pragas e doenças, o retorno financeiro é garantido. Atualmente existem diversas cultivares de trigo desenvolvidas por entidades brasileiras que apresentam excelente qualidade de panificação, tornando o produto um pouco mais atrativo que o produzido a alguns anos atrás. 


Gerarda Beatriz Pinto da Silva, Francisco Saccol Gnocato, Geísa Finger, UFRGS


Artigo publicado na edição 211 da Cultivar Grandes Culturas.

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