Manejo da mancha púrpura no cultivo de alho orgânico

Em geral, a mancha púrpura do alho, causada pelo fungo Alternaria porri (Ellis) é uma das doenças que mais comprometem o rendimento da cultura no Brasil. Considerada de ocorrência generalizada em todas as regiões produtoras de alho, provoca perdas na produção que podem alcançar de 50% a 60% (Zambolim et al, 2000).

No sistema orgânico da Unidade de Referência em Agroecologia do Incaper, o alho é uma das culturas que participam do sistema de manejo adotado desde 1991 e, apesar deste sistema proporcionar um equilíbrio biológico do solo e aumentar a resistência das plantas a patógenos, ainda são observados altos níveis de intensidade de ocorrência de A. porri em campos de produção (Souza et al, 2011). Por este motivo, tem-se utilizado produtos protetores como a calda bordalesa e sulfocálcica, ao longo do ciclo da cultura.

Os sintomas iniciais da doença manifestam-se na forma de pequenas manchas brancas que rapidamente desenvolvem centro claro. Ao aumentarem de tamanho, as manchas tornam-se zonadas e coloração tipicamente púrpura, circundadas por um halo clorótico que se estende para cima e para baixo das folhas. Sob condições favoráveis, as lesões se recobrem com as estruturas de frutificação escuras do patógeno. As folhas amarelecem e secam a partir do ápice, reduzindo sua área fotossintética, e as folhas novas são emitidas às custas das reservas do bulbo, resultando na produção de bulbos pequenos (Nunes & Kimati, 1997; Jaccoud Filho et al, 1985). O progresso do processo infeccioso e o aumento da suscetibilidade estão associados ao aumento da idade das plantas e ao início do período de frutificação. Durante esta fase, ocorre uma demanda maior de açúcares e nutrientes para a formação dos bulbos, em detrimento da folhagem, o que favorece o processo infeccioso em órgãos exportadores (Rotem, 1994).

A alta umidade é o fator ambiental mais importante para o desenvolvimento da doença, pois o fungo é dependente de água para germinação do esporo e para esporulação na superfície da planta. O fungo pode crescer em temperatura variando de 6°C a 34°C, mas a faixa ótima de desenvolvimento situa-se entre 21°C e 30°C (Nunes & Kimati, 1997; Zambolim & Jaccoud Filho, 2000).

O experimento

Conhecer o momento certo da incidência de uma doença e empregar um controle efetivo no momento correto poderá promover aumento na produtividade da cultura (Pinto & Maffia, 1995). Na Figura 1 é possível observar o nível de dano que a alternária pode provocar na cultura do alho orgânico em poucos dias, comparando-se o campo sadio aos 100 dias (à esquerda) e totalmente infectado aos 140 dias (à direita). Assim, objetivou-se com este trabalho avaliar a influência da época de início de incidência de Alternaria porri sobre o desempenho vegetativo e produtivo do alho orgânico, para subsidiar a definição do momento adequado de controle.

O ensaio foi realizado na Unidade de Referência em Agroecologia do Incaper, em Domingos Martins, estado do Espírito Santo, a 950m de altitude. O plantio do alho ocorreu em 25/4/2011 e a colheita em 13/9/2011, totalizando um ciclo de 141 dias. Foi utilizada a cultivar Gigante Curitibanos, multiplicada no próprio sistema orgânico durante 21 anos, plantando-se os bulbilhos em canteiros com 0,20m de altura, 1,20m de largura, no espaçamento de 30cm entre linhas e 15cm entre plantas, representando uma área útil de 7.000m2 por hectare.

Foi realizada adubação de plantio a lanço, na dose de 15t/ha de composto orgânico (peso seco), incorporado ao solo antes do encanteiramento e, posteriormente, a adubação de cobertura foi feita com 400ml/m-2 de biofertilizante líquido aplicado via solo, quinzenalmente, a partir de 60 dias até o início da bulbificação. Além disso, foram realizadas capinas manualmente, sempre que necessário.

As avaliações experimentais iniciaram-se em 13/8/2011 (110 dias), marcando-se os blocos casualizados, com cinco repetições, contendo parcelas experimentais formadas por 20 plantas úteis. Os tratamentos foram constituídos por quatro padrões fenológicos (Figura 2), de acordo com o início da incidência da doença no campo, conforme a seguir:

1 - Início da incidência aos 125 dias após plantio (Nível 1 - baixo);

2 - Início da incidência aos 120 dias após plantio (Nível 2 - médio/baixo);

3 - Início da incidência aos 115 dias após plantio (Nível 3 - médio/alto);

 4 - Início da incidência aos 110 dias após plantio (Nível 4 - alto).

As avaliações foram realizadas na colheita, adotando-se a classificação comercial de bulbos com medidas de diâmetro igual ou superior a 30mm.

Analisando-se a produção de biomassa verde, produtividade comercial, peso médio e diâmetro médio de bulbos, verificou-se que houve efeitos significativos para todas as épocas de incidência (Tabela 1). Por outro lado, as incidências de alternária aos 125, 120 e 115 dias não provocaram efeitos diferenciados entre si, sobre a porcentagem de bulbos comerciais, diâmetro de pseudocaule e razão bulbar. Apenas a época de 110 dias diferiu das demais, reduzindo o número de bulbos comerciais em 30%, o diâmetro em 51% e a razão bulbar em 35%, respectivamente, em relação à época de 125 dias.

Tabela 1 - Características produtivas do alho relacionadas aos dias de início da incidência de Alternaria Porri. Incaper, Domingos Martins, 2011

Início infecção (dias)

Biomassa Verde

(g)

Bulbos comerciais

(%)

Produtividade

 

(kg ha-1)

Peso Médio (g)

Diâmetro (cm)

Razão Bulbar

Bulbo

Pseudo-

caule

125

2.073 a

100 a

8.657 a

55,65 a

5,46 a

1,09 a

0,20 a

120

1.684 b

100 a

7.335 b

47,15 b

5,17 ab

1,00 a

0,19 a

115

1.439 b

100 a

6.082 c

39,10 c

4,86 b

0,94 a

0,19 a

110

673 c

70 b

2.837 d

26,03 d

4,03 c

0,53 b

0,13 b

1 Médias seguidas pela mesma letra na coluna não diferem entre si, pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. 

Os efeitos das épocas de incidência sobre a biomassa verde e, por consequência, sobre a área foliar ativa, provocaram reduções significativas na produtividade e no peso médio de bulbos, para todas as épocas de incidência da doença. Na Figura 3, observa-se que as reduções aumentam com a incidência mais precoce da doença no campo.

Alho orgânico – Box

O crescimento do setor da agroecologia e agricultura orgânica tem demandado conhecimentos e tecnologias que possibilitem maior competitividade dos produtos orgânicos no mercado. Neste âmbito, o manejo fitossanitário de doenças, por meio de diagnose correta e de ações preventivas, é o caminho mais seguro e racional a ser trilhado para uma agricultura sustentável, onde se busca obter produtividades adequadas, com menor impacto ambiental, em especial na cultura do alho em sistema orgânico, onde esta questão destaca-se como um dos fatores mais relevantes.

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Lilian L Rodrigues e Paula M Bernardes; Jacimar L de Souza, Helcio Costa e Victor A Pereira