Manejo do ácaro da lichia

Minúsculo a ponto de ser pouco visível a olho nu, o ácaro da lichia causa danos tão graves que se não controlado consegue inviabilizar a produção das plantas afetadas. A aplicação de defensivos em pincelamento do caule ou dos ramos é uma das alternativas para minimizar os efeitos da praga, que desafia produtores e pesquisadores.

O ácaro da lichia (Aceria licthii) com cerca de 0,15mm a 0,17mm de comprimento (figura 1) é a mais nova praga introduzida no Brasil nessa cultura. Além de ser um ácaro minúsculo, pouco visível a olho nu, vive abrigado nas formações da erinose (ao que tudo indica uma alga denominada Cephaleuros virescens que se desenvolve em simbiose com  esse ácaro em função de sua alimentação, pois injeta uma toxina ao se alimentar dando formação a esse fenômeno). Para poder visualizá-lo do mesmo modo que o ácaro da falsa-ferrugem, que chega a ter 1,12mm de comprimento e que ataca frutos cítricos, deve-se colher as folhas atacadas com erinose e deixá-las por um dia, pois ao perceberem as folhas murchas, os ácaros começam a migrar, podendo dessa forma serem observados abandonando os eríneos, locomovendo-se nas nervuras ou locais sem tais formações. Como se pode observar esse ácaro é cerca de 6 a 7 vezes menor e somente um aumento com lente de 60 vezes permite visualizá-los facilmente.

Os estragos produzidos por esse ácaro são de tão grande importância que se não controlado, as plantas atacadas não produzem. Seu ataque ocorre apenas nas brotações, principalmente das estações quentes como a da primavera e verão. Em geral, a planta de lichia brota de 4 a 5 vezes por ano e essa praga ataca todas as vezes que surgem as brotações, sendo trazidas pelo vento ou pelas abelhas na época do florescimento, que ocorre no início da primavera. Esta última infestação é a mais prejudicial, pois a partir do florescimento, podem atacar também os frutos em desenvolvimento, surgindo frutos pequenos, defeituosos e mesmo manchados de coloração escura. O ataque na floração derruba as flores, reduzindo a frutificação. Porém, o ataque nas brotações mesmo durante o ano, enfraquece a frutificação e o desenvolvimento das plantas, comprometendo safras futuras.

Ácaro da enrinose da lichia em imagem aumentada 60 vezes.
Ácaro da enrinose da lichia em imagem aumentada 60 vezes.
Figura do inseto que mede de 0,15mm a 0,17mm.
Figura do inseto que mede de 0,15mm a 0,17mm.

Esse ácaro é da mesma família do ácaro da falsa-ferrugem em citros, cujos danos se manifestam pela sucção da casca e vazamento do óleo que em contato com a luz solar escurece os frutos, prejudicando a sua aparência. O ácaro pertence à família dos eriofídeos, cuja característica é possuir dois pares de pernas apenas, diferentes dos outros grupos que contém quatro pares. Assim, para se locomoverem rastejam a parte posterior do seu abdômen.

Na população existem machos e fêmeas; os machos não copulam as fêmeas, apenas depositam sacos de esperma, denominados espermatóforos, na superfície das folhas que são recolhidos pelas fêmeas que os introduzem no seu corpo para permitir a fecundação. Elas colocam ovos fecundados que dão origem a outras fêmeas; quando não fecundados, geram os machos. Os ovos medem 0,032mm de diâmetro, têm formato esférico, são colocados isoladamente e são translúcidos. Cerca de 13 dias após a oviposição, emergem os adultos. O período de incubação dura por volta de dois a três dias, a fase de ninfa II apresenta duração de oito a doze dias e os adultos apenas dois a três dias. Durante o ano podem ocorrer de 10 a 12 gerações.

Enquanto o ácaro da falsa ferrugem pode ser facilmente lavado pelas chuvas, pois vivem na superfície lisa das folhas e dos frutos cítricos, o acaro da lichia se protege nos eríneos, sem ser prejudicado. Por esta razão no período chuvoso, não é eliminado naturalmente como o dos citros.

Recentes pesquisas realizadas na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Piracicaba, São Paulo, no Departamento de Entomologia e Acarologia vem mostrando alguns resultados promissores no controle desse ácaro através de um sistema que pode facilitar os possuidores de  lichia em chácaras ou quintais, que  não possuem equipamento próprio para aplicação de defensivos em plantas de porte elevado

Em geral, se utilizam pulverizadores de alta potência para aplicação de acaricidas em plantas de grandes portes. Entretanto, proprietários que não dispõem de equipamentos próprios para esse fim irão encontrar nesse método solução para o controle da praga. Resultados promissores vem sendo obtidos com aplicação de defensivos em pincelamento do caule ou dos ramos dentro de um critério onde se estabeleceu uma fórmula para estimar a quantidade necessária do tóxico para eliminação da praga nos ramos.

Tendo em vista que o produto necessariamente requer penetração junto a seiva, precisa ter característica sistêmica, ou seja, ser solúvel para que possa circular juntamente com a seiva e atingir a brotação nova onde se localizam os ácaros. Dos produtos testados destacaram-se o dimetoato 40% e o carbosulfan 20%; o primeiro foi condenado pelo Ministério da Saúde restando, portanto, o segundo. Os demais produtos sistêmicos, embora de características modernas, menos agressivos, não ofereceram ainda resultados promissores.

A dosagem a ser recomendada se baseia no diâmetro dos ramos; através da medição do seu perímetro, que pode ser obtido diretamente com o uso de uma trena ou fita métrica, estabelece-se a dosagem do produto a ser aplicado, apenas multiplicando esse valor por dois, sempre para um metro de extensão do ramo ou tronco. Exemplo:

Se um ramo tiver 22cm de perímetro, a dosagem seria 22 x 2, ou seja, 44l do produto comercial sem diluição, pincelado ao longo de 1 metro do ramo ou tronco em toda a sua superfície (pode-se diluir um pouco o produto com água para melhor distribuição e absorção).

Levando em consideração que o produto sistêmico tem efeito residual de aproximadamente 15 a 20 dias, tal fator deve ser levado em conta por ocasião da sua aplicação. Como existem várias brotações anuais, deve-se respeitar aquela próxima à frutificação para evitar que os frutos produzidos se contaminem via sistêmica.

Além desse método, outros estão sendo pesquisados, no sentido de oferecer aos produtores de lichia, acaricidas orgânicos que poderão ser pulverizados em quintais ou chácaras, sem restrições.


Octavio Nakano, Lucas Ferreira de Oliveira, Esalq/Usp


Artigo publicado na edição 80 da Cultivar Hortaliças e Frutas

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