Manejo de daninhas em cana

Gramíneas e tiririca estão entre as daninhas que comumente infestam os canaviais e desafiam a produtividade. Ao realizar o controle químico dessas plantas indesejadas é preciso estar atento às características dos herbicidas, para que a escolha recaia sobre os que melhor atendem às necessidade da área cultivada e do momento em que será realizada a aplicação.

O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, com 9,1 milhões de hectares plantados na safra 2014/2015, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O aumento da demanda de produção se deve, principalmente, ao crescente uso do etanol como alternativa para a matriz energética mundial, em resposta a substituição dos combustíveis fósseis.  

Entretanto, apenas um terço da biomassa da cana é convertido em etanol, enquanto o restante constitui o bagaço e a palhada. Apesar da vasta extensão de área plantada, o país ainda apresenta média de produtividade abaixo dos três dígitos, considerada muito inferior quando comparada ao seu potencial produtivo acima de 100 toneladas/hectare.

Dentre os principais entraves para atingir os níveis adequados de produtividade, é possível citar a presença de plantas daninhas e a sua interferência na cultura da cana-de-açúcar. Essas espécies são indesejadas, agressivas e competem por água, nutrientes, espaço físico e luz, além de liberarem substâncias com efeitos alelopáticos e atuarem como hospedeiras intermediárias de pragas e patógenos.

A influência dessas plantas pode causar redução de até 80% da produtividade, aumentar o custo de produção (15% a 30%) com o uso de herbicidas, reduzir o rendimento operacional da colheita, afetar a qualidade da matéria-prima que entra na usina e reduzir a longevidade do canavial (3 a 5 cortes viáveis em média), fatores que tornam fundamental a adoção de boas práticas de manejo para preservar a lucratividade no setor.

Área altamente infestada pelo capim-colonião Panicum maximum
Área altamente infestada pelo capim-colonião Panicum maximum

Alguns autores comentam que a cultura da cana-de-açúcar é muito sensível a pragas, principalmente em épocas úmidas, nas quais nota-se um período crítico de intervenção: em média de 90 a 120 dias após a emergência da cultura e das plantas daninhas.

Pitelli (1985) comenta que essa interferência é influenciada por fatores ligados a cultura da cana, como variedade, espaçamento, densidade de plantio ou de falhas, época e extensão do período de convivência. Condições características das próprias plantas daninhas (espécies, nível de infestação, densidade e distribuição na área) que intervêm nesse período. Dentre as principais espécies estão as “velhas conhecidas” gramíneas e tiririca, entre outras que infestam os canaviais das diferentes regiões do Brasil. (Tabela 1)

Tabela 1
Tabela 1
Tabela 1
Tabela 1
Tabela 1
Tabela 1

A alternativa mais utilizada pelas usinas e fornecedores é o controle químico dessas plantas nos canaviais em período úmido com herbicidas pré-emergentes, logo após o plantio ou corte da cultura da cana - em área total, e/ou pós-emergência, em aplicação dirigida ou em área total, conforme a seletividade do herbicida e a eficácia de controle.

No entanto, uma das grandes dificuldades para manejar áreas com altas infestações de gramíneas, ciperáceas e outras plantas é ajustar a recomendação dos herbicidas e suas doses, a fim de manter a seletividade da cana e promover um eficiente controle, considerando a diversidade das espécies de gramíneas e o residual de controle necessário aliados à flexibilidade de aplicação em cana-planta ou em cana-soca de final de safra e em épocas úmidas. Outra preocupação é a adequação do custo conforme planejamento e orçamento previstos.

Para o manejo, em todas as fases do sistema produtivo, a seleção dos herbicidas e a definição de doses, épocas e números de aplicações são imprescindíveis para o sucesso do setor canavieiro. Os herbicidas aplicados corretamente, levando em conta uma ou duas aplicações sequenciais durante o ciclo, reduzirão os danos e promoverão significativa diminuição dos níveis de infestação ao longo dos anos. Além disso, haverá menos custos adicionais, com aplicações complementares e repasses de herbicidas que não estavam planejados e orçados, refletindo em bons níveis de produtividade e competitividade.

Dentre as principais alternativas de manejo, recomendam-se as aplicações em pré-plantio incorporado (PPI) de herbicidas com ação em gramíneas com clomazone e trifluralina, associados ou não ao herbicida sulfentrazone, que possui excelente ação no controle de tiririca. Também são indicadas aplicações sequenciais com herbicidas mais seletivos em pós-plantio da cana em pré-emergência das gramíneas e tiririca, como associações de sulfentrazone e clomazone; sulfentrazone e tebuthiurom; metribuzim, diuron, ametrina, atrazina ou hexazinona com diuron. .

A seleção dos produtos a serem utilizados em pós-plantio deve considerar o período de controle desejado entre o plantio e a operação de sistematização da área, com o objetivo de facilitar a posterior colheita mecânica. Quando a operação de quebra-lombo ocorrer em 30 a 60 dias após o plantio, é possível selecionar herbicidas e/ou associações com residuais mais curtos e com custos mais acessíveis, como diuron, ametrina, clomazone e atrazina.

Caso a operação de sistematização seja realizada entre 60 e 90 dias, deve-se optar por herbicidas e associações com residuais mais longos. Após o processo, também se faz necessária a aplicação de herbicidas com residuais mais extensos, como tebuthiurom, sulfentrazone, clomazone e hexazinona com diuron, entre outros, eliminando a interferência das plantas daninhas em cana-planta.

Já no caso do manejo de plantas daninhas em cana-soca, é importante estar atento para a seleção do herbicida ou das associações a serem utilizadas, pois poderão resultar em fitotoxicidade elevada à cana-de-açúcar e/ou baixa eficácia de controle.

Portanto, é fundamental sempre considerar a seletividade do herbicida à cultura, compatibilidade entre diferentes produtos, o nível de infestação e as espécies de plantas daninhas presentes na área, além do estágio de desenvolvimento e em que época do ano essas plantas irão competir com a cultura. Os herbicidas tebuthiurom, diuron, hexazinona com diuron, clomazone e sulfentrazone são os mais versáteis e permitem alternativas interessantes, tanto em aplicação única quanto em aplicações sequenciais planejadas.   

 Em resumo, a definição de estratégias de manejo de plantas daninhas, incluindo as diferentes espécies de gramíneas e tiririca nas épocas úmidas, poderá auxiliar o setor sucroenergético a superar os níveis atuais de produtividade, tornando o sistema mais sustentável. 


Roberto Estêvão Bragion de Toledo, Edson Donizeti de Mattos, Ourofino Agrociência


Artigo publicado na edição 214 da Cultivar Grandes Culturas.

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