Manejo de fungos e nematoides em soja

A emergência e o estabelecimento de plântulas de soja são constantemente desafiados por agentes patogênicos, transmitidos via sementes ou presentes no solo, capazes de comprometer a sanidade já na fase inicial do cultivo.  É o caso de Rhizoctonia solani e Meloidogyne javanica. A associação de tratamento químico de sementes com nematicida de origem natural pode auxiliar no manejo deste tipo de problema. 

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de soja, estando com uma estimativa para a safra 2016, de mais de 99 milhões de toneladas do grão. Somente a Região Sul do Brasil é responsável pela produção de mais de 30 milhões de toneladas de soja. Apesar do cenário bastante otimista para a cultura, uma das principais dificuldades enfrentadas têm sido os problemas de emergência e estabelecimento das plântulas. Vários agentes patogênicos interferem na sanidade das novas plântulas, principalmente fungos, que além de estarem presentes nos restos culturais, também podem ser transmitidos via sementes. A morte em reboleira, causada por Rhizoctonia solani tem baixa transmissão via semente, porém, é comum no solo e em restos culturais, em função da sua característica polífaga. O fungo causa tombamento e morte em pós-emergência. Rhizoctonia solani é um dos mais importantes, pois ocasiona além do tombamento, mela ou requeima da soja e podridão aquosa e negra da base da haste, em diferentes estádios fenológicos de desenvolvimento da cultura. Além dos danos provocados por fungos de solo, a cultura da soja também é atacada por nematoides, que em caso de ocorrência concomitante com alguns patógenos de solo, podem potencializar o efeito negativo de ambos, prejudicando ainda mais o desenvolvimento das plantas.

É comum em algumas áreas, a associação de fungos de solo como Rhizoctonia solani e Fusarium spp. com alguns nematoides, especialmente, Meloidogyne javanica e M. incognita, que são duas espécies capazes de ocasionar vultosas perdas, especialmente na região sul do Brasil. É sabido que nematoides fitoparasitos podem predispor as plantas, mesmo que resistentes, à ação de fungos fitopatogênicos habitantes do solo.

O controle de patógenos de solo, em geral, é tarefa de difícil realização. Em função disso, vem surgindo a necessidade de resgatar a utilização de substâncias naturais, biologicamente ativas, contra as pragas e patógenos, bem como a utilização do controle biológico. Outro fator de grande importância que contribuiu para o interesse pelas substâncias naturais foi o avanço do sistema orgânico de produção. Com isso, houve necessidade de se buscar práticas agrícolas de baixo impacto ambiental, que pudessem agregar controle, reduzindo a utilização do controle químico. Diante disso, as plantas com suas propriedades antagônicas com ação antifúngicas e helmínticas, se tornam uma ferramenta importante junto à área de proteção de plantas e ao controle biológico. 

A principal vantagem relacionada ao uso de extratos vegetais em proteção de plantas, quando comparados aos produtos sintéticos, deve-se ao fato dos compostos, como saponinas, taninos, fenóis e polifenóis, não serem inativados facilmente por esses patógenos, possuindo amplo modo de ação sobre patógenos. Diante disso, buscou-se com este trabalho, avaliar o efeito dos fungicidas Fluxapiroxade (0,06 L/100 Kg de sementes), Piraclostrobina + Tiofanato Metílico + Fipronil (0,2 L/100 Kg de sementes) em tratamento de sementes em combinação com QL-agri 35 (40 L/ha divididos em duas aplicações). Além deles, utilizou-se Abamectina 500 FS como padrão nematicida. O ensaio foi conduzido em solo infestado por Rhizoctonia solani e Meloidogyne javanica na cultura da soja.

A incidência e severidade de Rhizoctonia solani, bem como, o número de nematoides nas raízes de soja, foi reduzida pela utilização dos tratamentos utilizados (Figuras 1 e 2).  

Nas avaliações realizadas aos 14, 21 e 28 dias foi possível observar que, na testemunha onde houve inoculação de fungo e nematoides, foi encontrado um número maior de juvenis de M. javanica penetrados nas raízes (Figura 2). Os tratamentos contendo Fluxapiroxade +QL Agri (0,06 L/100 Kg + 40 L/ha) e Piraclostrobina +Tiofanato metílico + Fipronil (0,2 L/100 Kg+ 40 L/ha) proporcionaram controle superior ou próximo a 80% até os 21 DAS da soja, evidenciando, portanto, um aumento no residual dos produtos, mesmo em uma situação de alta infestação do solo com o patógeno em questão (Figura 1). Houve redução na população de nematoides ocasionada pela combinação dos tratamentos de semente, com o QL Agri 35. Nesse caso, aos 28 DAS, a redução de nematoides ocasionada pelas combinações de Fluxapiroxade +QL Agri e Piraclostrobina +Tiofanato metílico + Fipronil foram estatisticamente superiores a aquela proporcionada pela Abamectina. Esse fato está relacionado com a sinergia entre os fungicidas com o nematicida QL agri 35 que é um produto à base de extrato de Quillay (Quillaja saponaria). A ação do QL Agri 35 se dá por contato ou ingestão, atuando principalmente sobre lipídios dos nematoides, alterando dessa forma, a permeabilidade das membranas celulares. 

Figura 1- Controle de Rhizoctonia solani em raízes de soja  em solo inoculado com Rhizoctonia solani e M. javanica aos  21 dias após a semeadura. Itaara, 2015.
Figura 1- Controle de Rhizoctonia solani em raízes de soja em solo inoculado com Rhizoctonia solani e M. javanica aos 21 dias após a semeadura. Itaara, 2015.
Figura 2- Número de nematoides juvenis de M. javanica penetrados  em raízes de soja aos 7 DAS. Itaara, 2015.
Figura 2- Número de nematoides juvenis de M. javanica penetrados em raízes de soja aos 7 DAS. Itaara, 2015.

Quando consideradas as avaliações de severidade de Rhizoctonia solani nas raízes de soja, a Tabela 1 mostra que o número de juvenis de M. javanica está altamente relacionado com a severidade da doença e com a área abaixo da curva de progresso da doença. Essa correlação está relacionada com o fato da penetração dos nematoides nas raízes, abrirem uma “porta” que facilita a entrada de fungos de solo. A exemplo do que foi observado no tocante à interação entre nematoides e fungos de solo, a patogenicidade de Pratylenchus spp. pode ser influenciada pela interação com outros patógenos, principalmente fungos habitantes de solo. As interações mais frequentemente relatadas são com fungos causadores de murchas, dos gêneros Fusarium sp. e Verticillium sp.. Essas interações entre o nematoide e o fungo são consideradas sinérgicas, ou seja, a associação entre os dois patógenos resulta em danos maiores que a soma dos danos de cada patógeno isolado. Em função disso, é importante a associação de fungicidas com maior residual de controle.

Nesse sentido, é importante pensar sempre no contexto de manejo integrado de doenças, buscando associar técnicas que juntas, diminuam o impacto negativo dos micro-organismos no sistema agrícola, preferencialmente, com menor impacto ambiental possível. Como a utilização de produtos à base de extrato de plantas, é possível agregar residual a produtos já existentes, melhorando, o controle de doenças.


Caroline Gulart, Paulo Sergio Santos, Instituto Phytus; Ricardo Balardin, Jacson Zuhl, UFSM


Artigo publicado na edição 204 da Cultivar Grandes Culturas.

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