Manejo de lagartas Diaphania hyalinata em cultivo de abóbora japonesa

Em fevereiro de 2014 a equipe de Entomologia da Embrapa Clima Temperado foi chamada para tomar conhecimento de uma ocorrência inusitada em Capão Seco, estrada da Barra Falsa, 3º distrito do município de Rio Grande, Rio Grande do Sul (31º51'09.01''S, 52º18'45'20''0), propriedade de Jorgina Vaz Ávila: um grande surto de lagartas em uma lavoura de aproximadamente um hectare de abóbora japonesa. A lavoura estava localizada em uma região de terras planas (4m do nível do mar), onde a atividade agrícola principal é a pecuária de leite e o cultivo de arroz. No entorno da área havia uma pequena mata, banhados e uma mangueira para o gado, ao lado da residência dos proprietários.

Segundo relatos dos proprietários, as lagartas teriam vindo da região onde estão localizados os banhados. Em um primeiro momento, a equipe, ao se aproximar da área em questão, percebeu que o aspecto geral era de que alguém tivesse pulverizado herbicida sobre a lavoura, já que se apresentava com coloração dourado-amarelada, como se estivesse queimada. Praticamente a única parte vegetal que se via eram os pecíolos da grande maioria das plantas e alguns frutos. Em uma pequena área algumas plantas ainda tinham folhas que estavam sendo devoradas pelas lagartas. A proprietária relatou que, inicialmente, percebia-se de longe uma mancha escura na lavoura parecendo se tratar de alguma doença.

Ao se aproximar da lavoura, a proprietária pôde constatar o que estava ocorrendo, ou seja, que não se tratava de doença e sim da presença de muitas lagartas na lavoura. Recomendou aos familiares, que trabalham na propriedade, que colhessem imediatamente os frutos, temendo grande perda, pois, por onde as lagartas passavam, “iam devorando tudo". E não estava enganada, pois em torno de cinco dias a lavoura foi praticamente dizimada pelas lagartas. A proprietária relatou que o surto ia acontecendo em faixas e os frutos, à medida que iam sendo colhidos, eram deixados num ponto da lavoura, aguardando para ser recolhidos mais tarde, o tempo suficiente para serem completamente infestados de larvas, tamanha era a infestação na área. Após a inteiração destes fatos, foram examinadas algumas larvas com mais cuidado, e suspeitou-se tratar de lagartas de Diaphania sp. Ao caminhar por entre as plantas tombadas, constataram-se alguns adultos sobre as plantas, em pequena quantidade, confirmando se tratar da espécie Diaphania hyalinata (L. 1758). Esta espécie tem distribuição desde o Canadá até a América do Sul e é praga-chave das cucurbitáceas, sendo estudada, principalmente, em culturas de interesse econômico como o melão e a melancia.

Por pertencer à ordem dos lepidópteros (borboletas e mariposas), passam pelas fases de ovo, larva (ou lagarta), pupa (ou crisálida) e adulto durante o seu ciclo vital. A fase de larva é que causa prejuízos, pois as mesmas atacam folhas, brotos novos, ramos, flores e frutos não só de abóboras, como de melões, melancias, pepinos, buchas e maxixes. Pode-se constatar a presença desta lagarta, em grande quantidade, principalmente dentro dos caules, onde se alimentam. O ataque aos ramos pode induzir a seca à parte aérea da planta, mas neste caso o que se observou é que, devido ao número muito grande de lagartas, o primeiro alimento consumido foram as folhas e, mais tarde, os pecíolos. Depois, foi a vez dos frutos. O ataque se deu de forma maciça, com centenas de lagartas ocasionando, inicialmente, raspagem do tegumento e, após, o aprofundamento nos tecidos do vegetal até a sua completa destruição. As larvas passam por cinco instares larvais e, quando atingem o tamanho máximo, alcançam cerca de 20mm de comprimento. Apresentam coloração verde-claro com duas listras dorsais brancas. Ao empuparem, procuram material orgânico em decomposição, onde tecem um casulo e se transformam em pupa. Observou-se na vegetação circundante à lavoura de abóbora, grande quantidade de pupas entre folhas de árvores e arbustos e também lagartas procurando local para empupar, unindo duas folhas ou dobrando os bordos de uma mesma folha, um sobre o outro, para empupar entre eles. Foram encontradas dezenas de pupas de D. hyalinata em capim sudão [Sorgum sudanense (Piper) Stapf.], Capsicum sp., fumo-bravo (Solanum mauritanum Scop.) e camboim (Eugenia crenata Vell) provavelmente devido ao fato de não haver mais local de pupação na área de lavoura, por conta da destruição das plantas de abóbora. Em geral, a duração da fase larval é de seis a oito dias. O adulto de D. hyalinata é uma mariposa com asas de cor branca, com uma faixa marrom-escura retilínea nos bordos, exceto nos das asas posteriores. No último segmento abdominal há um tufo de cerdas escuras. Podem atingir 30mm de envergadura. A duração desta fase varia de três a 16 dias. Depositam os ovos isoladamente ou em pequenos grupos nas folhas, flores e frutos. O período de incubação é de quatro dias a 25 ± 1ºC. As larvas recém-eclodidas se alimentam de folhas, caules, flores e frutos. O ciclo de vida dura de 27 a 34 dias.

As cucurbitáceas representam cerca de 20% da produção de olerícolas no mundo e se constituem em fonte de renda para muitas famílias agricultoras. D. hyalinata causa perdas econômicas em espécies de cucurbitáceas nos diversos países onde é relatada a sua ocorrência. Na propriedade em questão, as perdas foram da ordem de 80% da produção. Em propriedades de produção familiar, em geral não é feito nenhum tipo de controle. Nas de produção comercial o controle é feito, geralmente, sobre as larvas que se alimentam das folhas, com a aplicação de inseticidas, normalmente não recomendados, haja vista o número reduzido de produtos indicados para a cultura e a não disponibilidade desses defensivos, muitas vezes, no comércio local. Isto tem favorecido surtos de outras pragas. Há escassez de conhecimentos sobre os fatores determinantes do ataque desta praga. Nesse sentido, estudos para se conhecer a dinâmica populacional desta espécie, quais fatores interferem na intensidade de ataque às cucurbitáceas e a sua relação com o clima e os inimigos naturais, são de suma importância, pois servirão de base, juntamente com outros métodos, para o manejo integrado deste inseto. Além disso, estudos de nível de dano e controle também são muito importantes, fornecendo dados para a tomada de decisão.

As cucurbitáceas, por serem importantes fontes de alimentos para diversas espécies de insetos e dependentes de polinizadores, requerem estudos de produtos de baixo impacto ambiental. Nessa linha, o Bacillus thuringiensis tem apresentado bons resultados no controle deste inseto. Diversos trabalhos na linha de resistência de espécies de cucurbitáceas, teste com produtos de origem vegetal, de baixo impacto ambiental, sistemas de cultivo (rotação e escalonamento de semeadura), uso intercalado com plantas armadilhas e seus efeitos sobre a incidência de pragas e seus biorreguladores têm sido realizados. É recomendada a destruição das partes atacadas pela praga como parte do processo de manejo do inseto. Mas os métodos sugeridos só terão efetividade se o produtor realizar acompanhamento periódico-sistemático da lavoura, pois os insetos exigem atenção continuada, caso contrário, irão causar prejuízos à produção. A conscientização sobre os acontecimentos que ocorrem na lavoura constitui-se em fator de fundamental importância para a adoção de medidas de controle eficientes.

Este artigo foi publicado na edição 88 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas. Clique aqui para ler a edição.

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Mirtes Melo, Dori Edson Nava, Valter Abrantes

Embrapa Clima Temperado

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