Manejo de nematoides em algodão

De hábito subterrâneo e de difícil visualização, nematoides causadores de danos econômicos são diminutos seres silenciosos, com potencial para provocar prejuízos gigantescos. O mais rápido e eficiente manejo desses organismos habitantes do solo reside na adoção de técnicas conjuntas, como cultivo de material resistente, tratamento químico de sementes, adoção de cultura com baixo fator de reprodução na entressafra e integração com controle biológico.

Durante o desenvolvimento fenológico da cultura do algodão vários são os fatores que podem afetá-lo negativamente. Destacam-se os fitonematoides causadores de danos econômicos, pois prejudicam a absorção de água e nutrientes causando a diminuição da produtividade. As principais espécies de nematoides causadoras de danos na cultura do algodão são Meloidogyne incognita, Pratylenchus brachyurus e Rotylenchulus reniformis.

Segundo levantamento realizado anualmente pelo Laboratório da AgroLab em Primavera do Leste/Mato Grosso, tem-se a seguinte distribuição no estado (Gráfico 1).

Gráfico 1. Distribuição (%) dos gêneros de nematoide no Estado do Mato Grosso, safra 2015/16. Laboratório AgroLab. Primavera do Leste/MT. 2016.
Gráfico 1. Distribuição (%) dos gêneros de nematoide no Estado do Mato Grosso, safra 2015/16. Laboratório AgroLab. Primavera do Leste/MT. 2016.

Os valores observados no Gráfico 1 correspondem a porcentagem em que cada gênero é encontrado nas amostras. Claro que estas amostras não são somente da cultura do algodão, mas na maioria dos casos as culturas mais cultivadas são soja, milho e algodão.

Nematoide das lesões (Pratylenchus brachyurus)

A elevada disseminação Pratylenchus brachyurus é o que chama mais a atenção, pois está presente em 99% das amostras. Prefere solo arenosos, e as plantas atacadas não se desenvolvem normalmente. As áreas afetadas são mais difíceis de serem identificadas, pois não há a formação de galhas e de reboleiras, típicas dos nematoides. Às vezes, Pratylenchus brachyurus provoca um amarelecimento na parte aérea da planta, mas o fato mais importante é a diminuição do sistema radicular.

Suas populações variam muito, e chegam a níveis astronômicos em áreas propícias (60.000 juvenis em 10 gramas de raiz).

Danos causados pela nematoide das lesões (Pratylenchus brachyurus), na cultura do algodoeiro, diminuição de porte da planta e menor quantidade de raízes.
Danos causados pela nematoide das lesões (Pratylenchus brachyurus), na cultura do algodoeiro, diminuição de porte da planta e menor quantidade de raízes.

Nematoide das galhas (Meloidogyne incognita)

Na cultura do algodoeiro as raças 3 e 4 são as mais comuns, sendo este nematoide o principal causador de danos na cultura. Ocorre de maneira mais localizada, sendo sua predominância em reboleiras e em áreas mais específicas. Provoca sintomas na parte aérea do algodão (folha carijó) e nas raízes (galhas) o que facilita sua identificação. Causa também danos à cultura da soja, e ainda infecta algumas coberturas utilizadas pelos cotonicultores na entressafra.

O nematoide reniforme (Rotylenchulus reniformis)

O nematoide reniforme (Rotylenchulus  reniformis Linford & Oliveira 1940)  é um importante patógeno radicular de diversos cultivos de interesse econômico em regiões tropicais e subtropicais, sendo relatado associado às culturas de melão, maracujá, tomate, soja e algodão, no Brasil. Durante muito  tempo, R. reniformis foi considerado um nematoide de pouca importância, provavelmente devido a ausência de sintomas característicos nas plantas parasitadas, diferentemente do que ocorre com os nematoides das galhas, mais comuns no algodoeiro..

Ainda é o menos frequente, salvo algumas regiões que já possuem altas populações e danos agressivos. Tem preferência por solo argilosos e talvez por isso sua frequência seja mais baixa no estado do Mato Grosso. Aparece em apenas 3% das amostras. 

Técnica de coloração de Pratylenchus brachyurus no interior de raiz algodão. Laboratório da AgroLab.
Técnica de coloração de Pratylenchus brachyurus no interior de raiz algodão. Laboratório da AgroLab.

Análise nematológica

Para a aplicação de estratégias de manejo de nematoides é necessária a realização prévia de análise em laboratório, coletando amostras de solo e raízes com envio a um laboratório de Nematologia que oferece este serviço. Em alguns casos não é possível fazer o diagnóstico correto somente com base em observação visual de sintomas no campo. A análise em laboratório, portanto, é imprescindível para o manejo de nematoides. Os resultados da análise devem conter informações sobre a identificação e a quantificação das espécies presentes no local. Com base nessas informações, o profissional responsável terá condições de estabelecer um plano de ação para o manejo (ou controle) adequado, com o objetivo de reduzir os danos e prejuízos.

Os resultados das análises nematológicas devem expressar, da maneira mais confiável possível, a situação real no campo, em relação aos nematoides que ocorrem em um determinado local. Nesse sentido, é muito importante que a coleta de amostras no campo seja feita corretamente.

Nematoide reniforme na raiz do algodoeiro.
Nematoide reniforme na raiz do algodoeiro.

MANEJO DE NEMATOIDES

Atualmente existem várias alternativas de manejo que podem ser empregadas para diminuição das populações de nematoides. A primeira e mais importante consiste em evitar a disseminação dos nematoides. Toda disseminação ocorre através do transporte de partículas de solo, seja por erosão, transporte de máquinas ou equipamentos ou por outro veículo que carregue solo.

Materiais resistentes

Para a cultura do algodão são poucos os materiais resistentes aos três principais nematoides. Atualmente a resistência ocorre para Meloidogyne incognita e Rotylenchulus reniformis. Não existe ainda nenhum material resistente ao nematoide das lesões. O que ocorre são materiais com fatores de reprodução diferentes, alguns mais elevados e outros menos.

Diferença entre material suscetível e resistente ao nematoide das galhas (Meloidogyne incognita).
Diferença entre material suscetível e resistente ao nematoide das galhas (Meloidogyne incognita).

Controle físico

O revolvimento do solo, as vezes, é uma opção, mas ao mesmo tempo pode disseminar os nematoides. Contudo, pode também contribuir para diminuir a população daqueles que ficam expostos a luz solar. Esta opção é bastante discutida, mas deve ser sempre bem avaliada levando em conta o bom senso para verificação desta técnica.

Culturas alternativas

Existem atualmente várias culturas sendo utilizadas como alternativas para redução das populações de nematoides. Estudos realizados pela AgroLab, tem demonstrado grande eficiência na utilização de crotalarias, milhetos, mamona, sorgo, e milho como redutores de nematoides. Estas culturas estão sendo inseridas no sistema de manejo do Mato Grosso aos poucos, sendo ainda necessários mais estudos.

Controle biológico

Produtos biológicos constituídos de fungos ou bactérias estão sendo amplamente utilizados como controle de nematoides. A maioria a base de Paecilomyces lilacinus, Bacillus subtilis e Pasteuria spp. Este produtos são altamente eficientes se utilizados de maneira correta. O maior problema encontrado reside na hora da aplicação, pois são organismos vivos e não podem ser manuseados a qualquer momento do dia. As restrições são de ordem operacional e de transporte/armazenagem.

Controle Químico

A maioria dos produtos químicos são utilizados via tratamento de sementes, e em alguns casos via sulco de plantio. São produtos eficientes, com ação mais rápida que a de outros, mas com algumas restrições quanto a toxicidade e período em que agem no solo. É uma excelente opção, mas isoladamente muito perigosa, podendo não ser tão eficiente quanto várias opções conjuntas. 

O MAIS IMPORTANTE PARA MANEJO DE NEMATOIDE

Uma vez presente na área, nunca mais as populações serão zeradas. A convivência será inevitável. O melhor, mais rápido e mais eficiente manejo é a adoção de técnicas conjuntas, ou seja, material resistente juntamente com tratamento químico de sementes, depois uma cultura com baixo fator de reprodução na entressafra. Posterior a isso a adoção de um controle biológico, e assim sucessivamente.
Ano após ano as populações estão aumentando rapidamente e em todas as regiões. O problema pode passar despercebido nos primeiros anos, mas com certeza os danos virão nas safras seguintes. A não adoção de medidas de manejo pode acarretar grandes prejuízos ou até inviabilizar a produção em áreas com elevadas populações.

Lembretes importantes 

1) Levantamento de onde está o problema, quais são os nematoides e suas  quantidades;
2) Organizar um plano de plantio/pulverização/colheita nas áreas, separadamente, para não disseminar;
3) Adotar um sistema de manejo para nematoides, com várias opções conjuntas;
4) Avaliar rotineiramente as opções e os resultados de cada prática;
Se estes fatores forem satisfeitos, com certeza o nematoide não diminuirá a produção e não será um problema.


Tatiane Cheila Zambiasi, Emanoelli Tonetti, Juliana do Nascimento Azevedo,Agrolab


Artigo publicado na edição 214 da Cultivar Grandes Culturas.

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