Manejo de percevejos em soja

O percevejo-marrom, Euschistus heros é a espécie com maior abundância em soja. Durante a safra apresenta três gerações, mas pode completar a quarta após a colheita ao se alimentar de plantas hospedeiras e entrar em dormência durante sete meses. Vários aspectos devem ser cuidadosamente observados, mas o monitoramento antes e depois da aplicação de produtos fitossanitários é fator indispensável para saber quais medidas de controle precisam ser adotadas.

Os percevejos fitófagos, presentes principalmente nos sistemas de produção que envolvem a soja como principal cultura, tem causado grandes prejuízos aos produtores brasileiros. E as condições da região Centro Oeste brasileira apresentam características que propiciam o desenvolvimento destas pragas.

Na cultura da soja, dentre as espécies de percevejos, o percevejo-marrom, Euschistus heros (Heteroptera: Pentatomidae) apresenta ampla distribuição nas lavouras da região do Cerrado. Outras espécies de percevejos estão associadas ao agroecossistemas como o percevejo barriga-verde (Dichelops melacanthus), o percevejo Edessa (Edessa meditabunda) e o percevejo verde-pequeno (Piezodorus guildinii), apresentando altas infestações em alguns casos.

Postura de percevejos em plantas de soja em estádio vegetativo.
Postura de percevejos em plantas de soja em estádio vegetativo.

Na região dos Chapadões a soja é a principal cultura, com a maior área. Trata-se normalmente da primeira cultura a se instalar no campo, recebendo o início da colonização das gerações de pragas. Os diferentes hospedeiros, além de plantas daninhas e tigueras da cultura anterior fazem parte do sistema de rotação/sucessão de culturas da região.

Dentre os percevejos, o marrom, E.heros, é a espécie com maior abundância nas amostragens realizadas na cultura da soja. Vale destacar que apresenta grande adaptação ao clima.

Durante a safra da soja E. heros normalmente apresenta três gerações, podendo se alimentar de outras culturas, como nabo-forrageiro, pastagens, crotalaria, girassol, entre outras e também de espécies de plantas daninhas como trapoeraba, amendoim-bravo, nabiça, buva, amargoso, dentre outros. Após a colheita da soja, alimentando-se destas plantas hospedeiras, os percevejos podem completar a quarta geração e entrar em dormência (diapausa) na palhada da cultura anterior, onde se protege da ação dos parasitóides e predadores. Nesse período, que dura aproximadamente sete meses, pode também não se alimentar, conseguindo sobreviver das reservas de lipídeos que foram armazenadas antes da diapausa.

Frequência de pragas em trapoeraba em levantamento no mês de setembro de 2015, região dos Chapadões. Fundação Chapadão. Chapadão do Sul/MS
Frequência de pragas em trapoeraba em levantamento no mês de setembro de 2015, região dos Chapadões. Fundação Chapadão. Chapadão do Sul/MS

A infestação se inicia normalmente com pontos de maior concentração nos talhões, podendo levar a erros no levantamento. Algumas áreas com refúgios próximos podem levar a entrada (migração) nos talhões e consequentemente ao começo da infestação.

Dispersão de percevejos em talhão de soja. Pontos vermelhos índices de percevejos maior que 2 indivíduos por metro, pontos verdes escuros 0 indivíduos. Fundação Chapadão 2012.
Dispersão de percevejos em talhão de soja. Pontos vermelhos índices de percevejos maior que 2 indivíduos por metro, pontos verdes escuros 0 indivíduos. Fundação Chapadão 2012.

Os percevejos, de modo geral, apresentam preferencia pelas vagens na cultura da soja e no início da sua formação concentram-se nestas partes, tanto como as ninfas e os adultos. Em alguns casos, nas folhas das plantas pode ser encontrado somente 10% da população total presente na planta.

Ao sugarem as vagens e sementes, os percevejos podem injetar toxinas que provocam a “retenção foliar”, ou seja, as folhas não caem normalmente e dificultam a colheita mecânica.

Outro ponto a ser analisado na biologia desta praga é que os percevejos podem, em certos momentos do dia, dependendo do clima da região, se apresentar mais expostos. No caso da região dos Chapadões este período vai das 9 horas às 11 horas da manhã. No entanto alguns trabalhos de outras regiões, e outras espécies de percevejos, não apresentaram o mesmo comportamento.

Danos em grão de soja provocados pelo ataque de percevejos.
Danos em grão de soja provocados pelo ataque de percevejos.

Outra espécie que tem se destacado nestas últimas safras é o percevejo barriga-verde Dichelops (Dichelops melacanthus), em virtude do aumento de plantas tigueras de milho nas lavouras de soja, interação com plantas daninhas, e consequentemente maior adaptação ao meio. Os adultos apresentam espinhos laterais e possuem o corpo na coloração marrom uniforme e a região ventral de coloração verde. Apresentam o tamanho em torno de 9mm de comprimento. Os ovos são colocados em placas e possuem coloração verde. Esta espécie é uma das mais importantes pragas na cultura do milho, e o seu manejo passa primeiramente pela cultura antecessora, no caso a soja, principalmente no cultivo do milho segunda safra (safrinha). A sobra das safras anteriores tem levado a prejuízos enormes em algumas regiões do Brasil.

Outras espécies de percevejos da família Pentatomidae são encontradas atacando as culturas. Entretanto, em menor abundância, como é o caso do percevejo-pequeno Piezodorus guildinii, Edessa meditabunda, percevejo-verde (Nezara viridula), Thyanta perditor e Acrosternum sp.. Estes percevejos isoladamente podem não causar perdas na produtividade e qualidade dos grãos, mas é preciso somar os danos destes aos das espécies principais.     Desse modo, são responsáveis por redução no rendimento e qualidade da semente, em conseqüência das picadas. Os grãos atacados ficam menores, enrugados, chochos e tornam-se mais escuros.

As perdas pela sucção das vagens e grãos tendem a ser superiores a 30%, podendo também provocar manchas nos grãos já formados. Altas populações levam a queda de vagens em alguns casos.

Nas últimas safras tornou-se comum encontrar algumas áreas com o problema de haste verde, retenção foliar e/ou também chamado de “soja louca 1”. Nas lavouras atacadas se verificam manchas com plantas verdes, que não chegam a senescencia mesmo com o processo de dessecação da cultura. Nestas áreas normalmente se encontram alta quantidade de indivíduos, ou mesmo algumas vezes o produtor chega a controlar a população no final, sendo que o prejuízo já ocorreu. As últimas áreas dentro da propriedade ou mesmo na região tendem a sofrer por este processo. Pode o produtor ter controlado bem o percevejo até determinada fase, mas a migração de outras áreas muda a dinâmica populacional em uma semana, levando a altos índices da praga e consequentemente grandes prejuízos.

O Manejo Integrado de Pragas envolve várias práticas, sendo a amostragem um dos alicerces do programa. No levantamento, o técnico deve identificar corretamente as espécies e anotar também o número de ninfas, que a partir do 2º instar já podem causar prejuízos. Neste caso, somente através do pano de batida pode o técnico ou produtor realizar a correta identificação e verificar o “real” nível de infestação. Esta prática, apesar de antiga, é a de maior assertividade do manejo. A recomendação é de que seja realizada o máximo possível, porém com praticabilidade em virtude de tamanho de áreas, etc. O treinamento da equipe de amostradores deve ser uma prática adotada ano a ano para o aperfeiçoamento, reciclagem do conhecimento e entendimento da dinâmica populacional da praga.

Após saber qual é o índice de infestação o técnico poderá adotar uma medida. Neste ponto, os trabalhos desenvolvidos na Fundação Chapadão, com auxílio do conselho técnico científico, tem mostrado que até com 1 percevejo por metro de linha o produtor/técnico tem conseguido manejar a praga, sem levar a prejuízos significativos à produção de grãos. O manejo de áreas para produção de sementes requer mais atenção, sendo o nível para controle metade ou menor do índice para grão. Alguns estudos estão sendo desenvolvidos para verificar este nível, já que a qualidade da semente é fator primordial para a comercialização. As melhores sementes comercializadas não chegam a índices de 1% de ataque de percevejos.  Os testes de tetrazolio tem ajudado no reconhecimento de lotes atacados.

Várias estratégias de controle devem ser analisadas e uma delas é manter a população baixa nos refúgios, o que se torna imprescindível para evitar grandes prejuízos às culturas subsequentes. Faz-se necessário entender o sistema de produção, quando da semeadura de culturas que porventura possam ser atacadas, como algodão, milho, girassol, feijão entre outras. Somente o manejo nestas culturas pode diminuir a quantidade inicial de percevejos para a próxima safra.

Dentre as estratégias de controle o manejo químico também deve ser considerado, se apresentar inseticida registrado ou mesmo um programa de controle biológico.

Com o advento da utilização de plantas geneticamente modificadas resistentes a glifosato é comum encontrar plantas de milho, tigueras, no interior de lavouras de soja. Espigas que normalmente caem na colheita, geram mais de um fluxo, necessitando duas aplicações de graminicidas, a fim de retirar o alimento para a praga. Estas tigueras têm levado ao aumento dos problemas com o percevejo-barriga-verde, além da sua interação com diversas plantas daninhas.

É valido lembrar que muitos dos indivíduos que sobram para a próxima safra são parasitados naturalmente. Na região dos Chapadões (Chapadão do Sul, Costa Rica – MS e Chapadão do Céu-GO) alguns parasitoides como Hexacladia smitt e Trichopoda nitens tem ocorrido levando a morte de parte da população de percevejos.

Uma questão necessária na analise das infestações em semeaduras de setembro e outubro, com percevejos, é que se ocorrer baixo parasitismo, deve o técnico trabalhar a dinâmica populacional da praga, sendo necessário tomar medidas de manejo populacional da praga, tentando se ajustar ao índice recomendado de controle.

Outro ponto a se relatar são as eficiências de controle, que em grande parte dos inseticidas tem se mostrado com variações de 60% a 80%. Estes percentuais de controle estão associados a fatores como tecnologia de aplicação, falhas no monitoramento e a entrada com altos índices da praga. O técnico tem de levar em consideração que estará trabalhando com sobras da praga no sistema. Os horários para o monitoramento e aplicações podem se dar no começo ou término do dia, horários estes com maior frequência de percevejos na cultura.

Desta forma, se num levantamento apresentar 5 percevejos por metro, após a aplicação do inseticida com 80% de controle sobrará 1 percevejo, que é ainda um índice de controle, necessitando uma reaplicação com intervalo de até 7 dias. As aplicações, muitas vezes chamadas de “caronas”, não tem atingido bons resultados, principalmente com a adição de outros produtos à calda alterando as características de funcionamento de determinados inseticidas e quando aplicadas em intervalos longos (20 dias utilizado comumente para fungicidas).

Analisando este aspecto, devem o produtor e o técnico entenderem que mesmo após as aplicações é preciso continuar monitorando a população, a fim de observar a sua eficiência, além de uma possível ressurgência e conseqüentemente a necessidade de uma nova aplicação.

Na cultura da soja, o percevejo-marrom Euschistus heros apresenta ampla distribuição nas lavouras da região do Cerrado.
Na cultura da soja, o percevejo-marrom Euschistus heros apresenta ampla distribuição nas lavouras da região do Cerrado.

Entre os inseticidas disponíveis no mercado é preciso destacar que no manejo, apesar de não haver grandes possibilidades para a rotação, se faz interessante pelo menos dois grupos químicos no controle da praga. Entre eles destacam-se os organofosforados representados principalmente por Acefato e as “misturas prontas” de piretróides + neonicotinóides.

As alternativas de controle podem ser integradas. Em adultos atingiu-se boa eficiência com organofosforados e algumas misturas, mas em ninfas de percevejos as misturas de piretroides + neonicotinóides tem apresentado resultados superiores aos organofosforados, em função do maior efeito residual da sua aplicação. Vale destacar que nos casos das misturas prontas, a utilização de piretróides separadamente ou mesmo neonicotinóide isoladamente não tem resultado em bom controle de percevejos. Podem também ser integrados no manejo outros inseticidas disponíveis no mercado, como a mistura de Bifentrina + Carbosulfan, além de novas moléculas como Dinotefuran. Outras “misturas” estão em fase de registro.

Se não forem observados todos os aspectos do manejo da dinâmica populacional desta praga, as ferramentas poderão não apresentar bom comportamento.


Germison Tomquelski, Josiane Oliveira, Patricia Mariano, Fundação Chapadão


Artigo publicado na edição 204 da Cultivar Grandes Culturas.

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