Manejo de plantas daninhas II

Ao usar um herbicida ou um implemento para controlar as plantas infestantes na cultura do milho, o produtor deve lembrar-se dos seguintes objetivos:
a) evitar perdas devidas à competição;
b) beneficiar as condições de colheita;
c) evitar o aumento da infestação;
d) proteger o meio ambiente.

• Evitar perdas devidas à competição: Através da competição por água, luz e nutrientes minerais, de ações indiretas como a hospedagem e transmissão de pragas e doenças e, muitas vezes, de ações alelopáticas, as plantas daninhas ocasionam perdas na produção de milho. O importante é que o produtor entenda que as perdas variam anualmente devido às condições climáticas e de propriedade a propriedade, devido às variações de solo, população de plantas daninhas etc. Plantas daninhas podem servir também de hospedeiras para pragas e doenças que irão infestar a cultura do milho. A foto acima ilustra o ataque de uma praga, a lagarta dos capinzais e mostra o contraste entre uma gleba de milho tratada com herbicida na pré-emergência, sem o ataque da lagarta e outra gleba, na mesma lavoura, sem o manejo de plantas daninhas, onde o ataque da lagarta foi severo.

A literatura registra perdas de 10 a 84% da produção de milho, com uma perda média de 47%, se a lavoura permanecer no mato todo o tempo. A mato-competição é suave no início e se torna acentuada na pós-emergência tardia.

O que significa uma perda de 47%? Para um sistema de produção onde se espera uma produtividade de 100 sacos de milho por hectare, a perda significa 47 sacos de milho, um valor suficiente para justificar o uso de herbicidas. Para um sistema de produção onde se esperam apenas 45 sacos/ha, a mesma perda de 47% representa cerca de 21 sacos de milho. Para um sistema de alta produtividade, o investimento no manejo correto das plantas daninhas é mais significativo do que nos sistemas de baixa produtividade.

• Beneficiar as condições de colheita: Além das perdas causadas pela competição e outras ações, as plantas daninhas podem também trazer problemas para o produtor no momento da colheita, principalmente se a colheita for mecanizada e a produção para semente. Plantas daninhas de emergência tardia como a corda-de-viola (Ipomea spp), bamburral, cheirosa ou mata-pasto (Hyptis suaveolens), capim colonião (Panicum maximum) capim carrapicho ou timbete (Cenchrus echinatus) etc., aparecem no campo depois que os tratamentos convencionais perderam seu poder residual e causam problemas na colheita. Os herbicidas a serem usados, neste caso, têm ação complementar àqueles usados anteriormente na lavoura mas com um objetivo diferente. Eles serão usados agora para beneficiar a colheita e não para evitar a competição inicial. De acordo com muitos autores, plantas que nascem no meio da lavoura do milho após o pendoamento, não acarretam perdas na produção, somente dificultam a colheita.

• Evitar o aumento da infestação: O terceiro objetivo do controle de plantas daninhas está ligado à produção sustentada. Ao terminar a colheita da safra, o produtor deve lembrar-se de que a terra é um bem sagrado e que deve ser conservada para as próximas safras. Se a terra é deixada em pousio, as plantas daninhas irão sementear e aumentar a infestação. O banco de sementes das plantas daninhas é o solo e, se nada for feito para evitar a produção de sementes, o número de plantas daninhas nascendo a cada ano aumenta cada vez mais, a produção de milho cai e a dependência do uso de herbicidas vai aumentando. Em um sistema de produção sustentado, um dos fatores mais importantes é a manutenção da população de plantas daninhas em nível de baixa infestação. Operações de pós-colheita, como a passada de uma roçadeira, são necessárias para que as plantas daninhas não produzam sementes e/ou outros propágulos.

• Proteger o meio ambiente: Finalmente, o último objetivo de controle químico de plantas daninhas está ligado diretamente aos herbicidas usados. Herbicidas são substância químicas que apresentam diferentes propriedades fisico-químicas e, portanto, um comportamento ambiental diferenciado. Dependendo dessas propriedades como o coeficiente de adsorção (Kd), a constante da lei de Henry e, principalmente, a meia vida do composto no solo, ar e água (T1/2), o herbicida usado pode ser uma fonte de contaminação do meio-ambiente. Produtos voláteis poderão contaminar o ar, produtos lixiviáveis poderão atingir o lençol subterrâneo e produtos fortemente presos nos sedimentos poderão atingir depósitos de águas superficiais através da erosão. Um efeito ambiental conhecido dos produtores é o chamado "carryover", ou seja, ação residual do herbicida sobre uma cultura semeada em sucessão. O programa de uso de herbicidas deve selecionar produtos compatíveis com a lavoura e com o meio ambiente.

Para atingir todos os quatro objetivos, o usuário de herbicidas deverá tê-los em mente e assegurar a assistência técnica necessária. Há muitos herbicidas registrados para uso na cultura do milho, com opções de doses e métodos de aplicação. Escolha aqueles que mais se ajustam às suas condições.

Dessecação para Plantio Direto

No sistema de plantio direto, o trabalho do arado e grade é substituído pela aplicação de herbicidas capazes de matar as plantas daninhas presentes e formar uma massa vegetal de cobertura do solo, a chamada palhada.

Os produtos a base de glyphosate são recomendados principalmente para áreas infestadas com plantas daninhas perenes, já que o glyphosato é um herbicida sistêmico, capaz de penetrar na planta pelas folhas e translocar via floema até às raízes. O glyphosato é um inibidor da síntese de amino-ácidos e sua ação é lenta, recomendando-se sua aplicação 7-10 dias antes do plantio. O alvo principal são as gramíneas. Sulfosato é um herbicida semelhante a glyphosato, apresentando o mesmo modo de ação; por causa do radical trimetilsulfôneo, penetra mais rápido nas folhas das plantas daninhas que glyphosate, tornando-se uma boa opção no período chuvoso. A adição de 2,4-D amina no tanque ou na formulação, ajuda no controle de folhas largas, principalmente trapoeraba, tolerante aos dois produtos.

Ao contrário do glyphosate, os produtos a base de paraquat têm ação de contato, não servindo para o controle de plantas daninhas perenes. O paraquat é um disruptor da membrana celular, de ação muito rápida. A aplicação de paraquat pode ser feita na véspera do plantio e a adição de um surfactante não iônico no tanque é sempre recomendada. O glufosinato de amôneo é também um herbicida de contato, de ação um pouco mais lenta que paraquat.

Controle em pré-emergência

Inclui-se neste grupo a maioria dos herbicidas utilizados na cultura do milho. A pulverização é feita com o solo limpo, destorroado, após o plantio do milho, antes da emergência da cultura e das plantas daninhas. O herbicida aplicado permanece na superfície do solo, exposto aos raios do sol, ao vento etc. Para uma boa performance, é preciso que o solo esteja úmido ou que, no caso de solo seco, haja uma garantia de chuva ou irrigação nas próximas 48 horas. Caso o produto permaneça na superfície do solo sem a umidade para incorporá-lo à terra, as perdas por volatilização e/ou decomposição pela luz solar, acabarão por prejudicar a ação do herbicida. Por outro lado, terrenos mal preparados, cheios de torrões, comprometem seriamente a performance do herbicida.

Os herbicidas de pré-emergência, como o próprio nome indica, controlam as plantas daninhas no estádio mais inicial, quando as sementes estão germinando e as plântulas ainda não nasceram. Esses herbicidas, ao contrário do que se pensa, não afetam a germinação das sementes, controlando as plantas daninhas após a sua germinação, durante o período de sua ação no solo. A cultura do milho nasce no limpo e assim permanece até que o efeito residual do herbicida acabe. Em termos de competição, o herbicida aplicado deve apresentar poder residual suficiente para manter as plantas daninhas controladas até o pendoamento do milho. Em termos de seletividade, o herbicida deve ser seletivo para a cultura, não causando injúrias nas plantas de milho, tanto na parte aérea quanto nas raízes.

A análise dos herbicidas indicados para o controle em pré-emergência de plantas daninhas na cultura do milho mostra que alguns herbicidas como atrazine, cyanazine e 2,4-D amina, são eficientes no controle de latifoliadas anuais e pouca ação exercem sobre as gramíneas. Por outro lado, herbicidas como metolachlor, alachlor, acetochlor, dimethenamid, isoxaflutole, trifluralin e pendimethalin, apresentam uma ação mais acentuada sobre gramíneas anuais. Plantas daninhas perenes como a tiririca e a grama seda são tolerantes aos herbicidas de pré-emergência, com exceção para acetochlor que tem mostrado alguma atividade sobre a tiririca. Devido ao fato das áreas de produção de milho apresentarem populações mistas de plantas daninhas, o uso de misturas comerciais ou misturas de herbicidas em tanque, contendo um herbicida para latifoliadas e outro graminicida, é mais aconselhado. De qualquer forma, a escolha do herbicida deve ser feita em função do conhecimento da composição de plantas daninhas da área.

Aplicação em pré-emergência

A aplicaçao de um herbicida de pré-emergência pode ser feita de várias maneiras, dependendo do tamanho da área, do equipamento disponível e do sistema de plantio. Tendo em vista a expansão da área plantada sob irrigação e a diversidade do tamanho das áreas plantadas com milho, pode-se distinguir pelo menos três tipos de aplicação:

• Aplicação convencional com pulverizadores: Na maioria das vezes em que um herbicida é aplicado em pré-emergência, ele é aplicado com um pulverizador de barra, equipado com um ou mais bicos em leque, do tipo costal ou tratorizado. A pulverização pode ser feita em faixa sobre a linha de plantio ou na área total, dependendo do tamanho da área a ser tratada. Recomenda-se o uso de bicos em leque da série 110.02 ou 110.03, para obter-se vazões de 100 a 250 L/ha. Ao contrário do que se pensa, a água de pulverização serve apenas como veículo para distribuir o herbicida sobre o solo, não sendo suficiente para ativar o herbicida sobre um solo seco. Não adianta aumentar a vazão para 400 ou 600 L/ha.

• Aplicação via água de irrigação: Resultados experimentais obtidos no exterior e em Sete Lagoas, MG, indicam que é possível aplicar herbicidas de pré-emergência via água de irrigação, tanto em linhas convencionais de irrigação quanto no pivot central. Neste caso o produto é injetado na linha principal de irrigação e distribuindo pelos aspersores. A aplicação é normalmente feita com a primeira irrigação após o plantio e a performance observada é quase sempre superior à aplicação convencional porque a umidade requerida para ativação do herbicida está sempre presente. A lâmina de água usada varia de 6 a 13mm, correspondendo a 60.000 e 130.000 L/ha.

Para que a aplicação funcione bem, é necessário todo o cuidado na injeção do produto na linha de irrigação. A experiência em Sete Lagoas foi feita com as misturas comerciais Primestra SC, Boxer e Triamex 500 SC.

• Aplicação aérea: Lavouras de milho com pelo menos 60 ha. em áreas de topografia plana, podem ser pulverizadas por avião cobrindo-se num dia extensas das áreas de plantio. Apesar desse caso ser menos freqüente, os usuários de herbicidas podem contar com esse recurso, contratando uma firma especializada para realizar a tarefa. Todo cuidado deve ser tomado para não se causar injúrias em culturas vizinhas sensíveis aos herbicidas de milho. A deriva é o maior entrave para a aplicação aérea.

João Baptista da Silva
Consultor

* Este artigo foi publicado na edição número 06 da revista Cultivar Grandes Culturas, de julho de 1999. ver mais artigos
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