Manejo de pragas da parte aérea do milho

Além das pragas de solo e de plântulas, a cultura do milho pode ser atacada por desfolhadores, brocas e até mesmo sugadores que se alimentam da parte aérea das plantas. Cigarrinha-das-pastagens, lagarta-do-cartucho, broca-da-cana-de-açúcar, lagarta-da-espiga, curuquerê-dos-capinzais, percevejo e pulgão do milho, estão entre os insetos que exigem medidas de controle para minimizar os danos

Várias espécies de insetos estão associadas à cultura do milho, todavia relativamente poucas são consideradas pragas-chave, apresentam regularidade de ocorrência, consistência na abrangência geográfica e potencialidade para causar danos significativos na cultura. O comportamento dos insetos-praga no milho varia de acordo com o estádio fenológico da cultura, condições edafoclimáticas, sistema de cultivo e fatores bióticos locais relacionados à sua sobrevivência.

Pragas da parte aérea

Além das pragas de solo e de plântulas, a cultura pode ser atacada por desfolhadores, brocas e até mesmo sugadores que se alimentam na parte aérea das plantas do milho. Nestes estádios de desenvolvimento as medidas de controle empregadas são de caráter curativo. O controle de insetos que atacam a parte aérea do milho tem sido realizado basicamente através de pulverização de inseticidas sobre as plantas. No caso de lagartas desfolhadoras ou brocas, o uso de variedades transgênicas Bt constitui também uma excelente alternativa de manejo.

Cigarrinha-das-pastagens

O complexo de cigarrinhas das pastagens que ataca a parte aérea do milho é basicamente representado por duas espécies, Deois flavopicta e Zulia entreriana. A espécie D. flavopicta mede cerca de 10mm de comprimento, apresenta coloração preta, com três faixas amareladas nas asas, sendo duas transversais e uma longitudinal na região alar denominada clavo. Quando as asas estão em repouso, os clavos ficam próximos, formando uma imagem parecida com a letra “V”. Já a espécie Z. entreriana mede aproximadamente 7mm de comprimento e apresenta coloração preta brilhante, com uma faixa branca na parte final da asa.

Condições de temperatura e de umidade propícias ao desenvolvimento dessas cigarrinhas, aliadas ao incremento de áreas com pastagens como Brachiaria decumbens nas adjacências das lavouras de milho, são predisposições positivas para a ocorrência de altas populações do inseto. Nessas condições, os insetos podem migrar intensamente para a cultura do milho, onde pousam sobre o limbo foliar das plantas ou abrigam-se entre o colmo e a bainha e dentro do cartucho. O dano é causado, exclusivamente, pelos adultos, que, ao sugarem a planta, injetam uma toxina que bloqueia o fluxo da seiva. Os sintomas do ataque são caracterizados por manchas foliares que evoluem para uma clorose bem definida, generalizada, com início de senescência. As plantas mais jovens são mais sensíveis ao ataque destas cigarrinhas.

Lagarta-do-cartucho

A lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda, é considerada a praga mais importante da cultura do milho nas condições do Brasil. A postura é feita nas folhas, em massas de aproximadamente 50 ovos a 100 ovos, em umtotal de 1.360 por fêmea. Passados três dias da postura, eclodem as lagartinhas que alimentam-se das cascas dos ovos (córion) que lhes deram origem. O período larval dura cerca de 23 dias, podendo as lagartas atingirem cerca de 40mm de comprimento no último dos seus seis instares. No segundo instar a lagarta migra para o cartucho do milho, onde completa o seu desenvolvimento. Pode ser encontrada, por cartucho, mais de uma lagartinha recém-eclodida. Todavia, devido ao comportamento canibal, normalmente é localizada apenas uma lagarta desenvolvida em cada cartucho. Contudo, é possível encontrar indivíduos de instares diferentes em um mesmo cartucho, porém separados por lâminas de folhas.

O ataque sobre o milho pode ocorrer desde a fase de plântula até o pendoamento e espigamento. As pequenas lagartas começam raspando o limbo foliar, de preferência das folhas mais novas, provocando o sintoma conhecido como “folhas raspadas”. A partir daí atacam todas as folhas centrais da região do cartucho, podendo este, sob danos mais severos, ficar totalmente destruído. Em ataques mais tardios, podem ser encontrados indivíduos entre o colmo e a espiga, onde destroem a palha e alguns grãos. Em condições de alta densidade populacional da praga na palhada em que será instalada a cultura do milho, a lagarta pode perfurar o colo de plantas jovens, semelhante ao ataque da lagarta-rosca, e provocar a morte das folhas do cartucho, levando, às vezes, ao perfilhamento. O período pupal dura cerca de dez dias no verão.

Períodos relativamente prolongados de estiagem favorecem o estabelecimento e o ressurgimento de altos níveis populacionais da lagarta-do-cartucho no milho. Em regiões de cultivo contínuo de milho, a praga ocorre em alta abundância durante todo o ano. Até os 30 dias de desenvolvimento da cultura, pode ser observado até 15% de redução da produção ou 34% após o florescimento.

Broca-da-cana-de-açúcar

A broca-da-cana, Diatraea saccharalis, é uma praga que tradicionalmente ocorre na cultura da cana-de-açúcar, mas que frequentemente pode atacar também a parte aérea do milho. A lagarta penetra no colmo das plantas de milho e alimenta-se no seu interior, fazendo galerias. Aparentemente, os danos diretos não são importantes, pois a planta mesmo lesionada pode produzir normalmente. Entretanto, sob a ação de ventos fortes, a planta pode tombar e a espiga, ao entrar em contato com o solo, favorece a germinação ou o apodrecimento dos grãos, além de não serem mais capturadas pela colhedeira.

Lagarta-da-espiga

O adulto da lagarta-da-espiga, Helicoverpa zea, é uma mariposa que tem aproximadamente 35mm de envergadura. Uma fêmea pode ovipositar cerca de mil ovos, colocados em qualquer parte da planta, embora as mariposas prefiram os cabelos (estilo-estigmas) das espigas. Os ovos medem cerca de 1mm de diâmetro, são de coloração branca no início e marrom próximo da eclosão. Após o período de incubação, de três a cinco dias, a lagarta eclode apresentando a cabeça marrom e o restante do corpo branco. Inicialmente as lagartas alimentam-se dos “cabelos” novos e, em seguida, migram para o interior no ápice da espiga, onde consomem grãos em formação. Próximo à pupação, a lagarta abandona a espiga, deixando um orifício de saída na palha, dirige-se para o solo, onde transforma-se em pupa, que dura, em média, 14 dias.

Curuquerê-dos-capinzais

As lagartas do curuquerê-dos-capinzais, Mocis latipes, são do tipo mede-palmo, apresentando coloração amarelada com estrias longitudinais castanho-escuras. No seu máximo desenvolvimento medem cerca de 45mm de comprimento e apresentam cabeça proeminente, com estrias amareladas. Esta praga alimenta-se das folhas do milho, consumindo apenas o limbo foliar a partir dos bordos, deixando somente a nervura central. O inseto deve merecer maior atenção dos 60 dias aos 80 dias da cultura, fase em que o milho é muito sensível à desfolha.

Percevejo-do-milho ou "gaucho"

Os adultos do percevejo do milho, Leptoglossus zonatus, medem cerca de 20mm de comprimento, são de coloração marrom-escura, com duas manchas amarelas circulares no pronoto. Os hemiélitros (asas anteriores) apresentam uma faixa transversal amarela em zigue-zague e as tíbias posteriores possuem uma expansão em formato de folha. Os adultos e ninfas introduzem o estilete nos grãos do milho para succioná-los e a punctura praticada para fins de alimentação passa a ser uma porta de entrada para a penetração de fungos patogênicos. A ação destes, interagindo com os danos diretos oriundos do ato de alimentação da praga, provoca falhas nas espigas, murchamento e apodrecimento dos grãos. Os insetos preferem, normalmente, espigas de palha aberta, que apresentam as sementes mais expostas.

Pulgão-do-milho

As colônias do pulgão-do-milho, Rhopalosiphum maydis, normalmente são vistas no interior do cartucho e no pendão das plantas, onde sugam a seiva continuamente. Na cultura do milho este inseto multiplica-se com facilidade, mas, geralmente, não assume importância econômica. Sob condições de altíssima infestação, no período de pré-florescimento, pode ocorrer perda econômica.

Manejo de pragas da parte aérea do milho

O controle da cigarrinha-das-pastagens pode ser realizado com o tratamento das sementes com inseticidas, quando o inseto ocorrer nos estádios iniciais de desenvolvimento da cultura ou através de pulverizações sobre as plantas em ocorrência mais tardia.

O controle de lagartas que atacam a parte aérea do milho é normalmente realizado com aplicações de inseticidas em pulverização sobre as plantas. Além dos inseticidas organofosforados, os piretroides, fisiológicos e as diamidas proporcionam bom controle desse grupo de pragas, dependendo da dose empregada do produto.

O controle da broca-da-cana normalmente não é feito. Em áreas próximas a canaviais e sujeitas ao frequente ataque, o uso de variedades de porte baixo minimiza o problema. Em situações de altíssimas infestações, o uso dos mesmos lagarticidas reguladores de crescimento de insetos, como sugeridos para o controle da lagarta-do-cartucho, diminui os possíveis danos.

As plantas transgênicas que apresentam atividade inseticida constituem uma importante alternativa para o manejo de insetos-praga nas lavouras de milho. A planta de milho transgênico com atividade inseticida é mundialmente conhecida como milho Bt, por expressar uma toxina (inseticida) isolada da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), que é específica especialmente para as larvas de Lepidóptera.

No Brasil, vários eventos Bt foram liberados para comercialização, expressando diferentes toxinas como Yieldgard, Herculex e Agrisure, também combinados com tolerância a herbicidas. Dentre as principais pragas-alvo dessa tecnologia, incluem-se a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), a lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea) e a broca da cana-de-acúcar (Diatraea saccharalis) e até mesmo as lagartas mede-palmo (Mocis latipes) e a lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus). A eficiência de controle dessas espécies é bastante elevada, podendo muitas vezes dispensar a aplicação de inseticidas químicos para o seu controle. Todavia, para que a toxina Bt apresente atividade inseticida, é necessário que ela seja ingerida pela lagarta e, dessa forma, o produtor poderá constatar alguma injúria nas folhas do milho, como é o sintoma de folhas raspadas.

O cultivo do milho Bt em extensas áreas poderá condicionar a seleção de biótipos resistentes às toxinas dessas plantas. Dessa forma, é de suma importância a implementação das áreas de refúgios com o objetivo de evitar ou retardar o desenvolvimento da resistência. Nas condições brasileiras, a área de refúgio consiste basicamente da semeadura de 5% a 10% da área cultivada com milho Bt, com híbridos não Bt, de porte e ciclo semelhantes ao primeiro. Essa área de refúgio não pode estar além de 800m de distância das plantas transgênicas, para permitir os cruzamentos dos adultos sobreviventes da área do milho Bt com os emergidos na área de refúgio. O monitoramento de lagartas tanto nas plantas Bt como do refúgio é de extrema importância, já que dependendo da cultivar utilizada e da intensidade da infestação, medidas de controle complementares poderão ser necessárias. Na área de refúgio deverá ser implementado o manejo das lagartas empregando-se outros métodos de controle e evitar o emprego de bioinseticidas à base de Bt.

A aplicação de inseticidas químicos em pulverização para o controle da lagarta do cartucho deve ser feita utilizando-se bicos tipo leque (8002, 8004, 6502, 6504), com o jato dirigido para o cartucho da planta. O volume de calda a ser aplicado dependerá do estádio de desenvolvimento da cultura, utilizando-se 200L/ha a 300L/ha para plantas com até 30-40 dias de idade. Períodos chuvosos na fase inicial de desenvolvimento da cultura tendem a minimizar os problemas causados pela lagarta-do-cartucho no milho, seja pela derrubada dos ovos da planta ou pelo afogamento de lagartas pequenas. Diversos inimigos naturais são citados como importantes agentes de controle natural da lagarta-do-cartucho, destacando-se os predadores de lagartas e de ovos, parasitoides de lagartas e de ovos, além dos micro-organismos entomopatogênicos como fungos e vírus.

Em situações de alta infestação do percevejo do milho e do pulgão, o controle pode ser realizado através de inseticidas fosforados sistêmicos ou da mistura contendo piretroide e neonicotinoides, aplicados em pulverização.

Figura 1 - Ataque de Spodoptera frugiperda no cartucho do milho
Figura 1 - Ataque de Spodoptera frugiperda no cartucho do milho.
Figura 2 - Ataque de Spodoptera frugiperda no colo da planta de milho
Figura 2 - Ataque de Spodoptera frugiperda no colo da planta de milho.
Figura 3 - Planta com sintoma de “coração morto” provocado por ataque de Diatraea saccharalis
Figura 3 - Planta com sintoma de “coração morto” provocado por ataque de Diatraea saccharalis.
Figura 4 - Broca-da-cana Diatraea saccharalis atacando milho
Figura 4 - Broca-da-cana Diatraea saccharalis atacando milho.
Figura 5 - Pulgão no cartucho do milho
Figura 5 - Pulgão no cartucho do milho.
Figura 6 - Ninfas de cigarrinha-das-pastagens
Figura 6 - Ninfas de cigarrinha-das-pastagens.
Figura 7 - Lagarta-da-espiga Helicoverpa zea na espiga do milho
Figura 7 - Lagarta-da-espiga Helicoverpa zea na espiga do milho.
Figura 8 - Lagarta-da-espiga Helicoverpa zea na espiga do milho
Figura 8 - Lagarta-da-espiga Helicoverpa zea na espiga do milho.


Crébio José Ávila, Embrapa Agropecuária Oeste; Geraldo Papa, Unesp - Campus de Ilha Solteira


Artigo publicado na edição 199 da Cultivar Grandes Culturas.

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