Manejo de pragas de armazenamento em grandes culturas

A qualidade das sementes, em especial a fisiológica, pode ser afetada pela ação de diversos fatores. Destacam-se as pragas de armazenamento, em especial Sitophilus zeamais, S. oryzae, Rhyzopertha dominica, Acanthoscelides obtectus, Lasioderma serricorne, Sitotroga cerealella, Ephestia kuehniella e E. elutella, que podem ser responsáveis pela deterioração física do lote de semente armazenado.

O conhecimento do hábito alimentar de cada praga constitui elemento importante para definir o manejo a ser implementado nas sementes durante o período de armazenamento. Segundo esse hábito, as pragas podem ser classificadas em primárias ou secundárias. Existem dois principais grupos de pragas que atacam as sementes armazenadas, que são besouros e traças. Entre os besouros encontram-se as espécies: R. dominica (F.), Sitophilus oryzae (L.), S. zeamais (Motschulsky), Acanthoscelides obtectus (Say), Lasioderma serricorne (Fabricius). As espécies de traças mais importantes são: Sitotroga cerealella (Olivier), Ephestia kuehniella (Zeller) e Ephestia elutella (Hübner). Entre essas pragas, R. dominica, S. oryzae e S. zeamais são as mais preocupantes economicamente e justificam a maior parte do controle químico praticado nos armazéns de sementes. Além dessas pragas, há roedores e pássaros causadores de perdas, principalmente qualitativas, pela sujeira que deixam no produto final, que também devem ser considerados no manejo integrado de pragas (MIP).

Besourinho dos cereais

Os adultos de Rhyzopertha dominica (Coleoptera, Bostrichidae) são besouros de 2,3mm a 2,8mm de comprimento, coloração castanho‑escura, corpo cilíndrico e cabeça globular, normalmente escondida pelo protórax (Figura 1). Essa praga primária interna possui elevado potencial de destruição em sementes e grãos de trigo, arroz, milho, cevada, aveia, centeio e triticale, pois é capaz de destruir de cinco a seis vezes seu próprio peso em uma semana (Almeida & Poy, 1994). É a principal praga na armazenagem no Brasil, em razão da incidência e da grande dificuldade de se evitar os prejuízos que causa aos produtos. Deixa as sementes perfuradas e com grande quantidade de resíduos na forma de farinha, decorrentes do hábito alimentar. Tanto adultos como larvas causam danos às sementes armazenadas. Possui grande número de hospedeiros, e adapta-se rapidamente às mais diversas condições climáticas sobrevivendo mesmo em extremos de temperatura.

Figura 1 - Rhyzopertha dominica

Gorgulhos dos cereais

Sitophilus oryzae e S. zeamais (Coleoptera, Curculionidae) são muito semelhantes em caracteres, ambos podem ocorrer juntos no mesmo lote de sementes. Os adultos são gorgulhos de 2mm a 3,5mm de comprimento, de coloração castanho-escura, com manchas mais claras nos élitros (asas anteriores), visíveis logo após a emergência. Têm a cabeça projetada à frente, na forma de rostro curvado (Figura 2). É praga primária interna de grande importância, pois pode apresentar infestação cruzada, ou seja, infestar sementes no campo e também no armazém, onde penetra profundamente na massa de sementes.

Figura 2 - Sitophilus oryzae

Apresenta elevado potencial de reprodução, possui muitos hospedeiros, como trigo, milho, arroz, cevada, triticale e aveia. Tanto larvas como adultos são prejudiciais e atacam sementes inteiras. A postura é feita dentro da semente; as larvas, após se desenvolverem, empupam e se transformam em adultos. Os danos decorrem da redução de peso e de qualidade física e fisiológica da semente (Lorini, 2008).

Caruncho do feijão

Acanthoscelides obtectus (Coleoptera: Bruchidae - Figura 3) é uma praga primária de produtos armazenados, atacando principalmente leguminosas como o feijão. Está adaptado tanto para viver e reproduzir em regiões tropicais como nas temperadas, em condições de baixa umidade. Os adultos de A. obtectus medem de 2mm a 4mm de comprimento e são de coloração pardo-escuros, com pontuações avermelhadas no abdômen, pernas e antenas (Pereira, 1993).

Os adultos são bons voadores e começam as infestações de campo vindo dos armazéns, porém não se alimentam e têm vida curta. O ciclo de vida pode ser completado em apenas 23 dias e é por isso que esta espécie tem um grande potencial de desenvolvimento (Pereira, 1993).

Figura 3 - Acanthoscelides obtectus

Causa prejuízos consideráveis, como perda de peso, redução da qualidade nutricional, do poder germinativo das sementes e a introdução de contaminantes secundários, como fungos, e micotoxinas. Muitas infestações começam no campo e as larvas se abastecem das sementes em maturação. As larvas de A. obtectus alimentam-se dos cotilédones, podendo em cada semente ocorrer diversas, e em função do seu rápido desenvolvimento, há um alto potencial para o crescimento populacional. Desta maneira os danos acumulados podem ser muito extensos (Pereira, 1993).

Lasioderma serricorne

As fêmeas de Lasioderma serricorne (Coleoptera: Anobiidae) colocam os ovos em pequenas fendas nos fardos de fumo, onde é praga originalmente importante, ou nos charutos, mas não nas folhas de fumo no campo. Tem aparecido com certa frequência, perfurando sementes e grãos de soja, com prejuízos aos armazenadores, e ameaçando a qualidade do produto oferecido nos mercados interno e externo. No momento é a maior ameaça ao armazenamento de sementes e grãos de soja. O adulto é um besouro (Figura 4) de corpo ovalado, de coloração castanho-avermelhada, recoberto por pelos claros. O comprimento varia de 2mm a 3mm, sendo as fêmeas maiores. O ciclo completo é de 60 a 90 dias e apresenta cerca de três gerações por ano.

Figura 4 - Lasioderma serricorne

É uma praga cosmopolita, cujas larvas maiores escavam galerias. As larvas se alimentam dos produtos onde fazem as galerias, como é o caso da soja armazenada. Não é capaz de atacar plantas vivas, embora ataque um grande número de produtos em depósitos, como frutos secos, papéis, tapetes, grãos, farelos, farinhas, massas, biscoitos e rações.

Traça dos cereais

Os adultos de Sitotroga cerealella (Lepidoptera, Gelechiidae) (Figura 5) são mariposas com 10mm a 15mm de envergadura e 6mm a 8mm de comprimento. As asas anteriores são cor de palha, com franjas, e as posteriores são mais claras, com franjas maiores. Vivem de seis a dez dias. Os ovos são colocados sobre as sementes, preferentemente naquelas danificadas. As larvas podem atingir 6mm de comprimento e são brancas com as mandíbulas escuras. A pupa varia de coloração branca a marrom-escura, próximo à emergência do adulto. O período de ovo a adulto dura, em média, 30 dias (Lorini, 2008).

Figura 5 - Sitotroga cerealella

É praga que ataca sementes intactas (primária), porém afeta mais a superfície do lote de sementes. As larvas destroem a semente, alterando o peso e a qualidade. Também ataca as farinhas, nas quais se desenvolve, causando deterioração de produto pronto para consumo.

As traças

Ephestia kuehniella e E. elutella (Lepidoptera, Pyralidae) são muito semelhantes. Os adultos (Figuras 6 e 7) são mariposas de coloração parda, com 20mm de envergadura, com asas anteriores longas e estreitas, de coloração acinzentada, com manchas transversais cinza-escuras. As asas posteriores são mais claras. A fêmea oviposita de 200 a 300 ovos. As larvas atingem até 15mm de comprimento; possuem coloração rosada e pernas e cabeça castanhas; tecem um casulo de seda, em cujo interior empupam. O período de ovo a adulto estende-se por aproximadamente 40 dias (Lorini & Schneider, 1994; Lorini, 2008). São pragas secundárias, pois as larvas se desenvolvem sobre resíduos de grãos e de farinhas deixados pela ação de outras pragas. Seu ataque prejudica a qualidade das sementes armazenadas, em razão da formação de uma teia sobre a massa de sementes ou nas sacarias durante o armazenamento. Penetra no interior das pilhas de sementes, fazendo a postura nas costuras da sacaria ou bags. Esta praga é responsável pela grande quantidade de tratamentos em termonebulização nas UBS, durante o período de armazenamento dos lotes de semente.

Figura 6 - Ephestia kuehniella

Figura 7 - Ephestia elutella

Métodos de controle

O controle dessas pragas depende praticamente de três métodos: inseticidas químicos líquidos (tratamento preventivo), inseticida natural à base de terra de diatomáceas (tratamento preventivo), e o expurgo das sementes com o inseticida fosfina (tratamento curativo). Estes três métodos podem ser usados isoladamente ou em combinação, com emprego de mais de um em cada UBS.

Inseticidas químicos líquidos

As sementes, após terem sido beneficiadas, expurgadas ou não, podem ser tratadas preventivamente para obter proteção contra o ataque das pragas durante o armazenamento.

Se o período de armazenagem das sementes for superior a 60 dias, pode-se fazer este tratamento químico preventivo, que consiste em aplicar inseticidas líquidos sobre as sementes, na correia transportadora ou na tubulação de fluxo da semente beneficiada, no momento de ensacar a semente ou de armazenar nos silos. Recomenda‑se a dosagem de um a dois litros de calda por tonelada, a ser pulverizada sobre as sementes, e uso dos inseticidas pirimiphos-methyl, fenitrothion, deltamethrin, bifenthrin ou lambdacyalothrin (Tabela 1), de acordo com a espécie. Não se deve realizar tratamento via líquida na correia transportadora, caso exista infestação de qualquer praga nas sementes, pois poderá resultar em falhas de controle e início de problema de resistência das pragas aos inseticidas.

Inseticida natural à base de terra de diatomáceas

Métodos alternativos de controle estão sendo enfatizados, a fim de reduzir o uso de produtos químicos, diminuírem o potencial de exposição humana e reduzir a velocidade e o desenvolvimento de resistência de pragas a inseticidas. Recentemente oferecidos no mercado, os pós inertes à base de terra de diatomáceas constituem uma alternativa para o produtor de sementes controlar as pragas durante o armazenamento, através do tratamento preventivo da semente.

O pó inerte à base de terra de diatomáceas é proveniente de fósseis de algas diatomáceas, que possuem naturalmente fina camada de sílica, e pode ser de origem marinha ou de água doce. O preparo da terra de diatomáceas para uso comercial é feito por extração, secagem e moagem do material fóssil, que resulta em pó seco, de fina granulometria. No Brasil, apenas dois produtos comerciais, Insecto e Keepdry, à base de terra de diatomáceas, estão registrados como inseticidas e são recomendados para controle de pragas no armazenamento de sementes e de grãos.

A atividade inseticida do pó inerte, entretanto, pode ser afetada pela mobilidade dos insetos, pelo número e distribuição de pelos na cutícula, pelas diferenças quantitativas e qualitativas nos lipídios cuticulares das diferentes espécies de insetos, pelo tempo de exposição e pela umidade relativa do ar, fatores que influenciam a taxa de perda de água, afetando consequentemente a eficiência dos pós inertes (Ebeling, 1971; LePatourel, 1986; Aldryhim, 1990; Banks & Fields, 1995; Golob, 1997; Korunic, 1998; Lorini, 2008).

Trabalhos de pesquisa (Lorini et al, 2003) demonstraram que, para o tratamento de sementes, a terra de diatomáceas pode ser usada diretamente na semente, polvilhando-a no momento imediatamente anterior ao ensaque. A dose empregada é de 1-2kg de terra de diatomáceas por tonelada de semente (Tabela 1). Esse tratamento é realizado com auxílio de uma máquina desenvolvida especificamente para aplicação do produto, que proporciona mistura homogênea do produto com a semente, o que é fundamental para o sucesso do controle de pragas. O produto também pode ser usado para o tratamento de estruturas de armazenamento de sementes, polvilhando-se as paredes na dosagem de 25g/m2 para evitar a infestação externa de pragas.

Expurgo das sementes

A fumigação ou expurgo é uma técnica empregada para eliminar qualquer infestação de pragas em sementes armazenadas mediante uso de gás. Esse processo pode ser realizado nos mais diferentes locais, desde que sejam observadas a perfeita vedação do local a ser expurgado e as normas de segurança para os produtos em uso. Assim, pode ser realizado em lotes de sementes, silos de concreto e metálicos, em armazéns graneleiros, em câmaras de expurgo, entre outros, observando-se sempre o período de exposição e a hermeticidade do local. O gás introduzido no interior da câmara de expurgo deve ficar nesse ambiente em concentração letal para as pragas. Por isso, qualquer saída ou entrada de ar deve ser vedada, sempre com materiais apropriados, como lona de expurgo. Para lotes de sementes ensacados, é essencial a colocação de pesos ao redor das pilhas, sobre lonas de expurgo, para garantir vedação.

O inseticida indicado para expurgo de sementes, pela eficácia, facilidade de uso, segurança de aplicação e versatilidade, é a fosfina (Tabela 1). No entanto, é importante lembrar que já foram detectadas raças de pragas resistentes a esse fumigante (Lorini et al, 2007). Além disso, a temperatura e a umidade relativa do ar no armazém a ser expurgado, para uso de fosfina, são de extrema importância, pois determinarão à eficiência do expurgo. Abaixo de 10oC e inferior a 25% de umidade relativa do ar, não é aconselhável usar fosfina em pastilhas, pois a liberação do gás será prejudicada, afetando o expurgo.

Tabela 1 - Inseticidas indicados para tratamento preventivo e/ou curativo de pragas de sementes armazenadas

Nome

Dose (i.a.)

Dose comercial/t

Formulação1

Concentração

(g i.a./L,kg)

Intervalo de segurança2

Classe toxicológica

Registrante

Fosfina3

2,0 g/m3

6g

PF

570

4 dias

I

Bernardo Química

2,0 g/m3

6g

PF

570

4 dias

I

Bernardo Química

2,0 g/m3

6g

PF

560

4 dias

I

Detia Degesch

2,0 g/m3

6g

PF

560

4 dias

I

Fersol

Terra de diatomácea

0,9-1,7kg/t

1-2kg/t

867

-

IV

Bernardo Química

Terra de diatomácea

0,9-1,7kg/t

1-2kg/t

860

-

IV

Irrigação Dias Cruz

Deltamethrin

0,35-0,50 ppm

14-20 ml

CE

25

30 dias

III

Bayer

Bifenthrin

0,40 ppm

16 ml

CE

25

30 dias

III

FMC

Bifenthrin

0,40 ppm

16 ml

CE

25

30 dias

III

FMC

Lambdacyalothrin

0,50 ppm

10 ml

CE

50

42 dias

III

Syngenta

Fenitrothion

5,0-10,0 ppm

10-20 ml

CE

500

120 dias

II

Iharabras

Pirimiphos-methyl

4,0-8,0 ppm

8-16 ml

CE

500

30 dias

II

Syngenta

1 CE = Concentrado emulsionável; PF = Pastilha fumigante; Pó = Pó seco. 2 Período entre a última aplicação e o consumo.

3 O período de exposição da fosfina é de, no mínimo, 168 horas, dependendo da temperatura e da umidade relativa do ar no armazém.

Irineu Lorini[1]

Francisco Carlos Krzyzanowski1

José de Barros França-Neto1

Ademir Assis Henning1

Embrapa Soja

Confira o artigo na edição 180 da Grandes Culturas.


[1] Eng. Agr., pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Centro Nacional de Pesquisa de Soja (Embrapa Soja). Rodovia Carlos João Strass - Distrito de Warta, Caixa Postal 231, CEP86001‑970 Londrina, PR . E-mail:irineu.lorini@embrapa.br; francisco.krzyzanowski@embrapa.br, jose.franca@embrapa.br, ademir.henning@embrapa.br.

ver mais artigos

Irineu Lorini; Francisco Carlos Krzyzanowski; José de Barros França-Neto; Ademir Assis Henning

Embrapa Soja

CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura