Manejo de requeima em tomate

Dona do status de mais importante e destrutiva doença na cultura do tomate a requeima ataca de forma implacável folhas, pecíolos, caules e frutos. Medidas racionais e integradas são necessárias para prevenir suas incidência ou minimizar os prejuízos nas áreas afetadas. 

A requeima, causada pelo oomiceto Phytophthora infestans (Mont) de Bary, é a doença mais importante e destrutiva da cultura do tomateiro, podendo afetar drasticamente folhas, pecíolos, caules e frutos. 

Nos folíolos, os sintomas são caracterizados inicialmente por manchas de tamanho variável, coloração verde-clara ou escura e aspecto úmido. Ao evoluírem se tornam pardo-escuras, necróticas e irregulares. Nos pecíolos e caules as manchas são úmidas, marrom-escuras, alongadas e aneladas. Nos frutos, a doença causa uma podridão dura, caracterizada por lesões irregulares, deformadas, profundas e marrom-escuras. Na face inferior das folhas e nos demais órgãos afetados, é frequente a formação de um crescimento branco aveludado, sobre ou em torno do tecido necrosado, constituído por esporângios e esporangíoforos do patógeno. A doença também pode causar o tombamento de plantas jovens ou provocar falhas na germinação de sementes, reduzindo assim o estande durante a fase de produção de mudas.

A requeima é favorecida por temperaturas que variam de 12ºC a 25ºC e molhamento foliar diário superior a 12 horas. Os esporângios germinam diretamente quando as temperaturas oscilam de 18ºC a 25ºC, ou podem produzir zoósporos biflagelados quando se encontram na faixa de 12ºC a 16°C. Cada esporângio origina em média oito zoósporos, o que aumenta significativamente a quantidade de inóculo e consequentemente a severidade e potencial destrutivo da doença.  A penetração do pró-micélio, resultante da germinação dos esporângios ou dos zoósporos encistados, é direta no tecido vegetal, com a formação de apressório.  A colonização dos tecidos é rápida, sendo que o período de incubação pode variar de 48 a 72 horas.   

Quanto à umidade, a requeima é favorecida por períodos de molhamento foliar superiores a 12 horas e ambientes de névoa e chuva fina.  Em algumas situações a altitude associada à presença de orvalho e a queda da temperatura noturna são suficientes para epidemias importantes da doença.

Entre os fatores que favorecem a ocorrência de epidemias severas de requeima em nossas condições de cultivo destacam-se: a inexistência de cultivares e híbridos resistentes, condições climáticas favoráveis, plantios sequenciados e a existência de inóculo ao longo de todo ano.

A disseminação da requeima ocorre principalmente via sementes e mudas infectadas, ação de ventos, água de chuva ou irrigação etc.

Além do tomateiro, P. infestans pode afetar as culturas da batata (Solanum tuberosum L.), pimentão (Capsicum annuum L.), berinjela (Solanum melongena L.), petúnia (Petunia hybrida) e plantas invasoras como: figueira do inferno (Datura stramonium L.), picão branco (Galinsoga parvifora Cav), corda de viola (Ipomea purpurea L.), falso jóa de capote (Nicandra physaloides  L.),   joá de capote (Physalis angulata L.), maria-pretinha (Solanum americanum L.), maravilha (Mirabilis jalapa L) e Nicotiana benthamiana Domin.

O alto potencial destrutivo e a rápida evolução da requeima no campo tornam obrigatória a adoção de medidas racionais e integradas de controle, com o objetivo de garantir a produção e a sustentabilidade do cultivo do tomateiro.

Folhas de tomateiro severamente afetadas pela incidência da requeima.
Folhas de tomateiro severamente afetadas pela incidência da requeima.

Medidas de controle

As principais medidas recomendadas para o controle do tombamento na produção de mudas de tomateiro (um dos efeitos causados pela requeima) são usar sementes certificadas e tratadas com fungicidas, empregar substrato livre do patógeno; eliminar e destruir plântulas doentes; evitar excessos de adubação nitrogenada no substrato; utilizar água de boa qualidade, evitar irrigações excessivas; usar bancadas com malhas abertas para reduzir o nível de umidade; desinfetar bancadas e bandejas com formaldeído a 4% ou hipoclorito de sódio a 5%.

Quanto aos locais de plantio  de tomate, recomenda-se evitar áreas sujeitas ao acúmulo de umidade, circulação de ar limitada e próximas a lavouras em final de ciclo. Essas medidas tem por objetivo prevenir condições favoráveis e a presença de inóculo em campos novos.

Também não é recomendado o plantio sucessivo de tomate e/ou outras solanáceas. A rotação de culturas é fundamental para reduzir o potencial de inóculo nas áreas cultivadas.

Plantios adensados devem ser evitados, pois estimulam a má circulação de ar e o acúmulo de umidade entre as plantas.  Adotar sistemas de condução que favorecem o manejo. Em cultivos tutorados a condução vertical pode reduzir a ocorrência da requeima por favorecer a circulação de ar entre as plantas. Em cultivos rasteiros, a escolha de materiais com arquitetura aberta pode facilitar o manejo da doença pela maior circulação de ar entre plantas e melhor penetração dos fungicidas na folhagem.

Indica-se, ainda, eliminar frutos remanescentes no campo e plantas voluntárias, originadas de frutos deixados no campo na colheita e que podem ser importante fonte de inóculo para novos cultivos. Devem ser eliminadas pelo uso de herbicidas ou por métodos mecânicos. A eliminação completa de frutos após a colheita evita o surgimento de plantas voluntárias, bem como impede que frutos infectados produzam inóculo que possa ser disseminado até novos cultivos.

Outro aspecto importante é a irrigação controlada. Evitar longos períodos de molhamento foliar é fundamental para o manejo da requeima. Para tanto, deve-se suprimir irrigações por aspersão, noturnas ou em finais de tarde;  bem como minimizar o tempo e reduzir a frequência das regas em campos com sintomas.

A adubação equilibrada também é importante. Níveis elevados de nitrogênio originam tecidos mais tenros e suscetíveis à requeima. O excesso de nutriente também permite um crescimento demasiado da parte área e consequentemente maior acúmulo de umidade na folhagem.  Níveis adequados de fósforo, cálcio e boro podem reduzir a incidência e severidade da requeima.

O manejo correto das plantas invasoras auxilia no combate à requeima. Além de concorrerem por espaço, luz, água e nutrientes, esses vegetais dificultam a dissipação da umidade e a circulação de ar na folhagem. Em alguns casos também podem ser hospedeiras alternativas de P. infestans.

Limpar e desinfetar equipamentos utilizados em culturas afetadas, eliminar e destruir frutos doentes e descartes são importantes para eliminar possíveis fontes de inóculo.

O armazenamento adequado tem o objetivo de promover boas condições de temperatura, umidade, circulação de ar e higiene durante o armazenamento de frutos.  A vistoria constante da cultura para identificar possíveis focos iniciais da doença e agilizar a tomada de decisões também é importante.

Controle químico

O uso de fungicidas deve seguir todas as recomendações do fabricante quanto à dose, volume, intervalo e número de aplicações, segurança, uso de equipamento de proteção individual (EPI), armazenamento, descarte de embalagens etc.

  Para evitar casos de resistência a fungicidas específicos (móveis na planta) recomenda-se que sejam utilizados de forma alternada ou formulados com produtos inespecíficos (contato). É importante evitar o uso repetitivo de fungicidas com o mesmo mecanismo de ação e não realizar aplicações curativas em situações de alta pressão de doença.

No quadro 1 encontram-se descritos os principais fungicidas com registro para o controle da requeima do tomateiro no Brasil.

Fontes: FRAC (www.frac.info). AGROFIT 27/03/2013.
Fontes: FRAC (www.frac.info). AGROFIT 27/03/2013

Sistemas orgânicos

Além de práticas culturais como plantio em época adequada; uso de sementes e mudas sadias; escolha correta da área; adubação equilibrada, eliminação de hospedeiros intermediários, e evitar plantios adensados, alguns sistemas orgânicos permitem o uso de produtos cúpricos.  As caldas bordalesa e sulfocálcica se destacam como as opções com melhores resultados no controle da requeima nessa modalidade de produção. A calda bordalesa pode ser fitotóxica ao tomateiro, portanto as pulverizações devem ser iniciadas com concentrações mais baixas do que a recomendada (por exemplo: 0,5%) e gradativamente alcançar 1,0 %.  A calda sulfocálcica também pode causar fitotoxicidade, quando aplicada em dias quentes. Pesquisas recentes têm observado que Bacillus subtillis, aplicado de forma preventiva, pode reduzir a severidade da requeima em campos de tomate.

Da origem ao tomate no Brasil 

Originário das Américas Central e do Sul, o tomateiro (Solanum lycopersicum) tornou-se conhecido após a sua introdução na Europa, pelos espanhóis, no século XVI. Considerado inicialmente venenoso, sua incorporação na alimentação humana foi gradual. Atualmente, o tomateiro representa uma das mais expressivas culturas no cenário agrícola mundial. Ampla adaptabilidade, elevado potencial produtivo e versatilidade culinária tornam essa solanácea apta a ser consumida "in natura" ou industrializada nas mais diversas formas. Baixas calorias, quantidades consideráveis de vitaminas A, C, complexo B, sais minerais e licopeno são características que tornam o tomate um alimento reconhecido por suas propriedades antioxidantes e anticancerígenas.

A tomaticultura brasileira encontra-se disseminada em todo território nacional, porém, os principais centros de produção se localizam no sudeste e centro-oeste.  Atualmente a cadeia produtiva do tomate apresenta grande importância econômica e social, e assume características empresariais bem definidas, com avanços tecnológicos constantes, mudança fundiária e gerenciamento avançado do processo produtivo. 


Jesus Töfoli, Ricardo Domingues, Josiane Ferrari, APTA – Instituto Biológico


Artigo publicado na edição 79 da Cultivar Hortaliças e Frutas

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura