Manejo do bicudo do algodoeiro


A Bahia é o segundo maior estado produtor de algodão com previsão de incremento da área cultivada para a safra 2013/14 da ordem de 17,3% em relação ao ano anterior, passando de 271,4 mil para 318,4 mil hectares cultivados. A expectativa para produção é de 1.204 toneladas e produtividade de 3.780kg/ha, o que poderá ser considerada safra recorde na região (Conab, 2014).

Entre os fatores que podem prejudicar a produtividade do algodoeiro está o bicudo (Anthonomus grandis), atualmente considerado a praga de maior importância econômica em todas as regiões produtoras desta cultura no país. Este inseto-praga provoca queda de botões florais e flores e impede a abertura normal das maçãs, destruindo-as internamente. Devido ao seu ataque, a lavoura de algodão perde a carga, apresenta grande desenvolvimento vegetativo, fica bem enfolhada, mas sem produção (Santos, 1999; Gallo et al, 2002).

No cerrado do oeste da Bahia a introdução do bicudo ocorreu já nos primeiros anos de cultivo do algodão na região, em meados de 1993/94, possivelmente através do transporte de material vegetal e/ou equipamentos contendo a praga proveniente de estados do Nordeste, onde sua ocorrência já havia sido constatada. O aumento da área infestada pelo bicudo acompanhou a expansão do cultivo da fibra na região.

O controle do bicudo deve envolver medidas integradas de manejo, que incluem a utilização de inseticidas químicos. Diversos produtos estão disponíveis no mercado, mas, se faz necessário testar sua eficiência de controle. Assim, o objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito de diferentes inseticidas e/ou doses no controle do bicudo do algodoeiro. Para isso, foram conduzidos dois ensaios na safra 2012/2013 no Campo de Validação da Círculo Verde Assessoria Agronômica & Pesquisa, em Luís Eduardo Magalhães/Bahia.

O primeiro ensaio

Adotou-se o delineamento experimental inteiramente casualizado, com sete tratamentos e quatro repetições, sendo os tratamentos constituídos por sete diferentes inseticidas, aplicados uma única vez, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1 - Tratamentos e respectivos inseticidas (nome comercial), ingredientes ativos e doses testadas no Ensaio 1. Círculo Verde, safra 2012/13

Tratamentos

Inseticidas

Ingrediente ativo

Doses (ml ou g/ha)

T1

Bulldock 125 SC

Beta-ciflutrina

100

T2

Fury 200 EW

Zeta-cipermetrina

280

T3

KarateZeon 250CS

Lambda-cialotrina

120

T4

Nexide

Gama-cialotrina

150

T5

Paracap350 CS

Parationa metílica

1.200

T6

Malathion 1000 EC

Malationa

1.000

T7

Fipronil 800WG

Fipronil

50

O ensaio foi realizado em bandejas plásticas retangulares de 30cm x 40cm, onde foram colocados sete bicudos/bandeja (Figura 1), coletados da área experimental da Círculo Verde no dia da aplicação dos tratamentos. Para cada tratamento foram utilizadas quatro bandejas, que representaram as repetições.

Para a aplicação dos tratamentos, inicialmente as bandejas foram distribuídas paralelamente em uma superfície plana, distanciadas de 0,50m entre elas, de modo a simular quatro linhas de semeadura com espaçamento de 0,50cm, e então pulverizadas com os inseticidas (tratamentos) utilizando-se um pulverizador costal pressurizado a CO2, com quatro pontas de pulverização tipo leque 11002, pressão de 4bar e volume de calda equivalente a 200L/ha. Após a aplicação dos tratamentos, as bandejas foram cobertas por um tecido de voil para impedir a saída dos insetos-pragas (Figura 2). As avaliações consistiram da contagem do número de insetos mortos aos 30 minutos, uma hora, 24 horas e 48 horas após a aplicação dos inseticidas. Posteriormente foi calculada a porcentagem de mortalidade do bicudo em cada tratamento, sendo os dados submetidos à análise de variância e as médias obtidas comparadas pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade.

Figura 1 - Bandejas plásticas com os bicudos antes da aplicação dos tratamentos

Figura 2 - Bandejas plásticas cobertas com tecido voil após a aplicação dos tratamentos

Nas avaliações aos 30 minutos e uma hora após a aplicação dos tratamentos apenas quatro inseticidas foram capazes de promover a mortalidade do bicudo, em valores crescentes, sendo Lambda-cialotrina (18% e 21% de mortalidade), Parationa metílica (25% e 43%), Malationa (15% e 25%) e Fipronil (4% e 7%) (Figura 3).

Com 24 horas após a aplicação, três dos inseticidas apresentaram mortalidade superior a 90%, sendo eles fipronil (93%), parationa metílica e malationa (100%), enquanto os demais com valores inferiores a 40% (beta-ciflutrina, lambda-cialotrinae gama-cialotrina) e apenas um deles, zeta-cipermetrina, sem mortalidade. Com 48 horas da aplicação, os inseticidas formaram dois grupos estatísticos, sendo o de melhor controle representado por parationa metílica (100%), malationa (100%), fipronil (100%), zeta-cipermetrina (82%) e lambda-cialotrina (75%) (Figura 3).

Figura 3 - Porcentagem de mortalidade do bicudo sob efeito de diferentes inseticidas aos 30 minutos, uma hora, 24 horas e 48 horas após a aplicação. Círculo Verde, safra 2012/2013. (cores iguais em cada coluna e horário de avaliação não diferem entre si pelo teste de Scott-Knott a 5% de significância. Dados transformados segundo . CV30 min = 98,57%; CV1h = 72,86%; CV24hs = 35,05%; CV48hs = 17,10%).

O desempenho de cada produto para o controle de A. grandis ao longo do tempo após a aplicação pode ser visualizado na Figura 4. Conforme apresentado anteriormente, a maioria dos inseticidas propiciou o início da mortalidade 30 minutos após a sua aplicação, como lambda-cialotrina, parationa metílica, malationa e fipronil. No entanto, a mortalidade do inseto ao se utilizar beta-ciflutrina e gama-cialotrina só foi verificada após 24 horas, e 48 horas para zeta-cipermetrina.

Figura 4 - Mortalidade do bicudo do algodoeiro sob efeito de diferentes inseticidas e períodos após sua aplicação. Círculo Verde, safra 2012/2013

Segundo ensaio

Adotou-se o delineamento experimental inteiramente casualizado, com oito tratamentos (inseticidas e doses) e quatro repetições. Os tratamentos foram constituídos de quatro diferentes inseticidas, sendo três avaliados em duas doses, todos aplicados uma única vez, e mais uma testemunha, que não recebeu aplicação de inseticida (Tabela 2).

Semelhante ao primeiro ensaio, também foram utilizadas bandejas plásticas de 30cm x 40cm, mas revestidas internamente com folhas de algodão colhidas momentos antes da aplicação. Para cada tratamento foram utilizadas quatro bandejas, que representaram as repetições. A distribuição das bandejas, a aplicação dos tratamentos e a cobertura das bandejas com tecido tipo voil neste ensaio seguiram a mesma metodologia do Ensaio 1. Após a aplicação dos tratamentos foram liberados dez bicudos/bandeja, coletados da área experimental da Círculo Verde no dia da aplicação dos tratamentos. A contagem do número de bicudos vivos e mortos foi realizada uma hora, 24 horas e 48 horas após a aplicação dos inseticidas.

Tabela 2 - Tratamentos e respectivos inseticidas (nome comercial), ingredientes ativos e doses testadas no Ensaio 2. Círculo Verde, safra 2012/13

Tratamentos

Inseticidas

Ingrediente ativo

Doses (ml ou g/ha)

T1

Testemunha

---

---

T2

Fury 200 EW

Zeta-cipermetrina

280

T3

Fury 200 EW

Zeta-cipermetrina

420

T4

Bulldock 125 SC

Beta-ciflutrina

100

T5

Bulldock 125 SC

Beta-ciflutrina

150

T6

Nexide

Gama-cialotrina

150

T7

Nexide

Gama-cialotrina

225

T8

Malathion 1000 EC

Malationa

1.000

Considerando todos os inseticidas testados, independentemente da dose, na avaliação de uma hora após a aplicação não foram encontrados insetos mortos, exceto para zeta-cipermetrina (280ml) com média de 0,3 inseto morto. A mortalidade do bicudo nos demais tratamentos somente foi observada a partir de 24 horas, destacando-se malationa com 100% de mortalidade (dez insetos mortos), seguido de zeta-cipermetrina e gama-cialotrina com 40% (Tabela 3).

Tabela 3 - Porcentagem de bicudo do algodoeiro morto em função dos tratamentos em diferentes tempos de avaliação. Círculo Verde, safra 2012/2013

Tratamentos

Tempo após a aplicação dos tratamentos

1 hora

24 horas

48 horas

T1.Testemunha

0,0

a

13,0

c

25,0

b

T2. Zeta-cipermetrina(280 mL)

3,0

a

40,0

b

58,0

b

T3.Zeta-cipermetrina(420 mL)

0,0

a

18,0

c

75,0

a

T4.Beta-ciflutrina(100 mL)

0,0

a

5,0

c

30,0

b

T5.Beta-ciflutrina(150 mL)

0,0

a

23,0

c

78,0

a

T6. Gama-cialotrina (150 mL)

0,0

a

18,0

c

53,0

b

T7.Gama-cialotrina (225 mL)

0,0

a

40,0

b

68,0

a

T8.Malationa(1.000ml)

0,0

a

100,0

a

100,0

a

CV (%)

12,65

27,18

18,84

Obs. Letras iguais na coluna não diferem entre si pelo teste de Scott-Knott a 5% de significância. Dados transformados segundo .

Na avaliação às 48 horas, quatro tratamentos diferiram significativamente da Testemunha, sendo malationa (1.000ml) e as maiores doses de zeta-cipermetrina (420ml), beta-ciflutrina (150ml) e gama-cialotrina (225ml) com valores de controle entre 68% (gama-cialotrina) e 100% (malationa), evidenciando o efeito direto do aumento de dose na mortalidade do inseto.

Em uma análise conjunta dos dois ensaios, ficou evidente a consistência nos resultados para malationa (1.000ml), fipronil (50g) e parationa metílica (1.200ml) destacando-se como produtos com boa eficiência de controle de A. grandis. Já os produtos zeta-cipermetrina, beta-ciflutrina e gama-cialotrina apresentaram melhor performance em suas doses mais elevadas, 420ml/ha, 150ml/ha e 225ml/ha.

Confira o artigo na edição 180 da Grandes Culturas.


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Mônica Cagnin Martins; Elisangela Kischel, Fernando Fumagalli, Genivaldo Batista dos Santos, Pedro Brugnera, Marco Antonio Tamai