Manejo e controle da podridão do abacaxi em cana

O fungo Ceratocystis paradoxa (Thielaviopsis paradoxa), causador da podridão do abacaxi em cana-de-açúcar encontra no período de temperaturas baixas ambiente propício para colonizar os toletes utilizados no plantio, que com o avanço da mecanização e o aquecimento do setor tem sido realizado em épocas pouco recomendadas no Brasil. Responsável por falhas nas lavouras e em incidência mais severa até mesmo por inviabilizá-las completamente, a doença exige medidas de manejo e controle adotadas em conjunto para prevenir e minimizar os prejuízos neste modelo de cultivo.

O plantio tradicional da cana-de-açúcar ocorre nas estações de primavera e verão nas condições de São Paulo. Nesse período, a temperatura e a umidade favorecema o desenvolvimento da cultura, resultando, principalmente, na rapidez da brotação, crescimento e perfilhamento. Porém, o aquecimento e a expansão do setor sucro-alcooleiro exigiram novo planejamento das áreas de plantio, levando usinas e produtores a realizar o plantio em diversas épocas do ano, com objetivo de um planejamento escalonado da colheita e melhor aproveitamento de maquinário e mão-de-obra. As unidades produtoras, geralmente, renovam até 20% das áreas cultivadas com cana-de-açúcar todos os anos, mas com o aumento da área cultivada os produtores não têm conseguido fazer todo plantio de cana na época mais propícia. Assim, é comum o plantio em períodos menos favoráveis ao desenvolvimento da cultura, a exemplo do inverno, o que tem aumentado a incidência de doenças e pragas, acarretando em aumento no número de falhas no plantio.

Durante o inverno, a umidade do solo é dependente da irrigação, via fertirrigação (vinhaça) ou água; a temperatura baixa associada aos dias curtos permite menor evaporação de água e temperatura no solo, que dependendo da textura, pode reter a umidade por mais tempo. Essas condições diminuem a velocidade de emergência dos brotos, pois pode demorar até 40 dias após plantio para que os primeiros sejam emersos do solo. Como resultado, alguns patógenos fúngicos acabam sendo favorecidos. Um dos exemplos é Ceratocystis paradoxa (Thielaviopsis paradoxa), patógeno auxiliado pelas condições de inverno e que coloniza os toletes utilizados no plantio, que permanecem por maior tempo no solo sem começar o processo de brotação. Como resultado ocorre o apodrecimento dos tecidos, o que pode produzir cheiro característico de essência de abacaxi responsável pelo nome popular da doença, ou seja, “podridão abacaxi”, doença economicamente importante na cultura. Por ser capaz de atacar diversas culturas, o patógeno está presente em praticamente todas as regiões onde a cana-de-açúcar é cultivada.

Neste contexto é importante chamar a atenção dos produtores de cana-de-açúcar quanto aos riscos do plantio da cultura em períodos de inverno ou em regiões de clima de temperatura baixa, bem como aos sintomas, manejo da doença e problemas na mecanização do plantio/colheita. 

Sintomas e condições favoráveis à doença

Nas mudas infectadas recentemente são observados os sintomas iniciais de encharcamento. Com progresso da infecção, o tolete contaminado inicialmente apresenta coloração amarelo-pardacenta, cinza escuro e, ao final, passando à negra. Geralmente há destruição total do tecido parenquimatoso, permanecendo indestrutíveis os fibrovasculares. Os toletes atacados não germinam, provocando falhas na lavoura, podendo ocasionar prejuízo total. Durante o ataque pode ser exalado um odor típico, semelhante ao de frutos de abacaxi, como resultado da fermentação dos toletes.

O fator primordial para a manifestação da doença é o retardamento da brotação das gemas, portanto, a ocorrência de baixas temperaturas, a utilização de mudas com mais de 12 meses, a cobertura muito profunda dos toletes e os plantios realizados em solos secos ou encharcados aumentam a intensidade da doença. Porém, deve-se ressaltar que, havendo condições que favoreçam a brotação, mesmo o patógeno estando presente no solo, os danos à cultura não ocorrem. 

Figura 01 – Sintomas exibidos pelos toletes infectados por T. paradoxa.
Figura 01 – Sintomas exibidos pelos toletes infectados por T. paradoxa.

A doença é causada o fungo Thielaviopsis paradoxa  (De Seynes) Höhn (sinônimo de Chalara paradoxa) ou seu teleomorfo (forma sexuada) Ceratocystis paradoxa (Dade) C. Moreau, (1952) (Ascomycetes, Microascales, família Ophiostomatacea). Este é um patógeno polífago, pois já foi relatado em diversas outras espécies de plantas tropicais, como bananeira, abacaxizeiro,  coqueiros, entre outros e que sobrevive no solo em restos culturais, podendo infectar as mudas de cana-de-açúcar logo em seguida ao plantio, resultando em sua podridão.

Na fase assexuada, podem ser observados conidióforos hialinos a marrom-claro crescendo livremente a partir de hifas septadas, produzindo numerosos conídios hialinos, cilíndricos e retangulares (artroconídios), formados por fragmentação das hifas, além de vários clamidósporos lisos, ovais e de coloração marrom-escuros, produzidos também a partir dos conidióforos. 

Figura 02 - Clamidosporos (A) e artroconídios  (B e C) de Thielaviopsis paradoxa (anamorfo).
Figura 02 - Clamidosporos (A) e artroconídios (B e C) de Thielaviopsis paradoxa (anamorfo).

Devido aos clamidosporos serem estruturas altamente resistentes, T. paradoxa pode sobreviver no solo por períodos superiores a 15 meses.

Na fase sexuada, ocorrem vários peritécios de coloração marrom-escura, que ficam imersos no tecido necrosado ou no meio de cultura, e exibem um longo pescoço (rostro) com filamentos de hifas associados na abertura, de onde são liberados os ascósporos hialinos, asseptados, elipsóides com lados desiguais curvados, e cercados em uma bainha gelatinosa típicos do fungo (FIGURA 03).

Figura 03 – Peritécios de Ceratocystis paradoxa com exsudação de ascósporos e
Figura 03 – Peritécios de Ceratocystis paradoxa com exsudação de ascósporos.
Figura 03 – Peritécios de Ceratocystis paradoxa exibindo o rostro
Figura 03 – Peritécios de Ceratocystis paradoxa exibindo o rostro.
Figura 03 – Ascósporos hialinos.
Figura 03 – Ascósporos hialinos.

O patógeno não possui mecanismos próprios de penetração, utilizando-se de aberturas naturais ou ferimentos para entrar e colonizar uma planta. Se a cana-de-açúcar for plantada em solo contaminado, a penetração do fungo ocorre pelo corte existente nos toletes de plantio.
A sobrevivência do fungo é favorecida pela alta umidade. A doença ocorre, geralmente, em solos argilosos, encharcados e de difícil drenagem. Além disso, as temperaturas baixas são, também, altamente favoráveis ao desenvolvimento do fungo, por isso o outono da Região Centro-Sul é a época mais comum de aparecimento da doença.
A disseminação da doença ocorre, principalmente pelos conídios, mas também, por meio de mudas infectadas.

Manejo e controle da doença 

Para prevenir a podridão abacaxi são recomendadas medidas como tratar as mudas com fungicida indicado, nas dosagens e preparo recomendados pelos fabricantes, evitar o plantio profundo dos toletes, cortá-los em tamanhos maiores, com seis gemas ou mais, prevenir replantio de mudas em solos contaminados recentemente e empregar variedades resistentes com rápida brotação. Observar o plantio em época correta, com bom preparo do solo e colocação do tolete à profundidade adequada aceleram a germinação e constituem o melhor controle da doença.

É importante ressaltar que, mesmo com a adoção de medidas de manejo e controle, com o aumento da mecanização do plantio é possível que os problemas causados pela doença se elevem, pois, além de utilizar mudas com mais ferimentos, provenientes de colheita mecânica, essas operações tornam  possível o plantio durante praticamente todo o ano, inclusive no inverno, quando as condições são muito favoráveis ao fungo. Assim, faz-se necessária a adoção das medidas em conjunto.

Cana de açúcar no Brasil

A cana-de-açúcar (Saccharum spp.) é típica das regiões tropicais e subtropicais, bastante difundida em todos os continentes do globo. Fatores climáticos como temperatura, umidade e insolação são determinantes para o sucesso da cultura, que apresenta melhor desenvolvimento em locais quentes e ensolarados. Desempenha papel particular e muito importante na economia brasileira, uma vez que, no Brasil, seu plantio comercial tem por objetivo atender à produção de açúcar e etanol, embora outros subprodutos, como o melado, o bagaço e a cachaça sejam obtidos e tenham outros fins. 

Sendo o Brasil um grande produtor de cana-de-açúcar com, aproximadamente, 8 milhões de área cultivada e uma produção superior a 650 milhões de toneladas, observa-se o importante papel na economia do país.


Christiane Ceriani Aparecido, Instituto Biológio; Carlos Alberto Mathias Azania, Instituto Agronômico


Artigo publicado na edição 206 da Cultivar Grandes Culturas.

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