Manejo ideal de densidade e espaçamento no milho

Apesar dos avanços, a produtividade alcançada na cultura do milho ainda pode ser considerada baixa, sendo influenciada direta ou indiretamente por diversos fatores relacionados à planta e ao ambiente como a oferta hídrica e luminosa, fertilidade do solo, população de plantas, sistema de cultivo, potencial produtivo do híbrido e principalmente devido a manejos inadequados de plantas daninhas, pragas e doenças (Sandini e Fancelli, 2000).

Embora se observe um crescimento da produção deste cereal mundialmente, tem-se, em igual ou maior ordem, um aumento da sua demanda. Segundo projeções da ONU, em 2050 o mundo alcançará um total de 9,1 bilhões de pessoas, que necessitarão consumir produtos da mesma ordem dos consumidos atualmente. Desta forma, cria-se uma enorme demanda de crescimento da produção mundial de todas as culturas, principalmente do milho, que se caracteriza como base da alimentação humana, devido à sua conversão em produtos mais elaborados (carne de suínos, aves, gados etc). Para atender a esta demanda é necessário buscar investimentos em pesquisa, que elevem a produtividade da cultura nas diferentes áreas agrícolas.

Tendo em vista o aumento do consumo, a elevação do rendimento de grãos tem-se constituído grande desafio para os pesquisadores. Há necessidade de se buscar novas práticas de manejo que maximizem a utilização dos fatores ambientais disponíveis, sem elevação dos custos de produção, a fim de atingir o máximo potencial de rendimento (Gubiani, 2005).

Para o melhor aproveitamento das condições de solo e ambiente e, por consequência, uma maior produtividade a campo, tem-se buscado uma população de plantas ideal para a cultura, que seja distribuída a campo em um arranjo espacial que permita a mínima competividade intraespecífica, a máxima absorção de água e nutrientes, em detrimento de desenvolvimento de daninhas, facilidade de penetração de defensivos agrícolas, que proporcionem um microclima desfavorável ao desenvolvimento de doenças e, principalmente, que tornem possível a máxima captação da radiação fotossinteticamente ativa.

Uma das formas de se aumentar a interceptação de radiação e, consequentemente, o rendimento de grãos é através da escolha adequada do arranjo de plantas. Este arranjo de plantas pode ser manipulado através de alterações na densidade de plantas, no espaçamento entre linhas, na distribuição de plantas na linha e na variabilidade entre plantas (emergência desuniforme) (Argenta et al, 2001b). A densidade de plantas é uma das práticas culturais que mais afetam o rendimento de grãos de milho, que é a espécie da família das Poaceas mais sensível à sua variação (Strieder et al, 2007).

Vários pesquisadores têm buscado identificar o melhor arranjo de plantas para a cultura, trabalho que se torna difícil uma vez que este arranjo é influenciado por características como: genótipo utilizado, ambiente em que se insere o genótipo, nível tecnológico do produtor assistido, objetivo da produção (grãos, silagem, minimilho etc), época de semeadura, entre outras.

Ao longo dos anos de cultivo desta cultura, tem-se variado significativamente a população de plantas e espaçamento entre fileiras. As variedades e os híbridos utilizados nas décadas de 30, 40 e 50 não suportavam altas competições entre plantas, sendo que, até a implantação e utilização de híbridos simples, a população de plantas recomendada ficava na ordem de três plantas/m2, se elevando a seis plantas/m2 a partir da década de 60 e podendo chegar hoje a populações acima de nove plantas/m2 em condições de alto nível tecnológico (Argenta et al, 2001b).

A presente pesquisa busca identificar, desta forma, as principais tendências observadas em nível de pesquisa e a campo, evidenciando não o espaçamento ideal, uma vez que difere enormemente entre variadas condições, mas uma tendência geral de utilização da população de plantas e espaçamento entre fileiras (arranjo de plantas), que consiga maximizar a produtividade agrícola e manter a sustentabilidade do sistema de produção de milho.

ESPAÇAMENTO

Segundo Sangoi et al (2004), tradicionalmente tem-se implantado a cultura do milho com espaçamentos entre linhas compreendidos entre 0,80 e 1m, o que permite um adequado manejo mecanizado com relação a semeadura, tratos culturais e colheita. Este tradicional espaçamento se deriva da utilização de cultivadores para o manejo de plantas daninhas, o que impossibilitava a redução do espaçamento, bem como pela adaptação de colhedoras a espaçamentos maiores.

Nos últimos anos, o interesse em cultivar o milho utilizando espaçamentos entre linhas reduzidos (0,45 a 0,60m) tem crescido, devido principalmente ao desenvolvimento de híbridos tolerantes a altas densidades e à maior agilidade da indústria de máquinas agrícolas no desenvolvimento de equipamentos adaptados ao cultivo do milho com linhas mais próximas e à adoção em massa de herbicidas pós-emergentes (Silva, 2005).

A redução do espaçamento entre linhas com uma mesma densidade de plantas tem várias vantagens potenciais. A maior delas é a melhor equidistância dos indivíduos na área de cultivo, o que reduz a competição entre plantas por água, luz e nutrientes, otimizando a sua utilização (Porter et al, 1997).

A maior equidistância propicia sombreamento mais rápido do solo, aumentando a captação da radiação incidente e predispondo uma menor incidência luminosa nos extratos inferiores do dossel, o que mitiga o desenvolvimento de plantas tidas como daninhas (Balbinot e Fleck, 2005). Além disto, a maior equidistância propicia melhor exploração do solo pelo sistema radicular e, consequentemente, a maior absorção de água e nutrientes pela cultura (Sangoi et al, 2004).

Quanto à influência da redução de espaçamento sobre o manejo mecânico da cultura, tem-se uma maior operacionalidade em espaçamentos de 0,45m a 0,50m para agricultores que trabalham com a sucessão soja/milho, uma vez que, as linhas de semeadoras-adubadoras não necessitam ser alteradas, além disso, a distribuição dos fertilizantes ocorre em maior quantidade de metros lineares por hectare, melhorando o aproveitamento dos nutrientes e reduzindo a possibilidade de efeitos salinos (Balbinot e Fleck, 2005).

Quando se trabalha com altas densidades de semeadura, os espaçamentos convencionais (0,80m a 1m) fazem com que o número de plantas/m seja muito alto, elevando a competição por água, luz e nutrientes, limitando a oferta de carboidratos à produção de grãos. Nestas condições, os efeitos positivos da redução do espaçamento entre fileiras de semeadura se tornam ainda mais evidentes (Sangoi e Silva, 2006).

Modolo et al (2010) trabalhando com três espaçamentos entre fileiras (0,45m, 0,70m e 0,90m) e três híbridos de milho com diferentes arquiteturas de plantas (DKB 240, Pioneer 30R50 e SG 6010) sobre uma mesma densidade de plantas (60.000 plantas/ha), concluíram que a redução de espaçamento propiciou uma maior produtividade de todos os híbridos utilizados. Do mesmo modo, pesquisas recentes têm demonstrado que a redução de espaçamento entre linhas tem contribuído para o aumento da produtividade (Balbinot Junior; Fleck, 2004; Strieder, 2006).

Neste contexto, objetivando verificar o arranjo de plantas ideal para cinco diferentes híbridos de milho (XB 6010, XB 6012, XB 7253, XB 9003 e AG 9010), realizou-se experimento com dois espaçamentos entre fileiras de plantas (0,45m e 0,90m) e cinco populações de plantas (50.000 plantas/ha; 60.000 plantas/ha; 70.000 plantas/ha; 80.000 plantas/ha e 90.000 plantas/ha). Concluiu-se que, a alteração no espaçamento entre fileiras influenciou de forma diferenciada os híbridos avaliados, sendo que o rendimento sofreu interferência apenas quando da utilização do híbrido AG 9010. Neste, a utilização do espaçamento reduzido (0,45m) incrementou o rendimento em 15%, em relação ao espaçamento de 0,90m entre linhas (Kappes et al, 2011).

Em estudo com quatro densidades de plantas (3 plantas/m2; 5 plantas/m2; 7 plantas/m2 e 9 plantas/m2) e três espaçamentos entre linhas (0,40m; 0,70m e 1m) sobre caracteres da cultura do milho, Sangoi et al (2011) observaram que a redução do espaçamento entre linhas elevou a interceptação da radiação solar no início do ciclo, porém, esta maior interceptação não inferiu em maior produtividade da cultura. Resultados estes também observados por Argenta et al (2001a) e Strieder et al (2008).

Argenta et al (2001a), avaliando o efeito da redução do espaçamento entre linhas sobre o rendimento e componentes do rendimento de grãos e sobre outras características agronômicas de híbridos simples de milho, concluíram que a resposta do rendimento de grãos de milho à redução do espaçamento entre linhas é influenciada pelo híbrido e pela densidade das plantas.

Do mesmo modo, Marchão et al (2005), avaliando o comportamento de híbridos de milho (A 2555, A 2288, AG 9010, AG 6690, P30F88 e Valent), cultivados em diferentes densidades populacionais (40.000 plantas/ha, 53.000 plantas/ha, 71.000 plantas/ha, 84.000 plantas/ha e 97.000 plantas/ha) e sob espaçamento reduzido (0,45m), observaram que a redução do espaçamento entre linhas, associada à utilização de cultivares de milho de menor porte, pode ser acompanhada de incrementos na densidade de plantas. Os mesmos autores ainda concluem que, dependendo do híbrido, é possível aumentar o rendimento de grãos com o incremento da densidade de plantas, sob espaçamento reduzido (0,45m).

Diante das pesquisas já realizadas, Cruz et al (2009) faz conhecer que os espaçamentos nas entre linhas são ainda muito variados, mas os mais usados estão em torno de 0,80m a 0,90m. Entretanto, verifica-se uma tendência a maior redução (0,45m a 0,50m), encontrando-se no mercado plataformas adaptáveis às colhedoras para realizar a colheita em espaçamentos de até 0,45m.

DENSIDADE

A densidade de plantas é uma das práticas culturais que mais interferem no rendimento de grãos de milho, devido à sua baixa capacidade de emissão de afilhos férteis, à sua organização floral monoica e ao curto período de florescimento (Silva et al, 2006). A densidade de semeadura é definida como o número de plantas por unidade de área e tem papel importante no rendimento da lavoura.

A densidade recomendada para as cultivares atuais varia de 40 mil plantas por hectare a 80 mil plantas por hectare. Porém, em estudos realizados por Cruz et al (2009), foram constadas densidades variando de 40 mil plantas por hectare a 50 mil plantas por hectare até 75,5 mil plantas por hectare a 84 mil plantas por hectare com produtividade média acima de 8.000kg/ha.

O incremento na densidade de plantas é uma das formas mais fáceis e eficientes de se aumentar a interceptação da radiação solar incidente pela comunidade de plantas de milho. No entanto, o uso de densidades muito elevadas pode reduzir a atividade fotossintética da cultura e a eficiência da conversão de fotoassimilados em produção de grãos. Em consequência disso, há um aumento de esterilidade feminina e redução do número de grãos por espiga e do rendimento de grãos (Marchão et al, 2006). Assim sendo, a densidade populacional ótima para um determinado híbrido é aquela que corresponde ao menor número de plantas por unidade de área, o que induz à maior produtividade (Demétrio et al, 2008).

A definição da adoção do extremo inferior ou superior da faixa de densidade de plantas a ser utilizada vai depender, entre outros aspectos, da oferta hídrica e de nutrientes e do nível de tecnologia empregado no estabelecimento e na condução da lavoura de milho. Havendo limitações hídricas e nutricionais a densidade de plantas deve ser reduzida (Emygdio; Texeira, 2008).

Para Sangoi et al (2005) o rendimento de grãos do híbrido Speed apresentou maiores incrementos do que o Ag 303, com o aumento da população de plantas, devido à maior sincronia entre a antese-espigamento, além de maior produção de grãos por espiga e por área. O híbrido Speed exibiu, ainda, maior número de grãos por unidade de biomassa alocada à inflorescência feminina na fase crítica à definição deste componente do rendimento, o que contribuiu para a sua melhor performance agronômica em estandes adensados.

Piana et al (2008), em estudo realizado com híbridos simples NB4214 e Dow 2B587, concluíram que o incremento da densidade até 9 plantas/m² a 11 plantas/m2 é uma estratégia eficiente para elevar o potencial de rendimento de grãos cultivados em alto nível de manejo e semeadura precoce na região da Depressão Central do Rio Grande do Sul. Afirmam ainda que híbridos com arquitetura de folhas mais eretas não demonstram maior tolerância ao adensamento de plantas quando comparados a híbridos de folhas decumbentes.

Resultados relacionados à arquitetura da planta foram ainda observados por Demétrio et al (2008) que, ao avaliarem dois híbridos simples (P30K73 e P30F80), observaram que o incremento na densidade populacional de milho aumenta a altura das plantas e da inserção da primeira espiga, e reduz o número de grãos por espiga. E o melhor arranjo das plantas de milho para os híbridos avaliados é de 0,40m de espaçamento entre linhas e de 75 mil plantas/ha e 80 mil plantas/ha de densidade populacional.

Outras características podem ser observadas por Von Pinho et al (2008), ao avaliarem os híbridos P30K75 e o Tork, em densidade de plantio ajustada por desbaste (55 mil plantas/ha, 70 mil plantas/ha e 85 mil plantas/ha) e adubações nitrogenadas de cobertura, observou aumento da altura de plantas e da produtividade de grãos de milho com o crescimento na densidade de semeadura. Mello et al (2011) também obtiveram maiores rendimentos de grãos com acréscimos concomitantemente nas doses de N e nas densidades de plantas.

Em conformidade com Brachtvogel et al (2009), seis populações de híbrido simples DOW 2B587, combinadas em duas formas de arranjo espacial equidistante entre plantas, para todas as características avaliadas, foram influenciadas predominantemente pelas densidades populacionais, independentemente do arranjo espacial utilizado. Em contrapartida, Afférri et al (2008), ao avaliarem as cultivares AGN2012 e BRS2020, no estado do Tocantins, detectaram que os efeitos de espaçamentos promoveram variações mais significativas sobre as características agronômicas da cultura do milho, do que os efeitos de densidades de plantas. No entanto, para Argenta et al (2001b) cultivares de ciclo superprecoce e precoce, tidas como híbridos “modernos", são caracterizadas pela presença de folhas curtas e eretas, o que possibilita o adensamento de plantas e uma maior produtividade final da cultura.

Conforme Emygdio e Texeira (2008), a adoção da prática de densidade adequada e específica para BRS 1015 promove incrementos na produtividade e aumento de renda para o produtor, o que não implica em aumento de trabalho na implantação da lavoura. Além do incremento na produtividade, a prática do aumento da população de plantas e redução do espaçamento entre linhas promove a cobertura mais rápida do solo, diminuindo a incidência de plantas daninhas e melhorando a retenção de água no solo pela menor evapotranspiração.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O arranjo de plantas (espaçamento e densidade) recomendado difere de estudo para estudo, uma vez que se trabalha em regiões e condições diferentes, com variação nos níveis tecnológicos. Desta forma, o arranjo ideal de plantas deve ser mensurado conforme a condição de implantação da cultura do milho. Embora não seja consenso entre os resultados obtidos, tem-se observado que a cultura de híbridos modernos apresenta maior rendimento quando da utilização de populações acima de 70.000 plantas/ha em espaçamento reduzido (0,40m a 0,50m).

Quando da utilização de maiores densidades de semeadura, a redução do espaçamento entre fileiras ganha maior importância, pois distribui melhor as plantas na área, bem como tem-se a necessidade de aportar maiores quantidades de recursos, trabalhando em um nível tecnológico mais elevado. Portanto, o arranjo de plantas ideal é aquele que propicia melhor equidistância e menor competição entre as plantas, bem como que ofereça maior capacidade de competição à cultura quando da interferência de plantas daninhas, déficit hídrico, luminoso ou de nutrientes etc.

Neste sentido, a implantação dos melhores arranjos de plantas para a cultura do milho a campo ainda é influenciada pela oferta de máquinas (semeadura, tratos culturais e colheita), assim como as condições que serão oferecidas à planta.

Clique aqui para ler o artigo na Revista Cultivar Grandes Culturas, edição 177.


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