Manejo integrado da mancha alvo em algodão

A mancha alvo (Corynespora cassiicola) é uma doença que tem ganhado importância ao longo dos últimos anos na cultura do algodoeiro. Seu manejo exige a integração de vários métodos de controle como genético, cultural, físico, químico e biológico.

A área destinada à cultura do algodoeiro não teve aumento nos últimos anos. No entanto, a cultura pode ser encontrada em diversas regiões do Brasil e do mundo, devido à sua utilidade e ampla diversidade de aplicações. O algodoeiro apresenta rendimento ao produtor desde que seja cultivado com boa técnica cultural. Porém, observa-se uma evolução e o agravamento de doenças na cultura.

As doenças que afetam o algodoeiro são várias podendo ocasionar danos consideráveis à produção. Sua importância depende de cada local, sendo que algumas destas, consideradas pouco expressivas em determinadas regiões, podem reduzir significativamente a produtividade em outras.

Dentre as doenças que ocorrem no algodoeiro a mancha alvo vem ganhando importância. Existem relatos da sua ocorrência no ano de 2005, na cidade de Campo Verde, Mato Grosso. Naquela ocasião o fungo causou uma desfolha agressiva na cultura (MEHTA et al. 2005), sendo divulgada durante congresso de Fitopatologia realizado no mesmo ano. A partir de então, foi considerada como doença secundária, devido à sua constatada incidência em lavouras comerciais. Porém não existem relatos de impacto econômico neste estado.

No estado de Mato Grosso do Sul o primeiro relato ocorreu durante a safra de 2011/2012. Foram detectados os primeiros sintomas de mancha alvo no município de Costa Rica , Mato Grosso do Sul, pelo engenheiro agrônomo André Luiz Silva, do Grupo Schlatter. Desde então a doença passou a ser monitorada e estudada na região. Na safra 2012/2013, o mesmo fato ocorreu, porém os sintomas na cultura do algodoeiro começaram no mês de abril, e em um número maior de áreas com os sintomas de Mancha alvo (Corynespora cassiicola).

Na safra 2013/2014 o fato se repetiu, semelhante ao primeiro ano de identificação. No entanto, ocorrendo no mês de março. Em  contínua parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campus Chapadão do Sul, se confirmava a presença do patógeno em mais áreas, atingindo ainda a região sudoeste goiana (Chapadão do Céu, Goiás).

O fato foi comunicado ao fiscal federal da Delegacia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Ricardo Hilman, que por sua vez encaminhou amostras a um laboratório credenciado, no  Rio Grande do Sul, que comprovou oficialmente tratar-se do fungo Corynespora cassiicola.

No mesmo ano, nas áreas de cultivo monitoradas e na área experimental da Fundação Chapadão localizada no distrito Baús, notou-se com mais clareza a ocorrência e agressividade da doença na cultura do algodoeiro. Foi comprovado que inicialmente os sintomas são observados nas folhas do terço inferior da planta de algodoeiro e que leva ao amarelecimento da folha, causando desfolha precoce. Este efeito poderá acarretar danos na produtividade da cultura.

Já no decorrer da safra 2014/2015, a Fundação Chapadão acompanhou áreas com histórico da doença e no início do mês de março já era possível constatar alguns campos com sintomas de Mancha alvo (Corynespora cassiicola), no entanto com um número menor de áreas. Atualmente os principais estados brasileiro que cultivam algodoeiro relatam a incidência do patógeno.

DIAGNOSE

A doença de mancha alvo é caracterizada por sintomas de lesões pontuais de coloração parda e halo amarelo. Com a evolução são constatadas manchas grandes circulares, de cor castanha, formando anéis concêntricos de coloração mais escura, com uma pontuação no centro da lesão. Inicialmente os sintomas são observados nas folhas da metade inferior da planta de algodoeiro, podendo ocorrer também nas brácteas. A baixa severidade pode levar ao amarelecimento da folha, causando desfolha precoce e quando ocorrem condições climáticas favoráveis, a cultura pode sofrer desfolha severa, podendo, entre 10 dias a 15 dias, ocorrer a queda das folhas infectadas.

Figura 01. Sintomas de Corynespora cassiicola na cultura do algodoeiro. Fonte: Alfredo Riciere Dias
Figura 1 - Sintomas de Corynespora cassiicola na cultura do algodoeiro. Fonte: Alfredo Riciere Dias
Figura 02. Sintomas de Corynespora cassiicola na cultura do algodoeiro, causando desfolha. Fonte: Edson Pereira Borges
Figura 2 - Sintomas de Corynespora cassiicola na cultura do algodoeiro, causando desfolha. Fonte: Edson Pereira Borges

Os sintomas iniciais são observados em lavouras logo após o começo do fechamento das entrelinhas, principalmente nas áreas em que ocorre o maior crescimento de plantas, seja pelo excesso de nutrientes, pelo uso inadequado do regulador de crescimento ou ainda devido a redução do espaçamento entrelinhas. Estas condições associadas a um período chuvoso e temperatura amena formam um microclima extremante favorável ao desenvolvimento do patógeno, ocasionando as primeiras infecções, que podem desencadear uma epidemia.

Tais características podem causar confusão, devido a semelhança dos sintomas iniciais de outros patógenos, como por exemplo a Mancha de Mirotécio onde nas folhas, inicialmente, ocorrem manchas isoladas com anéis concêntricos, circundadas por halo violeta, que ao coalescer causa desfolha. No entanto, as lesões causadas pelo patógeno Myrothecium roridum apresentam esporodóquios, que são estruturas de formas irregulares e negros circunda­dos por hifas de cor branca. Os esporodóquios podem ser en­contrados junto às lesões, tanto na face inferior quanto superior das folhas.

 

Figura 3. Sintomas de Myrothecium roridum na cultura do algodoeiro. Fonte: Alfredo Riciere Dias
Figura 3 - Sintomas de Myrothecium roridum na cultura do algodoeiro. Fonte: Alfredo Riciere Dias

A mancha de alternaria, causada pelo patógeno que sobrevive em restos culturais Alternaria SP, também pode gerar confusão com a Mancha Alvo no momento da diagnose. Nas folhas, os sintomas parecem pequenas manchas de formato circular com anéis concêntricos enegrecidos e centro marrom a cinza. As lesões velhas apresentam o centro seco e quebradiço. Com a evolução do número das manchas ocorre queda das folhas.

Figura 4 - Sintomas de Alternaria sp na cultura do algodoeiro. Fonte: Alfredo Riciere Dias
Figura 4 - Sintomas de Alternaria sp na cultura do algodoeiro. Fonte: Alfredo Riciere Dias

Os sintomas de fitotoxicidez causados pela adubação de fertilizantes também podem apresentar semelhança ao sintoma causado por diferentes patógenos. Assim é necessária muita atenção aos pequenos detalhes quando realizado o monitoramento da lavoura. Os sintomas podem conter formato irregular, manchas isoladas com anéis concêntricos, com aspecto de escorrimento, coloração variada de acordo com a fonte do nutriente. O local onde prevalecem os sintomas, seja na metade inferior ou superior da planta, ajuda na identificação, pois normalmente os sintomas causados por fertilizantes são observado no terço superior. Neste local dificilmente haverá microclima favorável ao desenvolvimento de patógenos aos quais estes sintomas possam apresentar semelhança. 

Figura 5 - Sintomas de fitotoxidez causada pela adubação de fertilizantes na cultura do algodoeiro. Fonte: Alfredo Riciere Dias
Figura 5 - Sintomas de fitotoxidez causada pela adubação de fertilizantes na cultura do algodoeiro. Fonte: Alfredo Riciere Dias
Figura 6 - Sintomas de fitotoxidez causada pela adubação de fertilizantes na cultura do algodoeiro. Fonte: Edson Pereira Borges
Figura 6 - Sintomas de fitotoxidez causada pela adubação de fertilizantes na cultura do algodoeiro. Fonte: Edson Pereira Borges

CONTROLE

Desde a safra 2012, são vários os trabalhos desenvolvidos a campo pela Fundação Chapadão e UFMS na busca por alternativas para um controle integrado deste patógeno em algodoeiro. Mas ainda pouco se sabe a respeito do controle desta doença no algodoeiro. Em um primeiro instante é importante que seja realizado o monitoramento para identificar quais talhões e propriedades apresentam a incidência da Mancha alvo (Corynespora cassiicola) no algodoeiro e ao mesmo tempo identificar seu comportamento de evolução (Gráfico 01).

Ao analisar o gráfico da evolução dos sintomas de mancha alvo na área experimental da Fundação Chapadão (Gráfico 01), nota- se que a incidência ocorre simultaneamente ao fechamento das entrelinhas da cultura. É neste momento que se tem a formação de um microclima favorável ao desenvolvimento do patógeno, permitindo o maior progresso dos sintomas. No momento em que a severidade na folha atinge níveis entre 25% e 30%, começa a desfolha da planta em função das infecções severas, resultando aparentemente na redução dos sintomas. Essa desfolha proporciona condições desfavoráveis ao desenvolvimento de C. cassiicola, pois ocorrerá maior incidência de luz, maior ventilação e menor período de umidade, reduzindo seu progresso e proporcionando ao monitor ou avaliador um falso controle da mancha alvo.  

Gráfico 1 -  Curva de progresso da Mancha alvo (Corynespora cassiicola), na cultura do Algodão na região dos Chapadões.
Gráfico 1 - Curva de progresso da Mancha alvo (Corynespora cassiicola), na cultura do Algodão na região dos Chapadões.

São necessárias práticas de controle culturais para manipular as condições em que a cultura é cultivada, antes, durante e após o seu início, de modo a desfavorecer o desenvolvimento de patógenos e proporcionar o pleno crescimento das plantas.

A planta de algodoeiro, por ser caracterizada com habito de crescimento indeterminado e contínuo, proporciona que as plantas cresçam e atinjam grande porte. Tal fator permite que a planta produza grande quantidade de folhas, e desta forma impede que com que os raios solares penetrem no interior do dossel da planta acondicionando ambiente favorável ao desenvolvimento do patógeno.

As condições ideais para o desenvolvimento da mancha alvo (Corynespora cassiicola) são temperaturas entorno de 22°C e alta umidade relativa do ar. Essas condições podem ser alcançadas quando o manejo da altura de plantas e a sua densidade são realizados de forma inadequada. Desta forma se torna importante efetuar o manejo da altura de forma correta, com a utilização de reguladores de crescimento a fim de que se obtenham plantas de porte médio com boa aeração no interior do dossel. Já para o manejo da densidade de plantas é importante seguir a recomendação da população de planta adequada. A realização desse manejo com plantas de menores porte e a utilização da quantidade ideal de semente por área faz com que o ambiente se torne menos propenso ao desenvolvimento da doença.

Outra prática de controle que tem apresentado resultado interessante é a rotação de cultura. Esta prática consiste no plantio alternado de espécies diferentes ao longo dos anos. Nas principais regiões produtoras, em função das condições econômicas, o sistema de produção é caracterizado pelo cultivo de soja primeira safra seguida pelo algodão segunda safra. Este tipo de manejo pode resultar em uma continuidade do ciclo do fungo, aumentando a fonte de inoculo e elevando seu potencial de dano na área de cultivo. Uma das alternativas para enfrentar esse tipo de problema seria a utilização de espécies como milheto e o milho entre outras, pois essas espécies não apresentam suscetibilidade ao patógeno da mancha alvo, o que consequentemente poderá ajudar a reduzir a quantidade de inoculo na área em questão.

Atualmente a principal doença da cultura algodoeira é a Mancha de ramularia (Ramularia areola), que há muitos anos exige medidas de controle químico, na Região dos Chapadões. É necessário realizar ao menos sete aplicações de fungicidas específicas para este fungo. Através dos trabalhos efetuados na safra 2014/2015 com o objetivo de controle químico da Mancha de ramularia, ocorreu a incidência de Corynespora cassiicola. Os resultados mostram uma condição preocupante, onde aqueles fungicidas comumente utilizados na cultura do algodoeiro apresentaram baixa eficácia na redução do progresso de Mancha alvo, ou seja, é possível destacar que os fungicidas que proporcionam melhor eficácia no controle da Mancha de ramulária não apresentam a mesma performance para a Mancha alvo (Gráfico 02 e 03).

Gráfico 2 - Eficácia de fungicidas em relação a curva de progresso de Mancha Alvo na cultura do algodoeiro. Colunas seguidas de cores iguais, não diferem estatisticamente entre si pelo teste Skott-Knott a 5% de probabilidade. CV (%)= 27,86. Chapadão do Sul – MS, safra 2014/2015. PNR Produto Não Registrado. Fundação Chapadão 2015.
Gráfico 2 - Eficácia de fungicidas em relação a curva de progresso de Mancha Alvo na cultura do algodoeiro. Colunas seguidas de cores iguais, não diferem estatisticamente entre si pelo teste Skott-Knott a 5% de probabilidade. CV (%)= 27,86. Chapadão do Sul – MS, safra 2014/2015. PNR Produto Não Registrado. Fundação Chapadão 2015.
Gráfico 3 Produtividade de algodão em caroço em função da aplicação de fungicidas. Colunas seguidas de cores iguais, não diferem estatisticamente entre si pelo teste Skott-Knott a 5% de probabilidade. CV (%)=  3,51. Chapadão do Sul – MS, safra 2014/2015. PNR Produto Não Registrado. Fundação Chapadão 2015.
Gráfico 3 - Produtividade de algodão em caroço em função da aplicação de fungicidas. Colunas seguidas de cores iguais, não diferem estatisticamente entre si pelo teste Skott-Knott a 5% de probabilidade. CV (%)= 3,51. Chapadão do Sul – MS, safra 2014/2015. PNR Produto Não Registrado. Fundação Chapadão 2015.

Um dos trabalhos desenvolvido pela Fundação Chapadão teve como objetivo  avaliar o efeito de diferentes fungicidas aplicados no início dos sintomas de mancha alvo na cultura do algodoeiro cultivado na segunda safra em sistema adensado (espaçamento de 0,45 m entre linhas) em condições de campo. Neste caso os fungicidas apresentaram baixa eficácia no controle de mancha alvo no algodoeiro, devido a aplicação ter começado junto aos primeiros sintomas nas folhas, comprometendo seu desempenho (Gráfico 04). No entanto, houve incremento significativo na produtividade em função do controle químico de C. cassiicola (Gráfico 05).

Gráfico 4 - Eficácia de fungicidas em relação a curva de progresso de Mancha Alvo na cultura do algodoeiro. Colunas seguidas de cores iguais, não diferem estatisticamente entre si pelo teste Skott-Knott a 5% de probabilidade. CV (%)= 19,97. Chapadão do Céu – GO, safra 2013/2014. Fundação Chapadão 2015.
Gráfico 4 - Eficácia de fungicidas em relação a curva de progresso de Mancha Alvo na cultura do algodoeiro. Colunas seguidas de cores iguais, não diferem estatisticamente entre si pelo teste Skott-Knott a 5% de probabilidade. CV (%)= 19,97. Chapadão do Céu – GO, safra 2013/2014. Fundação Chapadão 2015.
Gráfico 5 - Produtividade de algodão em caroço em função da aplicação de fungicidas. Colunas seguidas de cores iguais, não diferem estatisticamente entre si pelo teste Skott-Knott a 5% de probabilidade. CV (%)=  3,51. Chapadão do Céu – GO, safra 2013/2014. Fundação Chapadão 2015.
Gráfico 5 - Produtividade de algodão em caroço em função da aplicação de fungicidas. Colunas seguidas de cores iguais, não diferem estatisticamente entre si pelo teste Skott-Knott a 5% de probabilidade. CV (%)= 3,51. Chapadão do Céu – GO, safra 2013/2014. Fundação Chapadão 2015.

Diante destas condições, a mancha alvo se faz presente no algodoeiro cultivado na região dos Chapadões, sendo necessária a integração de vários métodos de controle de doenças como genético, cultural, físico, químico e biológico a fim de manter maior sanidade da cultura, o que acarretará ganhos de produtividade frente a este novo problema fitossanitário.


Alfredo Riciere Dias, Fundação Chapadão; Hugo Manoel de Souza, UFMS; Gustavo de Faria Theodoro, UFMS, Engo. Agro. Dr.


Artigo publicado na edição 202 da Cultivar Grandes Culturas.

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