Manejo integrado de fitonematoides em soja e algodão

Identificar as espécies de nematoides presentes na área de cultivo e determinar sua densidade populacional é o primeiro passo antes da definição de medidas de controle. Superada essa etapa, a adoção integrada de químicos e biológicos compatíveis consiste na melhor estratégia para enfrentar fitonematoides em lavouras de soja e algodão.

Até o início da década de 1990, os únicos nematoides que causavam preocupações aos sojicultores do Brasil eram os nematoides das galhas (Meloidogyne javanica e M. incognita). A partir da safra 1991/92, o nematoide de cisto da soja (Heterodera glycines) começou a figurar como patógeno de grande importância. No início do século XXI, ou seja, 11 anos mais tarde, na safra de 2002/03, mais uma espécie passou a despertar as atenções dos sojicultores: o nematoide das lesões (Pratylenchus brachyurus). Na mesma década surgiram registros ocasionais de perdas causadas pelo nematoide reniforme (Rotylenchulus reniformis) na cultura da soja.

As espécies mencionadas, hoje dificilmente ocorrem isoladamente, o que tem dificultado o manejo e aumentado as perdas, muitas vezes fazendo com que o produtor não consiga pagar os custos de produção e abandone a área, ou transfira o problema a outros. No estado de Mato Grosso, a espécie mais comum é o nematoide-das-lesões e o de menor incidência é o nematoide-reniforme, tanto na cultura da soja, quanto na do algodoeiro. Este último é um problema potencialmente grave, principalmente nas áreas de sucessão soja-algodão. O nematoide-de-cisto da soja é a espécie mais conhecida pelos sojicultores. Mesmo tendo sido relatada no Brasil pela primeira vez há relativamente pouco tempo (1991/92), atualmente ocorre em mais de cinco milhões de hectares. Esta espécie apresenta grande diversidade genética e, quando sob pressão de seleção (uso continuado de uma ou poucas cultivares de soja resistente), novas raças podem ser selecionadas.

Um ponto primordial a ser considerado, antes de tomar qualquer atitude em relação ao manejo específico para nematoides, é saber com certeza quais espécies de nematoides estão presentes na área e também a densidade populacional. Para tanto, um laboratório especializado deve ser contratado para fornecer informações para a coleta e o acondicionamento adequado de amostra de solo, onde esses nematoides ocorrem; e posterior envio dessas amostras para a identificação correta e a determinação da densidade populacional (número de nematoides/cm3 de solo). É recomendado que o laboratório escolhido seja o mais próximo possível da propriedade. De posse dos resultados das infestações nematológicas nas áreas de cultivo, o técnico responsável deve programar as atividades de manejo a serem estabelecidas.

O que não deve ser esquecido é que uma vez detectada a presença do nematoide, as práticas de manejo devem ser planejadas a médio ou longo prazo para que as populações possam reduzir gradativamente até que não acarretem mais danos à lavoura.

O que se recomenda no manejo de fitonematoide é que as práticas tenham uma sequência lógica incluindo o manejo cultural, uso de cultivares resistentes, e uso de produtos químicos e ou biológicos. A estratégia do controle biológico possibilita a diminuição da densidade populacional dos fitonematoides na área e promove equilíbrio da microfauna do solo, tornando supressivo ao patógeno. Os agentes de biocontrole (fungos ou bactérias) disponíveis possuem algumas vantagens em relação ao controle químico, porém exigem condições adequadas para sua viabilidade.

Cerca de 75% dos microorganismos antagonistas, identificados, são fungos que habitam normalmente o solo e podem ser parasitas de ovos, predadores de juvenis, adultos ou cistos, ou ainda produzirem metabólitos tóxicos aos nematoides. Dentre os vários fungos nematófagos, os ovicidas ou oportunistas estão entre os mais promissores, para o controle de nematoides de galha, visto que a massa de ovos desses nematoides é compactada em uma matriz gelatinosa em cada fêmea, facilitando a colonização. O Trichoderma sp é representado por espécies necrotróficas, com grande capacidade no controle de fungos de solo. Porém, devido a capacidade de degradar quitina é utilizado no manejo de nematoides. O fungo Paecilomyces lilacinus é conhecido por sua ação parasita sobre ovos e fêmeas de Meloidogyne sp.

Quando a planta é infectada por um patógeno, as rizobactérias podem atuar como agentes de controle biológico, por meio da produção de metabólitos bacterianos tais como, antibióticos e enzimas que degradam a parede celular do patógeno afetando-o diretamente. Os produtos do metabolismo dessas bactérias podem agir diretamente sobre a mobilidade e/ou sobrevivência de embriões no interior dos ovos e diferentes estádios de desenvolvimentos dos nematoides.

O impacto das bactérias sobre os nematoides pode ser decorrente do parasitismo, da produção de antibióticos, toxinas e enzimas, da interferência no processo de reconhecimento planta-hospedeiro, na indução de resistência e/ou proporcionando o desenvolvimento saudável da planta.

Os principais gêneros bacterianos associados ao biocontrole de nematoides são Pseudomonas spp. e Bacillus spp. A bactéria Bacillus subtillis afeta a orientação do nematoide, induz a resistência sistêmica, atua como substância tóxica ou repelente e se alimenta de ovos de nematoide. Outro exemplo estudado e promissor é a bactéria Pasteuria penetrans, considerada o agente biológico mais potente contra o nematoide das galhas.

Porém, para a comercialização desses antagonistas são necessárias muitas pesquisas preliminares, dado que seu desempenho em campo pode ser bastante inconsistente e variável. Quando se trata de nematoides, e as condições que envolvem o seu controle, nenhuma ferramenta isolada é garantia de sucesso, principalmente os agentes de controle biológico, que por se tratar de microrganismos vivos, as condições ambientais, ligadas à física e química dos solos, afetam diretamente a sua eficácia de ação sobre os nematoides. No estado de Mato Grosso, nos últimos três anos a procura por produtos biológicos tem aumentado muito, consequentemente a oferta. Isso fez com que as empresas investissem mais em formulações, de mais fácil aplicabilidade e com menor possibilidade de perda da viabilidade dos microrganismos a serem aplicados.

Os microrganismos de biocontrole têm apresentado bons efeitos quando utilizados juntamente com culturas de coberturas, principalmente aquelas que não apresentam resistência a todas as espécies de nematoides. Um bom exemplo disso são as braquiárias eficientes no manejo dos nematoides das galhas e cisto, porém hospedeiras de Pratylenchus brachyurus. Nesse caso tem-se recomendado o uso da Brachiaria ruzizizensis, pois dentre as braquiárias essa é uma das que possui menor fator de multiplicação para esse nematoide. Desta forma, ocorre um efeito cumulativo, da planta não hospedeira para galha e cisto e dos microrganismos protegendo as raízes com relação ao nematoide das lesões. Esse efeito pode ser visualizado na figura 1.

Figura 1. Plantas de soja semeadas em sucessão com a Brachiaria ruziziensis, sendo as plantas 1 tratadas com Fipronil e as 2 tratadas com fipronil mais Trichoderma asperellum e Bacillus subtilis.
Figura 1. Plantas de soja semeadas em sucessão com a Brachiaria ruziziensis, sendo as plantas 1 tratadas com Fipronil e as 2 tratadas com fipronil mais Trichoderma asperellum e Bacillus subtilis. - Foto: Silva 2015.

Além disso, se o microrganismo for utilizado nas plantas de cobertura na entressafra, o período de chuva já está estabelecido e há umidade suficiente para que se desenvolvam, promovam maior proteção das raízes e ataquem os juvenis e ovos no solo, causando maior redução da população do nematoide. Mesmo quando os produtos biológicos são utilizados em plantas de coberturas resistentes às principais espécies de nematoides, tais como a Crotalaria spectabilis, em sucessão à soja, pode ser observada melhoria no desenvolvimento do sistema radicular das plantas de soja (Figura 2), principalmente se a população do nematoide for alta, pois o período de entressafra é curto e ainda ocorre taxa sobrevivência, para a qual os microrganismo irão colaborar .

Figura 2. Plantas de soja em sucessão com Crotalaria spectabilis e tratadas com tratadas com fipronil mais Trichoderma asperellum e Bacillus subtilis (A) e não tratadas com os microrganismos (B).
Figura 2. Plantas de soja em sucessão com Crotalaria spectabilis e tratadas com tratadas com fipronil mais Trichoderma asperellum e Bacillus subtilis (A) e não tratadas com os microrganismos (B). - Foto: Silva 2015.

Para reduzir a população de nematoides na cultura da soja e ainda melhorar a cobertura do solo para o cultivo subsequente, diversos produtores têm adotado o consórcio de plantas. Um dos exemplos reside no milho (resistente a Meloidogyne javanica) consorciado á Crotalaria spectabilis, e após o consórcio o uso de microrganismos nas plantas de soja. Com isso se tem observado melhor condições para o desenvolvimento das plantas (Figura 3).

Figura 3. Plantas de soja semeadas em sucessão ao Milho (2B688) consorciado a Crotalaria spectabilis e tratadas com fipronil mais Trichoderma asperellum e Bacillus subtilis (A) e não tratadas com os microrganismos (B).
Figura 3. Plantas de soja semeadas em sucessão ao Milho (2B688) consorciado a Crotalaria spectabilis e tratadas com fipronil mais Trichoderma asperellum e Bacillus subtilis (A) e não tratadas com os microrganismos (B). - Foto: Silva 2015.

Além do melhor enraizamento tem sido observado maior incremento em produtividade nas áreas em que o produto biológico ou adubo biológico é usado como ferramenta única de manejo. Porém se a infestação de nematoide é alta, dificilmente apenas com o uso dessa prática se consegue restabelecer a produtividade. No entanto, nos ensaios onde esses produtos têm sido utilizados tem-se observado incrementos de até quatro sacas em relação à testemunha não tratada (Figura 4). 

Figura 4. Produtividade média da soja GB 874 parcelas onde aplicou e não aplicou o adubo biológico Microgeo.
Figura 4. Produtividade média da soja GB 874 parcelas onde aplicou e não aplicou o adubo biológico Microgeo.

Contudo, quando um produtor utiliza um produto e incrementa de três a quatro sacas, em uma área onde a produtividade passou de 40 sacas para 43 ou 44, não tem sido atribuído valor ao produto. O mesmo não ocorre se a produtividade passa de 52 para 55 ou 56 sacas. A forma de visualizar o produto é outra, quando na verdade o incremento é o mesmo. A diferença está na gravidade do problema que existe na área, por isso se tem recomendado os produtos como uma ferramenta de manejo e não de forma isoladas em áreas onde os nematoides estão acima do nível de dano econômico.

Com relação aos químicos, é possível considerar a mesma proposta mencionada aos biológicos. Trata-se de mais uma ferramenta, mas deve ser usada associada a outras técnicas, pois por si só não trará resultados satisfatórios de controle e diminuição de nematoides ao longo do tempo. Os nematicidas, não tem ação seletiva, portanto, o emprego intensivo do controle químico isoladamente pode causar desequilíbrios com o decorrer do tempo. O residual dos tratamentos químicos de sementes é de no máximo 30 a 40 dias. Após isso a tendência é de que a população de nematoides volte a crescer, ou seja, no final do ciclo da cultura poderá estar até mais alta nas parcelas tratadas, pois o volume de raiz será maior em relação às parcelas testemunha, o que significará mais alimento para os nematoides. Na figura 5, pode ser observado o efeito de proteção inicial para as raízes. 

Figura 5. Raízes de algodoeiro tratadas (esquerda) e não tratadas (direita) com abamectina aos 27 após a germinação.
Figura 5. Raízes de algodoeiro tratadas (esquerda) e não tratadas (direita) com abamectina aos 27 após a germinação. - Foto: Bessi et al 2007.

Essa proteção possibilita o melhor estabelecimento das plantas na presença do nematoide. Além disso, tem se observado que quando o manejo químico está agregado ao manejo cultural o efeito é muito melhor, pois já ocorreu redução na população e aliado a isso os nematoides que restaram terão maior dificuldade em penetrar nas raízes, permitindo melhor estabelecimento, maior enraizamento (Figura 6) e consequentemente maior desenvolvimento das plantas e incrementos em produtividade (Figura 7).

Figura 6. Plantas de soja semeadas após o milheto ADR 300 tratadas com	fipronil + piraclostrobina + tiofanato-metílico (A) e com cadusafós (B).
Figura 6. Plantas de soja semeadas após o milheto ADR 300 tratadas com fipronil + piraclostrobina + tiofanato-metílico (A) e com cadusafós (B). - Foto: Silva 2015.
Figura 7. Plantas de algodoeiro Fmax 975 tratadas com cadusafós em rotação com a Crotalaria spectabilis (A) e sem rotação, mas com o tratamento químico (B), ambas em área infestada com Rotylenchulus reniformis.
Figura 7. Plantas de algodoeiro Fmax 975 tratadas com cadusafós em rotação com a Crotalaria spectabilis (A) e sem rotação, mas com o tratamento químico (B), ambas em área infestada com Rotylenchulus reniformis. - Foto: Silva 2015.

Alguns produtores que sofrem mais com problemas com nematoides tem agrupado as duas práticas de manejo (biológica e química), em algumas áreas. No entanto, é preciso estar atento à compatibilidade dos produtos. A maioria dos nematicidas não apresenta incompatibilidade aos microrganismos, no entanto deve-se ter cuidado com o fungicida que acompanha o tratamento, principalmente o industrial. Antes de utilizar um produto biológico deve-se entrar em contato com um representante do produto e informar-se sobre a compatibilidade dele com aqueles presentes nas sementes adquiridas. Se o produtor não utilizar o tratamento industrial, deve selecionar os produtos compatíveis com os microrganismos que pretende adotar, para não inviabilizá-los ou retardar seu crescimento. Quando se trabalha com microrganismos sempre é preciso lembrar que estão vivos e assim devem permanecer, para conseguir colonizar o solo, as raízes e/ou os nematoides presentes, dependendo do produto utilizado.


Rosangela Silva, Fundação MT; Lennis Rodrigues, Fundação MT


Artigo publicado na edição 201 da Cultivar Grandes Culturas.

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