Manejo integrado de lagartas e percevejos na lavoura

Benefícios econômicos pela redução de custos e ambientais através de maior equilíbrio no agroecossistema estão entre as vantagens do manejo integrado de pragas, como a lagarta falsa medideira e o percevejo marrom, na cultura da soja. 

A soja pode ser atacada por pragas desde a emergência das plantas até a fase de maturação fisiológica. Essas pragas são classificadas como de importância primária, regional ou secundária, em função da sua frequência e abrangência de ocorrência e do potencial de danos que causam na cultura.

No início da década de 1970, antes da implementação dos trabalhos de manejo integrado de pragas (MIP) na cultura da soja, eram realizadas de seis a sete aplicações de inseticidas durante o ciclo da cultura. A partir de 1975, iniciaram-se os trabalhos de MIP-soja no Brasil através da parceria envolvendo diferentes instituições de pesquisa e de extensão rural. Após a determinação dos níveis de dano para as principais pragas desfolhadoras e sugadoras na cultura, passou-se a recomendar o uso de inseticidas apenas quando fosse necessário, ou seja, quando as populações das pragas estivessem iguais ou acima do nível de controle. Após alguns anos, aquele quadro alarmante do uso de inseticidas nas lavouras de soja foi revertido para uma média de apenas duas aplicações por safra. Na década de 1980 foi desenvolvido o controle biológico da lagarta da soja através do uso do Baculovirus anticarsia que impulsionou ainda mais o MIP-Soja no Brasil, enquanto nos anos de 1990, foi também incluída no MIP da soja o controle biológico dos percevejos fitófagos através do uso de parasitoides de ovos.

Porém, na última década, tem-se observado um retrocesso nos programas de manejo de pragas da soja ou até, em muitas situações, o abandono dessa estratégia, retornando novamente a um aumento abusivo do uso de inseticidas nas lavouras, com consequências indesejáveis do ponto de vista econômico, ecológico e ambiental. Neste novo cenário, os inseticidas deixaram de ser usados com base na população de pragas amostradas nas lavouras, desrespeitando-se os níveis de ação preconizados pela pesquisa, passando as pulverizações a serem realizadas com base em critérios subjetivos, sendo, muitas vezes, as aplicações de inseticidas programadas com base em calendários. Com o advento da soja transgênica RR resistente ao herbicida glifosato e com a chegada da ferrugem asiática no Brasil, em 2001, as aplicações de herbicidas e de fungicidas nas lavouras de soja tiveram um incremento acentuado. Este aumento do uso de fungicidas e herbicidas na cultura, em adição às aplicações de inseticidas de amplo espectro, tem contribuído para o desequilíbrio biológico no agroecossistema, em consequência da destruição dos inimigos naturais dos insetos-praga. Esse desequilíbrio biológico tem condicionado o aparecimento frequente de ressurgências das pragas principais, bem como de erupção de pragas secundárias como ocorreu com a lagarta falsa-medideira, Chrysodeixis includens. Em adição a isso, tem-se constatado nos últimos anos o desenvolvimento de resistência dos percevejos fitófagos aos inseticidas químicos aplicados na soja, acentuando-se os casos de insucesso de controle de pragas na cultura.

Diante desse cenário caótico, há necessidade urgente de se desenvolver, atualizar e/ou adequar novos conceitos e estratégias para o controle de pragas na soja, para resgatar o manejo integrado na cultura para que se possa usufruir dos seus benefícios. Trabalhos coordenados pela Embrapa Soja, especialmente no Estado do Paraná, tem evidenciado que o MIP constitui uma ferramenta importante para a racionalização do uso de inseticidas na cultura da soja, sem que ocorra riscos em perdas de produtividade.

Conduziu-se também uma pesquisa em Mato Grosso do Sul para estabelecer o monitoramento e o manejo integrado dos insetos-praga e de seus inimigos naturais na soja, bem como realizar a análise econômica dos custos e benefícios dessa estratégia de controle de pragas na cultura.

Metodologia da pesquisa

O manejo integrado de pragas (MIP-Soja) foi executado durante a safra 2015/2016 em uma área de produtor, no município de Dourados/Mato Grosso do Sul. A semeadura da soja foi realizada no dia 07 de novembro de 2015 com a cultivar Syn 1059 (Vtop), sendo a emergência constatada em 14 de novembro de 2016. As sementes de soja da área em que foi conduzido o MIP foram tratadas com o inseticida clorantraniliprole na dose de 1 mL/kg de sementes do produto comercial, enquanto que na área conduzida pelo produtor as sementes foram tratadas com fipronil na dose de 2,0 mL/kg de sementes do produto comercial, considerada o padrão comparativo do MIP. As demais práticas agronômicas de implantação e condução das lavouras foram realizadas conforme as Recomendações Técnicas da Comissão de Pesquisa de Soja da Região Central do Brasil.

Monitoramento de lagartas desfolhadoras

Com o aparecimento das primeiras folhas de soja começaram as amostragens de lagartas que atacam a parte aérea da cultura, sendo este monitoramento realizado semanalmente até a fase de enchimento dos grãos. As lagartas foram monitoradas utilizando-se o pano-de-batida em oito pontos distintos, tanto na área do MIP quanto na área do produtor.

Foram também instaladas armadilhas do tipo delta, que continham os feromônios sexuais de Spodoptera frugiperda, Helicoverpa sp., Heliothis virescens e Chrysodeixis includens. Os septos das armadilhas contendo o feromônio sexual foram substituídos mensalmente e os pisos adesivos semanalmente, quando os adultos coletados nas armadilhas foram identificados e quantificados.

Monitoramento de pragas que atacam vagens e grãos

Próximo ao início do período de florescimento da soja começou o monitoramento de percevejos nas duas áreas de soja (MIP e do produtor), utilizando-se o pano-de-batida. Quando a densidade populacional de lagartas ou de percevejos na área do MIP atingiu o nível de controle para essas pragas ou se posicionou próximo deste foram realizadas as aplicações de inseticidas na cultura de soja. O controle de pragas na área do produtor foi realizado conforme suas orientações.

Análise econômica do manejo de pragas no projeto

Na análise econômica dos dois sistemas de manejo (área do MIP e a área do produtor) foram considerados os custos com inseticidas, operações com máquinas, implementos e de mão-de-obra por hectare. Em adição foi feita uma análise extrapolada dos benefícios econômicos do manejo de pragas na área do MIP, em comparação à área total de soja cultivada pelo produtor, bem como considerando o cenário de produção de soja em nível estadual e nacional.

Resultados alcançados

Nas amostragens de adultos de lepidópteros, utilizando-se as armadilhas iscadas com feromônio sexual, constataram-se as quatros espécies de mariposas em que seus feromônios foram testados. As espécies Spodoptera cosmioides e Chrysodeixis includens foram as que apresentaram a maior incidência nas armadilhas de feromônio, sendo o pico da primeira observado no mês de dezembro e da segunda no mês de janeiro (Figura 1). Apesar dos adultos de S. frugiperda serem abundantes nas armadilhas de feromônio sexual, esta espécie não apresentou importância econômica na cultura da soja.

Figura 1. Mariposas capturadas nas armadilhas iscadas com feromônio sexual durante o período de monitoramento na área do MIP. Safra 2015/2016. Dourados, Mato Grosso do Sul.
Figura 1. Mariposas capturadas nas armadilhas iscadas com feromônio sexual durante o período de monitoramento na área do MIP. Safra 2015/2016. Dourados, Mato Grosso do Sul.

Dentre as lagartas desfolhadoras da soja, a espécie mais abundante foi C. includens. Com base nos dados de amostragens de lagartas com o pano-de-batida foram tomadas as decisões de aplicação ou não de inseticidas para o controle dessas pragas na área do MIP. O pico de abundância das lagartas na soja ocorreu em 7 de janeiro de 2016, tanto na área do MIP como na do produtor rural (Figuras 2 e 3), período este em que a soja encontrava-se no estádio inicial de desenvolvimento de vagens (R3).

Figura 2. Lagartas grandes e pequenas capturadas pelo método do pano de  batida na área do MIP. A seta indica o momento da aplicação do inseticida na soja. Safra 2015/2016. Dourados, MS.
Figura 2. Lagartas grandes e pequenas capturadas pelo método do pano de batida na área do MIP. A seta indica o momento da aplicação do inseticida na soja. Safra 2015/2016. Dourados, MS.
Figura 3. Lagartas grandes e pequenas capturadas pelo método do pano de  batida na área do produtor. As setas indicam os momentos das aplicações de inseticidas na soja. Safra 2015/2016. Dourados, MS. 2016.
Figura 3. Lagartas grandes e pequenas capturadas pelo método do pano de batida na área do produtor. As setas indicam os momentos das aplicações de inseticidas na soja. Safra 2015/2016. Dourados, MS. 2016.

Para o controle de lagartas na área do MIP foi realizada apenas uma aplicação do inseticida clorantraniliprole em 30 de dezembro de 2015, utilizando-se a dose de 60 mL/ha do produto comercial (Figura 2 e Tabela 1). Essa primeira pulverização da soja foi realizada somente aos 66 dias após a emergência das plantas, condição ideal para a implementação do MIP, uma vez que esta entrada tardia de inseticidas na cultura proporciona o desenvolvimento de inimigos naturais no agroecossistema criando uma condição de equilíbrio biológico. Já na área de soja manejada pelo próprio produtor foram realizadas quatro aplicações de inseticidas para o controle de lagartas (Figura 3), sendo a primeira pulverização realizada com metomil em 17 de dezembro de 2015, com a dose de 1 litro/ha do produto comercial, a segunda com os inseticidas lufenurom + profenofós na dose de 400 mL/ha do produto comercial, a terceira com o inseticida espinetoram na dose de 100 mL/ha do produto comercial e quarta com a mistura metomil + espinetoram nas doses de 1,0 litro/ha e 100 mL/ha, respectivamente, dos produtos comerciais (Tabela 1).

Com relação à ocorrência de percevejos fitófagos na soja observou-se uma maior predominância de adultos em relação a ninfas, tanto na área do MIP quanto na área manejada pelo produtor. Na área do MIP foram necessárias três aplicações de inseticidas para o controle de percevejos, sendo a primeira realizada com os inseticidas tiametoxam + lambda-cialotrina + sal, na dose comercial de 300 mL/ha + 0,5% de NaCl, a segunda com os inseticidas imidacloprido + bifentrina + sal, na dose comercial de 400 mL/ha + 0,5% de NaCl e a terceira com os inseticidas tiametoxam + lambda-cialotrina + sal, na dose comercial de 300 mL/ha + 0,5% de NaCl (Tabela 1). Já na área manejada pelo produtor foram realizadas três aplicações (Figura 5) utilizando apenas os inseticidas tiametoxam + lambda-cialotrina na dose de 300 mL/ha do produto comercial (Tabela 1)

Figura 4. Adultos e ninfas de percevejos capturados pelo método do pano de  batida na área do MIP. As setas indicam os momentos das aplicações de inseticidas. Safra 2015/2016. Dourados, MS.
Figura 4. Adultos e ninfas de percevejos capturados pelo método do pano de batida na área do MIP. As setas indicam os momentos das aplicações de inseticidas. Safra 2015/2016. Dourados, MS.
Figura 5. Adultos e ninfas de percevejos capturados pelo método do pano de  batida na área do produtor. As setas indicam os momentos das aplicações de inseticidas. Safra 2015/2016. Dourados, MS.
Figura 5. Adultos e ninfas de percevejos capturados pelo método do pano de batida na área do produtor. As setas indicam os momentos das aplicações de inseticidas. Safra 2015/2016. Dourados, MS.

Através da análise do custo das aplicações de inseticidas na soja verificou-se que na área onde se realizou o MIP houve uma economia de R$ 125,58 (cento e vinte e cinco reais e cinquenta e oito centavos) por hectare (Tabela 2). O produtor proprietário da área onde o MIP foi conduzido, cultiva uma área de 360 hectares de soja. Se tivesse seguido as orientações do MIP teria uma economia na fazenda de R$ 45.208,80 (quarenta e cinco mil duzentos e oito reais e oitenta centavos). Extrapolando-se este valor de redução de custo para o estado de Mato Grosso do Sul, que teve uma área cultivada com soja de 2.430.000 hectares safra 2015/2016, o benefício econômico estadual seria de R$ 305.159.400,00 (trezentos e cinco milhões, cento e cinquenta e nove mil e quatrocentos reais), enquanto que para o cenário do Brasil, que teve uma área cultivada de 33.228.400 hectares nesta mesma safra, o benefício econômico seria em torno de R$ 4 bilhões (Tabela 2).

Considerações Finais

A principal espécie de lagarta desfolhadora da soja tanto na área do Manejo Integrado de Pragas (MIP) quanto do produtor foi a lagarta falsa-medideira, C. includens, enquanto que a espécie de percevejo predominante foi o marrom, E. heros. Com base nos resultados de manejo de pragas obtidos na área do MIP e do produtor, pode-se concluir que o controle de pragas na cultura da soja, seguindo os princípios e a filosofia do MIP, constitui uma prática que traz benefícios econômicos para os produtores rurais. Este resultado é alcançado porque esta estratégia de controle promove redução do número de aplicações de inseticidas por safra o que, consequentemente, diminui o custo fitossanitário da lavoura de soja, garantindo assim uma maior margem de lucro para o produtor rural.

Somando a isso, a utilização do MIP na cultura da soja promove o controle biológico natural no agroecossistema e reduz a contaminação ambiental, uma vez que menos produtos são despejados anualmente no ambiente, o que representa uma melhoria na qualidade de vida da população.

Com a adição de outras táticas de controle de pragas na cultura da soja, associadas e em harmonia com o MIP, como é o caso das plantas transgênicas Bt e o controle biológico aplicado de lagartas e de percevejos utilizando-se parasitoides, espera-se que o número requerido de aplicações de inseticidas na cultura possa ser ainda mais reduzido, conduzindo assim para o estabelecimento de um ambiente biológico mais equilibrado no agroecossistema e mais limpo do ponto de vista ambiental.

Espera-se que os resultados obtidos nesta pesquisa possam estimular a assistência técnica e os produtores rurais a utilizarem com maior intensidade o Manejo Integrado de Pragas em suas lavouras de soja e, com isso, obterem os benefícios econômicos, ambientais e sociais que esta estratégia de controle de pragas proporciona, como foi constatado neste estudo.


Crébio José Ávila, Embrapa Agropecuária Oeste; Viviane Santos, Instituto Federal - Ponta Porã, MS


Artigo publicado na edição 211 da Cultivar Grandes Culturas.

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura