Manejo integrado de mosca-branca em milho

Hospedeiro considerado até  como improvável, ao longo dos últimos anos o milho também tem passado a abrigar infestações da mosca-branca, Bemisia tabaci, biótipo B, o que representa uma ameaça potencial para outras espécies comerciais de gramíneas, como sorgo, capim Brachiaria e cana-de-açúcar, cultivados extensivamente no Brasil. Estratégias adotadas de modo integrado são a saída para manejar adequadamente esta praga cosmopolita, com capacidade para se alimentar de mais de 600 espécies de plantas.

A mosca-branca Bemisia tabaci pertence a um complexo de espécies morfologicamente semelhantes, que estão em constante evolução. No Brasil, pelo menos, quatro espécies de B. tabaci estão presentes: Middle East Ásia Menor 1 - MEAM1 (biótipo B), Novo Mundo e Novo Mundo 2 (biótipo A). A mosca-branca Mediterrâneo - MED (biótipo Q) foi observada em 2013 no Rio Grande do Sul, ainda não havendo relato de sua dispersão para outras regiões do Brasil. O biótipo Q é resistente aos inseticidas neonicotinoides e juvenoides e também transmite espécies de vírus que não estão presentes no Brasil, tais como o ToTV (vírus tomate assado) e o TYLCV (amarelo tomate leaf curl vírus), importantes doenças virais no tomate em países que ocorrem o biótipo Q. Este novo biótipo coletado no Brasil pode mudar o atual cenário das espécies de vírus predominantes no País.

A B. tabaci foi descrita há mais de 100 anos, e desde então se tornou uma das pragas mais importantes do mundo na agricultura tropical e subtropical, bem como em cultivo protegido. Adapta-se facilmente a novas plantas hospedeiras e regiões geográficas, tendo sido observada em todos os continentes, exceto na Antártida. O transporte internacional de material vegetal e de pessoas, bem como o aumento da produção e das áreas agrícolas, tem contribuído para a propagação geográfica desta espécie.

No Brasil, antes da introdução do biótipo B em 1991, B. tabaci era praga importante somente do feijão como vetor do vírus do mosaico dourado do feijoeiro. Após sua introdução, a propagação e o aumento no tamanho da população do biótipo B foram favorecidos pelo sistema de cultivo agrícola do Brasil. Esta praga cosmopolita alimenta-se de mais de 600 espécies de plantas e a gama de plantas hospedeiras tem aumentado no decorrer do tempo, o que tem sido atribuído, entre outras razões, ao uso de práticas agrícolas de monocultivo irrigado. Este grande número de hospedeiros tem permitido que a mosca-branca reproduza e migre de forma rápida tanto nos vários hospedeiros silvestres e nos cultivados como algodão, soja, tomate, feijão, batata, melão etc, muitas vezes atingindo tamanhos extremamente elevados de população. “Nuvens” de mosca-branca têm sido observadas no Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte, Paraná, Mato Grosso e Goiás, provocando perdas que variam de 30% a 100% em diversos cultivos. Além disso, devido ao clima tropical e longo período vegetativo, uma segunda safra de milho, conhecida como "safrinha", é plantada em fevereiro, imediatamente após a colheita de soja ou feijão plantada durante outubro e novembro de cada ano. Este sistema agrícola tem favorecido a reprodução do biótipo B no milho nos últimos três ou quatro anos, um hospedeiro até recentemente improvável para esta praga (Figura 1). A capacidade demonstrada do biótipo B de B. tabaci completar seu ciclo de vida no milho tem implicações em outros sistemas agrícolas tropicais de todo o mundo, onde o milho é cultivado como uma das principais culturas para a alimentação animal e humana e produção de biocombustíveis. A colonização de milho pelo biótipo B de B. tabaci é uma ameaça potencial para outras espécies comerciais de gramíneas, incluindo o sorgo, o capim Brachiaria e a cana-de-açúcar, que são cultivados extensivamente no Brasil.

Perdas excessivas na produção de grãos, hortaliças e plantas ornamentais por B. tabaci biótipo B tem sido observadas no mundo todo. As perdas são decorrentes da transmissão de vírus (mais de 150 espécies), danos diretos pela alimentação da seiva do floema, por causar distúrbios fisiológicos na planta, e pela excreção de substância açucarada que favorece o crescimento de fungos nas folhas (fumagina).

O principal método de controle da mosca-branca continua sendo o uso de inseticidas sintéticos, que são aplicados várias vezes praticamente durante todo o ano, nas diversas culturas. Vários inseticidas, apesar de serem comercializados com nomes diferenciados, são constituídos pelos mesmos princípios ativos. Os inseticidas mais utilizados para o controle de mosca-branca são os neonicotinoides, as misturas de neonicotinoides + piretroides e os reguladores de crescimento (juvenoides e inibidores de síntese de quitina), o que trouxe, como consequência, uma redução na eficiência e no poder residual.

Nenhuma estratégia de controle, quando usada isoladamente, tem demonstrado ser efetiva para o manejo da mosca-branca e dos vírus que este inseto transmite. As medidas de controle devem ser iniciadas antes da semeadura e precisam ser planejadas de forma que a população da mosca-branca seja mantida baixa, pois, uma vez fora de controle, dificilmente qualquer que seja a medida utilizada terá um resultado satisfatório.

Quadro: estratégias de manejo para evitar a multiplicação do inseto e das plantas infectadas por vírus

  • Manter as áreas de produção no limpo (não deixar plantas vivas na safra e entre safra). Deve-se eliminar as plantas espontâneas, soqueiras e rebrotas de algodão, tigueras de soja, feijoeiro comum e outras culturas hospedeiras após a colheita. As lavouras abandonadas ou com ciclo interrompido e as plantas voluntárias deverão ser destruídas imediatamente;
  • A rotação de inseticidas com modo de ação distinto é de fundamental importância para evitar ou retardar a evolução da resistência da mosca-branca aos inseticidas recomendados para o seu controle (consultar http://www.irac-br.org);
  • Evitar o plantio escalonado das culturas efetuando a semeadura das hospedeiras da mosca-branca (soja, feijão, algodão, tomate etc) no menor espaço de tempo possível, procurando obter maior concentração e uniformidade da época de semeadura. Estabelecer calendário de plantio para cada região produtora;
  • Observar as épocas de vazio sanitário para as culturas do feijoeiro e tomate que foram instituídas pelos estados;
  • Implementar a tecnologia de Manejo Integrado de Pragas (MIP) nos diversos cultivos, como feijoeiro, soja, algodão, tomate, milho e outras culturas do sistema produtivo, para preservar o potencial de controle biológico existente, propiciando a atuação de inimigos naturais, de maneira que aumente a biodiversidade nos agroecossistemas e se restabeleça o equilíbrio das populações de pragas e seus inimigos naturais.

A Embrapa, com o apoio de várias instituições (secretarias de Agricultura, universidades, órgãos de extensão rural, cooperativas, sindicatos rurais etc) tem concentrado esforços para que as várias ações de manejo da mosca-branca e dos vírus que estão sendo planejadas possam estar disponíveis para o setor produtivo. Ações para a formação de multiplicadores estão sendo intensificadas com vistas a estimular maior adoção do manejo integrado de pragas (identificação de pragas e inimigos naturais, manejo da resistência de insetos a inseticidas, tecnologia de aplicação de produtos, rotação de culturas, controle biológico etc) no sistema de produção agrícola. A meta é implementar estes métodos através de ações conjuntas com a comunidade, incluindo atividades educacionais e de extensão.

Figura 1 - Bemisia tabaci em folhas de milho. A) Adultos e ovos. B) Ninfas em todos os estágios de desenvolvimento e pupários vazios.
Figura 1 - Bemisia tabaci em folhas de milho. A) Adultos e ovos. B) Ninfas em todos os estágios de desenvolvimento e pupários vazios.
Adultos e ovos de mosca-branca. Foto: Eliane Quintela
Adultos e ovos de mosca-branca. Foto: Eliane Quintela
Danos de mosca-branca em tomate. Desenvolvimento do fungo fumagina na substancia açucarada  excretada pelas ninfas de mosca-branca. Fotos: Eliane Quintela
Danos de mosca-branca em tomate. Desenvolvimento do fungo fumagina na substancia açucarada excretada pelas ninfas de mosca-branca. Fotos: Eliane Quintela
Plantas de feijão infectadas com o vírus do mosaico dourado do feijoeiro, transmitido pela mosca-branca.  Fotos Eliane D. Quintela
Plantas de feijão infectadas com o vírus do mosaico dourado do feijoeiro, transmitido pela mosca-branca. Fotos Eliane D. Quintela


Eliane D. Quintela, Embrapa Arroz e Feijão


Artigo publicado na edição 195 da Cultivar Grandes Culturas. 


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