Manejo integrado e monitoramento no combate da lagarta Helicoverpa

Ocasionada por um processo cumulativo de práticas de cultivo inadequadas, a explosão populacional de Helicoverpa e os danos econômicos advindos desta praga em lavouras de soja apontam para a necessidade de se reestabelecer o equilíbrio dos sistemas de produção agrícola antes que a situação se agrave ainda mais. Dentro do manejo integrado o monitoramento eficiente de insetos tem papel importante para prevenir e minimizar prejuízos.

A partir da safra 2012/13 principalmente nas culturas de soja, algodão e milho na região do Cerrado a ocorrência de lagartas do gênero Helicoverpa foi observada em níveis populacionais nunca antes registrados, responsável por sérios prejuízos econômicos. O gênero Helicoverpa possui características biológicas, como polifagia, alta fecundidade, alta mobilidade das lagartas na planta e migração das mariposas que permite se alimentar de várias plantas hospedeiras, sobreviver em ambientes instáveis e adaptar-se a mudanças sazonais do clima. O ciclo de vida de Helicoverpa spp. possui duração de 42 a 58 dias. Destes, 14 a 21 dias a espécie permanece na fase de lagarta, que compreende o período de ataque às plantas hospedeiras (Figura 1).

Na cultura da soja, Helicoverpa ataca desde os estágios iniciais até a fase de maturação das vagens. Em condições de campo é praticamente impossível identificar e separar Helicoverpa armigera de Helicoverpa zea ou até mesmo de Heliothis virescens, que também são insetos-pragas que ocorrem nesta cultura. Apenas a identificação em laboratório pode comprovar essas diferenças.

A ocorrência e o aumento populacional de Helicoverpa spp. nas áreas de produção podem ser atribuídos além das características biológicas que favorecem a presença e sobrevivência da praga, aos fatores de desequilíbrio climático nas áreas de cultivo; a sucessão de culturas que favorecem a praga; a retirada do inseticida endossulfan do mercado (possivelmente, favoreceu o descontrole da praga na cultura do algodoeiro); a redução da eficiência de inseticidas para lagartas de tamanhos médio e grande (que inviabilizou a boa proteção de plantas); e também, em alguns casos, a ausência de uma assistência agronômica de qualidade no início das infestações de Helicoverpa spp.

O crescimento populacional de lagartas do gênero Helicoverpa e consequentemente os prejuízos causados pelo inseto aos sistemas de produção foram ocasionados por um processo cumulativo de práticas de cultivo inadequadas, tornando o agroecossistema suscetível às doenças e aos insetos-praga devido à farta oferta de alimentos, sítios de reprodução e abrigo durante quase todo o ano, além da eliminação de seus agentes naturais de mortalidade.

Considerando as perdas econômicas significativas causadas por Helicoverpa na cultura da soja na região do Cerrado faz-se necessário restabelecer o equilíbrio dos sistemas de produção agrícola, antes que outros insetos, além do gênero Helicoverpa, oportunamente se adaptem, aumentando os prejuízos nas safras agrícolas que se seguem. Além de medidas emergenciais a serem adotadas para restabelecimento desse equilíbrio é fundamental a adoção de ações sobre o planejamento das áreas de cultivo sendo baseadas nos conceitos e práticas do Manejo Integrado de Pragas (MIP).

O monitoramento é de extrema importância para o êxito do manejo integrado de pragas na soja. É através dele que se obterão os conhecimentos necessários para proceder, ou não, com as táticas de controle. Como benefício, o produtor ao escolher ser adepto do MIP, realizando um correto monitoramento, não terá necessidade de fazer aplicações preventivas de inseticidas. Deste modo, os custos serão reduzidos e as populações de insetos benéficos que ajudam no controle de Helicoverpa não serão prejudicadas.

Figura 1. Ovo (A), lagartas (B), pupas (C), adultos: fêmea (D) e macho (F) de Helicoverpa armigera.
Figura 1. Ovo (A), lagartas (B), pupas (C), adultos: fêmea (D) e macho (F) de Helicoverpa armigera.

Procedimentos do monitoramento

Pré-semeadura

O monitoramento deve começar antes mesmo da semeadura. Caso haja histórico de ocorrência de Helicoverpa na área destinada, deve-se evitar executar o plantio direto. Ao escolher pelo plantio convencional em áreas com relatos de ataques das lagartas, proceder com a dessecação de plantas daninhas antes do cultivo. Não é recomendada a aplicação conjunta de inseticidas nesta etapa, pois reduz drasticamente as populações de inimigos naturais. Se forem observadas plantas daninhas resistentes na área, como a buva (Conyza bonariensis), que pode ser hospedeira de Helicoverpa, proceder a aplicação somente com inseticidas seletivos que não prejudique a ação futura dos inimigos naturais, como as diamidas, spinosinas e inseticidas reguladores de crescimento. O uso de tratamento de sementes com inseticidas é uma excelente opção que protege o cultivo por aproximadamente 25 a 35 dias após a emergência.

Semeadura

O uso de variedades transgênicas (Intacta RR2 PRO TM: BRS 245RR, BRS 334RR, BRS 359 RR) vem sendo muito utilizado por produtores, porém, para o sucesso da tecnologia em campo é necessário observar a realização do refúgio, que consiste em 20% da área cultivada com ausência de plantas transgênicas para reduzir o risco de populações resistentes da praga. Vale ressaltar que o refúgio não pode ultrapassar 800 metros da lavoura com plantas transgênicas.

Após a semeadura

Para realizar a amostragem após a emergência da soja, a área deve ser dividida em talhões homogêneos, que correspondam a mesma época de semeadura, variedade, condições edáficas e etc. Esta área não deve ultrapassar 400 ha, sendo preferencialmente de 100 ha quando possível.

Fase vegetativa     

A amostragem na fase vegetativa deve ocorrer semanalmente e avaliar um ponto a cada 10 ha durante todo o estádio vegetativo. Nessa etapa, será indispensável observar a porcentagem de desfolha e quantidade de lagartas/ponto de amostragem. É de extrema importância direcionar a observação para os ponteiros, pois é onde ocorre preferencialmente a oviposição de Helicoverpa.

Fase reprodutiva

Na fase reprodutiva, a amostragem deve ocorrer no mínimo duas vezes por semana e um ponto a cada 10 ha. Neste estádio, os brotos florais devem ser devidamente observados, pois são alvos de oviposições e ataques das lagartas. Na fase de enchimento de vagens também é essencial manter o monitoramento.

Técnicas amostrais para o monitoramento

Pano-de-batida

O pano de batida possui 1mx1m com auxílio de madeira nas extremidades (Figura 2A). Sua coloração é neutra, geralmente branca para facilitar a identificação das pragas. Para proceder-se com a técnica devem-se seguir os passos descritos no Quadro 1.

Quadro 1 - Como utilizar o pano de batida

  • No ponto amostral posicionar o pano-de-batida entre as fileiras de soja;
  • Analisar se há lagartas nos ponteiros ou botões florais nas plantas que estão na área de 1 metro do pano. Caso exista, colocá-las sobre o pano de batida;
  •  Proceder com batidas vigorosas sobre o dossel das plantas que estão na área de 1 metro em direção ao pano, induzindo a queda dos insetos sobre o pano;
  • Contabilizar e anotar o número e tamanho das lagartas. Posteriormente calcular a média dos pontos amostrais dentro do talhão para obter a tomada de decisão.

Bandeja plástica

Muito semelhante a técnica do pano-de-batida, a bandeja é um aparato muito prático e simples (Figura 2B). A bandeja plástica branca possui geralmente 50x30 cm e para executar a técnica basta seguir os passos descritos no quadro 2.

Quadro 2 - Como usar a bandeja plástica

  • Dentro do ponto amostral de 1 metro escolher cinco plantas para proceder a batida de bandeja;
  • Na planta selecionada, colocar a bandeja próxima à base da planta e bater moderadamente sobre ela três vezes, induzindo a caída dos insetos na bandeja.
  • Contabilizar o número e tamanho das lagartas nas cinco batidas de bandeja e tirar a média, resultando em um ponto. Após ter o resultado de todos os pontos, tirar a média amostral do talhão.

Armadilha de feromônio

Nas armadilhas de feromônio são capturadas apenas mariposas macho. A intensidade de captura de adultos de Helicoverpa em uma determinada área fornece previsão do potencial de ocorrência de ovos e de lagartas. Entre as armadilhas, a mais comum é a tipo Delta, que possui piso adesivo e uma cápsula de feromônio (Figura 2C). O macho, ao ser atraído, entra na armadilha e fica aprisionado no piso adesivo. Para o monitoramento, deve-se instalar, no mínimo, uma armadilha com feromônio/ha.

Armadilha luminosa

A armadilha luminosa atrai adultos fêmeas e machos, sendo muito eficiente no levantamento quantitativo pelo hábito migratório noturno de Helicoverpa. O funcionamento da armadilha é muito simples. O equipamento possui luz ultravioleta para atrair os insetos, utilizando bateria como fonte de energia. Abaixo da luz há funis que direcionam os insetos para recipiente com água e óleo para impedir a locomoção das mariposas (Figura 2D). A armadilha deve ser montada após as 18 horas e no dia seguinte é possível contabilizar as mariposas presas no recipiente. É recomentado uma armadilha luminosa/ha. 

Tabela 1. Nível de controle de diferentes técnicas amostral para o monitoramento de Helicoverpa.
Tabela 1. Nível de controle de diferentes técnicas amostral para o monitoramento de Helicoverpa.
Figura 2. Pano-de-batida (A), bandeja plástica (B), armadilha de feromônio delta (C) e armadilha luminosa (D).
Figura 2. Pano-de-batida (A), bandeja plástica (B), armadilha de feromônio delta (C) e armadilha luminosa (D).


Flávio Lemes Fernandes, Entomologista, Prof. UFV-CRP; Nayara Cecília Rodrigues Costa, Enga Agrônoma, Mestranda UFV-CRP; Jéssica Emiliane Rodrigues Gorri, Enga Agrônoma; Maria Elisa de Sena Fernandes, Melhorista, prof. UFV-CRP


Artigo publicado na edição 201 da Cultivar Grandes Culturas.

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