Manejo integrado e uso de carboxamidas contra ferrugem asiática

Produtores de soja do Centro-Oeste e do Sul do Brasil enfrentam a cada safra os desafios impostos pela ferrugem asiática, doença altamente agressiva e com potencial para provocar severos prejuízos à produtividade. Associado a outras medidas integradas o uso de carboxamidas em misturas com IQo e alternado com IDM e IQo está entre as alternativas para realizar o manejo e prevenir o aparecimento de resistência a esse grupo de fungicidas. 

A soja (Glycine max) é a principal cultura de exploração econômica do Brasil e a região do cerrado seu principal produtor. Com a abertura de novas fronteiras e o deslocamento de produtores rurais gaúchos para a região Norte do Brasil, por volta da década de 70, dá-se o início à expansão da oleaginosa no Centro-Oeste, principalmente, nas regiões de cerrado.

Com o avanço e o domínio de novas tecnologias, na década de 90 se dá a explosão de novas cultivares e de conhecimentos científicos e técnicos, permitindo assim que o cerrado se torne o principal produtor de soja do Brasil. No entanto, com a chegada da monocultura a soja traz consigo os patógenos que vivem e sobrevivem nesta cultura. Foram inúmeros desafios como fusarium, o nematoide do cisto, chegando à ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi), que se estabelece causando dano econômico, criando dificuldade financeira a inúmeros produtores.

Por ser uma doença em que a principal disseminação ocorre pelo vento, é fundamental que toda a comunidade técnica e científica fique atenta para proceder a diagnose inicial e oferecer esta informação no site do Consórcio Antiferrugem (CAF), seguindo as ferramentas disponíveis para acompanhar o progresso desta enfermidade, como o site Windfider que mostra a movimentação e o deslocamento dos ventos e com isto o sentido de movimentação dos esporos da ferrugem a outras regiões; do Portal Elat e Rindat que oferta informações sobre a ocorrência de chuvas, e o Inmet acompanhando as condições meteorológicas (temperatura, umidade, horas de molhamento e precipitação pluviométrica), e estações meteorológicas. Importante ainda ficar atento aos fenômenos El Niño e La Niña, uma vez que interferem diretamente no clima e podem provocar seca ou chuvas mais intensas no inverno (em invernos mais chuvosos a ferrugem pode aparecer mais cedo).

Outras práticas para o manejo desta doença na região do cerrado podem ser a efetiva e incondicional adoção do vazio sanitário (não permitindo a sobrevida de soja tiguera nas lavouras e beiras de estradas), o não plantio de soja após 31 de dezembro (não criar “ponte verde”), o uso de cultivares precoces (em regiões que efetivamente tenham conhecimento para isto), a concentração de plantio de soja no período ideal para cada região, o plantio de cultivares resistentes à ferrugem, o uso de produtos e seus adjuvantes em doses eficazes ao efetivo controle desta doença, o monitoramento das lavouras para efetivação de aplicações preventivas, o monitoramento das pulverizações, certificando-se que o produto aplicado esteja de fato atingindo o alvo desejado (parte interior das plantas de soja), a associação de programas de controle com produtos que garantam o controle da ferrugem e de outras doenças.

Enfim, é fundamental a adoção de todas as práticas que levam ao manejo e controle da ferrugem asiática, pois esta é a principal doença que pode comprometer o resultado econômico de uma lavoura. Ao mesmo tempo, o registro de novos produtos ou moléculas deve ser encarado como prioritário.

Assim, controlar a ferrugem da soja, incentivar as boas práticas de manejo para o controle da doença, coibir as ações que levam ao comprometimento da ação dos produtos e a sobrevida destes são ações de segurança nacional. A adoção destas medidas permite que resultados efetivos sejam alcançados.

Observação: os números representam a quantidade de diagnose positiva encontrada durante a semana nas lavouras de soja na região. Safra 2009/10, foi ano de El Niño, o que configurou ano de maior intensidade.
Observação: os números representam a quantidade de diagnose positiva encontrada durante a semana nas lavouras de soja na região. Safra 2009/10, foi ano de El Niño, o que configurou ano de maior intensidade.
Observação: os números representam a porcentagem de área foliar lesionada (severidade na planta) em cada momento de avaliação e em cada estádio. Safra 2009/10 ano de El Niño, ano de maior agressividade da ferrugem.
Observação: os números representam a porcentagem de área foliar lesionada (severidade na planta) em cada momento de avaliação e em cada estádio. Safra 2009/10 ano de El Niño, ano de maior agressividade da ferrugem.

Situação atual e manejo no Sul do Brasil

Na região Sul do Brasil somente o estado do Paraná adota o vazio sanitário, de 15 de junho a 15 de setembro, como estratégia para redução de inóculo do fungo P. pachyrhizi. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, as geadas eliminam as plantas de soja no inverno. No entanto, em anos com invernos não tão rigorosos, como ocorreu em 2014, pode-se observar a sobrevivência no campo de plantas voluntárias de soja com ferrugem, que servem de inóculo para a safra seguinte.

Os primeiros relatos de ferrugem em lavoura comercial na região Sul, de forma geral, começam na região oeste do Paraná, que abre o plantio logo após o término do vazio sanitário, sendo observados a partir de dezembro. A maior ou menor severidade da ferrugem na região Sul está relacionada à distribuição das chuvas (quanto melhor  essa distribuição na safra, mais rápido o avanço da doença). Quando ocorrem períodos de veranicos a doença evolui de forma lenta. Safras onde o clima favorece o desenvolvimento da soja são onde o controle da ferrugem deve ser intensificado.

As semeaduras que ocorrem logo após o término do vazio sanitário tendem a ter menor incidência de ferrugem e menor número de aplicações para o seu controle. A doença aparece após o fechamento da lavoura, devido ao acúmulo de umidade formado na parte de baixo do dossel, condição necessária para a infecção. À medida que a semeadura é atrasada, o número de aplicações aumenta e seu intervalo é reduzido. Em soja semeada em janeiro, devido à alta quantidade de inóculo do fungo produzido nas primeiras semeaduras e disseminado pelo vento, a doença incide antes do fechamento da lavoura. Essa situação de incidência antes do fechamento só ocorre nas semeaduras tardias. Essas lavouras recebem, em média, cinco aplicações de fungicidas.

A oferta de cultivares com gene de resistência à ferrugem para a região Sul tem aumentado. Esses materiais não dispensam a aplicação de fungicidas, mas garantem uma maior estabilidade de produção em situações onde ocorrem atrasos na aplicação. As lesões de ferrugem nessas cultivares são maiores (marrom-avermelhadas), porém, apresentam menor esporulação, atrasando o desenvolvimento da doença.

Assim como nas outras regiões do País, observa-se na região Sul uma menor sensibilidade do fungo P. pachyrhizi aos fungicidas do grupo dos inibidores da desmetilação (IDM, “triazóis”) e Inibidores da quinona oxidase (IQo, “estrobilurinas), comprometendo a eficiência das misturas de IDM e IQo. Os períodos de veranicos, associados a altas temperaturas, podem favorecer o aparecimento de sintomas de fitotoxicidade, do tipo clorose internerval (folha carijó) para os IDMs como tebuconazol, metconazol e protioconazol. As misturas que têm esses ativos, apesar de alta eficiência de controle para a ferrugem, muitas vezes são rejeitadas por produtores que já tiveram problemas com fitotoxicidade nas suas lavouras.

As perdas com ferrugem na região Sul do Brasil têm sido localizadas e muitas vezes associadas ao desconhecimento da perda de eficiência de alguns fungicidas tradicionais. Com a baixa eficiência curativa dos fungicidas disponíveis, é importante que o produtor faça o planejamento adequado da sequência de aplicação para evitar o aumento de inóculo na lavoura. A partir de 2013 foram registrados fungicidas inibidores da succinato desidrogenase (ISDH, “carboxamidas”) em misturas com IQo. Esses fungicidas devem ser utilizados no manejo da ferrugem e alternados com misturas de IDM e IQo para atrasar o aparecimento de resistência a esse grupo, sendo limitados a duas aplicações por cultivo.

Sintomas da ferrugem em folhas de soja
Sintomas da ferrugem em folhas de soja.
Lavouras desfolhadas devido à ferrugem
Lavouras desfolhadas devido à ferrugem.
Lavouras desfolhadas devido à ferrugem
Lavouras desfolhadas devido à ferrugem.


Edson Pereira Borges, Fundação Chapadão; Cláudia Godoy, Embrapa Soja


Artigo publicado na edição 194 da Cultivar Grandes Culturas. 

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