Medidas de controle da ferrugem asiática em soja

Das duras lições deixadas pela ferrugem asiática ao longo de 15 anos no Brasil, o respeito ao vazio sanitário e a eliminação de plantas tigueras que sobram nas lavouras, bem como as que nascem em áreas urbanas e nas margens de rodovias, são medidas indispensáveis para permitir a convivência com esta doença agressiva e aumentar a vida útil das tecnologias disponíveis para o controle.

É indiscutível a importância econômica da sojicultora para o país, oleaginosa que simplesmente transformou a produção agrícola brasileira, trouxe emprego e renda para milhões de pessoas, além de alimentar outros bilhões ao redor do mundo. A introdução da ferrugem asiática no Brasil trouxe grande preocupação logo no início, o que se transformou em graves prejuízos para os sojicultores em geral. Em Mato Grosso, maior produtor nacional, a situação tornou-se mais visível, um quase estado de calamidade se instalou logo nos primeiros anos de sua detecção.  As condições ideais de clima, favorecido pelas extensas áreas irrigadas de entressafra, agravou o que já era crítico, especialmente na região sudeste do estado, no município de Primavera do Leste, cidade que ficou conhecida como capital mundial da ferrugem.

Folha de soja infectada pela ferrugem-asiática encontrada em plantas guaxas remanescentes em área de cultivo.
Folha de soja infectada pela ferrugem-asiática encontrada em plantas guaxas remanescentes em área de cultivo.

Já na safra de 2002/2003 a doença começou a causar sérios prejuízos em Mato Grosso, mas foram nas seguintes, sobretudo na de 2004/2005, que se percebeu a extensão da crise. A enfermidade começou a ser detectada ainda mais cedo, na fase vegetativa. A ferrugem estava fora de controle. Produtores vendendo suas terras, milhares de desempregados rodando sem rumo pelas cidades, aumento da violência urbana, um verdadeiro caos social era o que se vivia. A soja cultivada sob pivôs centrais era a grande multiplicadora dos esporos durante a entressafra e dali se expandia para as lavouras de Verão. Áreas recém semeadas ao lado de cultivos mais velhos seriam logo infectadas pela ferrugem, de forma que a situação ficou caótica.

No início de 2005, houve a visita do saudoso José Tadashi Yorinori, homem com profundos conhecimentos da doença e que deu um norte, mostrou onde estava o problema e ensinou como lidar com a situação. Em um guardanapo, após reunião com produtores e irrigantes da região, em um restaurante de Primavera do Leste, traçou a idéia do vazio sanitário da soja. Fui testemunha disso. Naquele momento não era mais possível editar uma normativa, os produtores já tinham se programado para o plantio. No dia 18 de março de 2005 na 17ª reunião da Comissão de Defesa Sanitária Vegetal - CDSV/MT, foi sugerida a divulgação de uma Recomendação para que os produtores não cultivassem soja sob pivô central naquela entressafra de 2005. Foi onde a Superintendência Federal de Agricultura em Mato Grosso (SFA/MT) e o Instituto de Defesa Agropecuária (INDEA/MT), ouvida a Comissão de Defesa Sanitária Vegetal de Mato Grosso (CDSV/MT), com a participação da Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (APROSOJA), editou, na mesma data, em 18 de março de 2005, a Recomendação Técnica Conjunta  Nº. 01/05, propondo um calendário de entressafra de soja para todo o Estado de Mato Grosso. Naquele primeiro ano já houve muitas críticas, dentre elas de que com a restrição do plantio de soja sob pivôs centrais se privilegiaria os produtores de sementes da Serra da Petrovina... Por não ter força de lei, a recomendação não surtiu efeito mesmo tendo o apoio da Aprosoja. No dia 02/06/2055 a CDSV/MT reuniu-se em Primavera do Leste para tratar do assunto ferrugem asiática e pivôs centrais, “para justamente oportunizar aos irrigantes e engenheiros agrônomos da região, a ampliação das discussões sobre o tema”, conforme consta da ata. Ainda no mesmo ano, no dia 30/11/2005 a CDSV-MT aprovou por unanimidade a criação do vazio sanitário da soja por um período de 90 dias, de forma que em 16/12/2005 foi publicada a Instrução Normativa nº 04/2005. Ali instituía-se o Vazio Sanitário da Soja, o primeiro no país, que entrou em vigor na entressafra de 2006.

De imediato foram perceptíveis os ganhos em produtividade, a redução nos custos, a ferrugem começou a chegar mais tarde nas lavouras, economizavam-se nas aplicações. Isto convenceu os sojicultores, a prática mostrou-se eficiente. De lá para cá tem sido constantes os avanços, as melhorias, a aceitação, o comprometimento da esmagadora maioria dos produtores na plena implementação do vazio sanitário. Atualmente há estabelecido também um calendário de plantio, de 16/09 a 31/12 e a soja deve ser toda colhida até o dia 05 de maio de cada ano.

No entanto, ainda há alguns pontos passíveis de melhoria. As guaxas continuam sendo as grandes vilãs. Alguns produtores ainda são notificados a cada ano e, após a visita da fiscalização,  acabam cumprindo seu papel. Mas outros ainda acreditam que, mesmo estando com ferrugem as plantas guaxas de sua propriedade vão morrer com a seca e que seria desnecessário o controle químico ou mecânico. Talvez pensem que uma planta de soja seca, morta, não mais transmita a doença. É verdade que a ferrugem, um patógeno obrigatório, precisa do tecido vivo para continuar se multiplicando, mas o esporo produzido quando a planta ainda estava verde sobrevive sim, mesmo com as folhas secas. Experimentos conduzidos nos laboratórios da Universidade Federal de Mato Grosso mostraram que a ferrugem manteve-se viável, infectiva, até 42 dias depois de as folhas colhidas e mantidas secas em sacos de papel. Isto mostra a importância de as guaxas serem destruídas antes do início do vazio sanitário. Ainda é possível avançar neste sentido, não se pode correr qualquer risco, sobretudo se ocorrer período de chuva no meio do ano.

Prolongar a permanência dos esporos da ferrugem no ambiente aumenta muito a fonte de inóculo para a safra seguinte.
Prolongar a permanência dos esporos da ferrugem no ambiente aumenta muito a fonte de inóculo para a safra seguinte.

Outro ponto crítico que tem favorecido a sobrevivência da ferrugem são as plantas que nascem nas cidades e margens de rodovias, onde se perdem milhares de toneladas de soja a cada ano. Nestes lugares as plantas voluntárias de soja permanecem vivas, verdes, muitas vegetando e hospedando, multiplicando o fungo da ferrugem durante toda entressafra. Há dez anos alerta-se sobre as regiões onde a ferrugem está presente, seu nível de atividade que é a capacidade de causar a doença (infectividade). Estes alertas são propagados inicialmente em redes sociais (Facebook: Wanderlei Dias Guerra) e, posteriormente pela imprensa e Aprosoja. Nos últimos anos os alertas mais importantes são para as plantas que sobrevivem, muitas parecem ser cultivadas, nas cidades do estado. Alguns municípios tem aceitado o desafio, colocado seu pessoal para arrancar os pés de soja. Outros gestores de cidades importantes parecem não se preocupar. Teriam esquecido do passado recente? Assim foi detectado o primeiro caso de ferrugem em Mato Grosso, no dia 16/09, em área urbana de Primavera do Leste.

Outros alertas são feitos quando da chegada da ferrugem nas lavouras comerciais, tudo comunicado no site do Consórcio Antiferrugem da Embrapa.  O próximo Alerta ocorre no momento da colheita das primeiras áreas, as de soja precoce. Estas áreas, normalmente colhidas ainda em dezembro e janeiro, apesar da obrigatoriedade de se fazer pelos menos duas pulverizações contra ferrugem, sendo uma no R5.3, são motivos de preocupação, pois os esporos da ferrugem podem se espalhar pela ação das colhedoras e infectar áreas vizinhas, que foram semeadas mais tarde.

Atualmente trabalha-se na harmonização dos períodos de vazio sanitário entre os estados, algo fundamental na medida do possível, observando sempre as condições climáticas de cada região. Em recente reunião com as unidades da federação produtoras de soja promovida pelo Departamento de Sanidade Vegetal do Mapa, todos concordaram com esta necessidade. Também preocupa o fato de alguns estados ainda permitirem o plantio de soja na entressafra, como Rondônia, por exemplo. Já está comprovado o desastre desta prática. Mato Grosso sentiu isto da pior maneira possível. Além de prolongar por mais meses a permanência dos esporos da ferrugem no ambiente, aumenta muito a fontes de inoculo para a safra seguinte, incluindo os estados vizinhos. Também acelera a perda de eficiência dos fungicidas, já poucos com boa efetividade, conforme tem demonstrados os resultados dos ensaios de rede coordenados pela Embrapa Soja. São os esporos não controlados pelas inúmeras aplicações extras, necessárias nos plantios de entressafra, os que sobrevivem. Permanecem nas guaxas o fungo menos sensível aos fungicidas, os mais resistentes, aquele que a cada ano será de mais difícil controle, aumentando os custos de produção e reduzindo as produtividades da safra principal. Um tiro no coração da atividade!

Mapa da dispersão da ferrugem.
Mapa da dispersão da ferrugem.


Wanderlei Dias Guerra


Artigo publicado na edição 209 da Cultivar Grandes Culturas.

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