Medidas de controle do bicudo-do-algodoeiro em todas as fases do plantio

Desde a emissão dos primeiros botões florais os cuidados com o manejo do bicudo-do-algodoeiro devem ser intensificados. Contudo, medidas de controle não podem ser negligenciadas em outras fases como o final da safra e a pós-colheita, sob pena do inseto se manter e migrar para lavouras subsequentes.

O bicudo-do-algodoeiro, Anthonomus grandis Boheman, 1843 (Coleoptera: Curculionidae), é a principal praga da cultura do algodoeiro no Brasil, responsável por elevadas perdas de produtividade. Os prejuízos são oriundos da sua agressividade ao atacar as estruturas reprodutivas do algodoeiro, especialmente os botões florais e as maçãs, alvos da alimentação e reprodução da praga. O desenvolvimento das fases de ovo, larva e pupa no interior das estruturas reprodutivas, aliado ao comportamento dos adultos, que se alojam entre as brácteas, ficando protegido das aplicações, dificulta o controle deste inseto.

O bicudo-do-algodoeiro coloniza preferencialmente as lavouras de algodão, assim que a cultura emite os primeiros botões florais, estruturas preferidas para alimentação e oviposição. Nesta fase, iniciam-se os principais cuidados relacionados ao manejo da praga, especialmente o monitoramento e às aplicações de inseticidas, que quase sempre são sequenciais. Estas aplicações variam de três a cinco, devido à emergência dos adultos ocorrer constantemente, ao nível de infestação e ao controle de indivíduos que escapam das últimas pulverizações.

A partir da emissão dos primeiros botões florais até a abertura do primeiro capulho, maior atenção é direcionada ao controle do bicudo-do-algodoeiro na lavoura. Esta ação tem por objetivo garantir o maior número de estruturas reprodutivas e, consequentemente, uma boa produtividade. Entretanto, medidas de controle devem ser adotadas também no final de safra, com o intuito de reduzir a população da praga nesta fase. De fato, o bicudo alimenta-se e se reproduz no fim de safra, utilizando botões florais do ponteiro da planta e, também, as maçãs macias (<10 dias). Infestações tardias podem ainda causar perdas de produtividade, garantindo ainda uma elevada população para passar o período de entressafra nos refúgios e migrar para o cultivo de algodão subsequente. Por isso, é correto afirmar que os altos níveis populacionais da praga na lavoura atual são influenciados pelo manejo da praga na safra anterior, pois o bicudo-do-algodoeiro que está colonizando a área é aquele residual da safra passada.

Assim, espera-se que, ao realizar um bom manejo da praga na safra anterior – especialmente no final do ciclo do algodoeiro – e uma destruição bem feita de soqueira e plantas tigueras, a população que irá colonizar a lavoura subsequente seja reduzida.

Com o intuito de auxiliar os produtores a reduzirem a população e consequentemente estabelecerem uma boa convivência com o bicudo-do-algodoeiro, são recomendadas medidas de manejo que devem ser consideradas na fase final de desenvolvimento das lavouras de algodão:

  •  Ações conjuntas entre produtores, para alinhar aplicações de inseticidas entre propriedades vizinhas (datas, horários e produtos), concentração nas atividades de manejo e trocas de informações, para a padronização das ações de manejo.
  •  Aplicações de inseticida em final de ciclo, a fim de manter as aplicações para o bicudo-do-algodoeiro mesmo após a abertura dos primeiros capulhos, dividir as aplicações, deixando a última coincidindo com a desfolha, para a redução populacional no final de safra.
  •  Priorização das técnicas recomendadas pela Tecnologia de Aplicação, realizando aplicações dos inseticidas com equipamentos ideais e regulados, sejam bicos hidráulicos ou rotativos, pulverizações com condições ambientais adequadas (por exemplo vento, inversão térmica, umidade relativa, temperatura) e atenção às misturas de adjuvantes, espalhantes, óleo etc.
  • Instalação de Tubos Mata Bicudo (TMB), inicialmente na pré-colheita, mantendo-a até 30 dias antes do próximo plantio do algodão. Recomenda-se instalar em todo perímetro externo do plantio do algodão ou no mínimo nas áreas consideradas portas de entrada e saída (refúgios).
  • Carregamento e transporte adequado de fardos, rolos e/ou caroço de algodão, a fim de evitar a propagação de plantas em beira de rodovias, estradas vicinais, algodoeira etc. Plantas que nascem e se desenvolvem nestes locais abrigam inúmeras pragas (especialmente, o bicudo-do-algodoeiro) e, como não existe manejo nestas plantas, as pragas se mantém e multiplicam, migrando para as lavouras comerciais posteriormente.
  •  Destruição eficiente de soqueira e bom manejo de plantas tigueras, nos dias atuais os principais fatores que têm contribuído para o aumento populacional do bicudo-do-algodoeiro são a rebrota de plantas soqueira e a presença de plantas tigueras nos talhões/áreas de plantio. Anteriormente, a praga migrava para as áreas de refúgio e reduzia seu metabolismo, entrando em dormência reprodutiva e se alimentando esporadicamente de pólen e frutos de plantas do Cerrado. Entretanto, com a dificuldade atual de manejo de plantas remanescentes de algodão, seja soqueira ou tiguera (por exemplo plantas transgênicas resistentes ao herbicida glifosato), o bicudo-do-algodoeiro está se mantendo e se reproduzindo no interior dos talhões/áreas, sendo um ambiente favorável não só para o inseto passar o período da entressafra, mas também para se multiplicar, conseguindo atingir elevadas populações para o cultivo de algodão subsequente.
  • Colheita rápida e bem feita, pois quanto mais concentrada for esta operação, maior será o período para destruição dos restos culturais nas propriedades.
  • Cumprimento de vazio sanitário, previsto por lei, aonde não é permitido o cultivo e/ou presença de plantas nas áreas.
  • Monitoramento na entressafra. É altamente recomendável monitorar as áreas de algodão, através do armadilhamento, utilizando armadilhas iscadas com feromônio sexual do bicudo (grandlure), iniciando 30 dias antes do plantio e mantendo-o até o início do surgimento dos primeiros botões florais. Além disso, recomenda-se a instalação de Tubos Mata Bicudo em todo perímetro externo do plantio do algodão, e quando não for possível, utilizar pelo menos nas áreas consideradas portas de entrada e saída (refúgios). Vale ressaltar que o histórico de captura de bicudo/armadilha/semana (número BAS) determina a definição das zonas de infestação, auxiliando nas aplicações a partir do surgimento do primeiro botão floral (B1). A classificação das zonas de infestação segue os seguintes parâmetros:
  • Destruição de plantas de algodão às margens de rodovias e estradas vicinais, bem como no entorno de algodoeiras, para eliminar qualquer tipo de planta hospedeira.

Zona verde – 0 BAS, sem necessidade de aplicação;

Zona azul – 0 a 1 BAS, fazer uma aplicação;

Zona amarela – 1 a 2 BAS, fazer duas aplicações sequenciais, com intervalo de cinco dias;

Zona vermelha – acima de 2 BAS, fazer três aplicações sequenciais, com intervalo de cinco dias.

É preciso chamar a atenção nesta etapa final do cultivo, fase em que os prejuízos causados pelo bicudo-do-algodoeiro são considerados mínimos, pois acredita-se que a produção já está garantida e que a população da praga nesta etapa não causará problemas e/ou perdas consideráveis. Devido a essa mentalidade equivocada, em geral, a cadeia produtiva negligencia o manejo da praga no fim da safra e não se atenta para os riscos que esses indivíduos podem representar para a safra seguinte. Entretanto, sabendo-se da capacidade adaptativa da praga, principalmente através do sucesso em se manter na entressafra e migrar para lavouras subsequentes, as medidas de manejo de final de safra devem ser adotadas de forma rigorosa, por toda cadeia produtiva do algodão, sempre de forma conjunta e coordenada por região, com o objetivo de minimizar problemas futuros por meio da redução da pressão da praga no início da safra seguinte.

Figura - Adulto do bicudo-do-algodoeiro. (Foto: Arquivo IMAmt)
Figura 1 - Adulto do bicudo-do-algodoeiro. (Foto: Arquivo IMAmt)
Figura - Larvas do bicudo-do-algodoeiro no interior da maçã de algodão no final da safra. Observar o grande número de indivíduos capaz de se desenvolver em uma maçã. (Foto: Eduardo M. Barros)
Figura 2 - Larvas do bicudo-do-algodoeiro no interior da maçã de algodão no final da safra. Observar o grande número de indivíduos capaz de se desenvolver em uma maçã. (Foto: Eduardo M. Barros)
Figura - Maçã de algodoeiro, no final da safra, com elevado ataque de bicudo. (Foto: Edenilson Souza).
Figura 3 - Maçã de algodoeiro, no final da safra, com elevado ataque de bicudo. (Foto: Edenilson Souza).
Figura - Lavoura com intenso ataque do bicudo no final da safra. Baixa produtividade, devido às perdas de parte do terço médio e perda total de produção do terço superior. (Foto – Eduardo M Barros)
Figura 4 - Lavoura com intenso ataque do bicudo no final da safra. Baixa produtividade, devido às perdas de parte do terço médio e perda total de produção do terço superior. (Foto – Eduardo M Barros)
Figura - Lavoura de algodão após bom manejo do bicudo, apresentando boa carga no terço médio e ponteiro. (Foto: Aldair Kossmann)
Figura 5 - Lavoura de algodão após bom manejo do bicudo, apresentando boa carga no terço médio e ponteiro. (Foto: Aldair Kossmann)
Figura - Destruição de plantas de algodão em beira de rodovias. (Fotos: Aldair Kossmann)
Figura 6 - Destruição de plantas de algodão em beira de rodovias. (Fotos: Aldair Kossmann)
Figura - Tubo Mata Bicudo instalado no perímetro da lavoura (Foto esquerda – Eduardo M Barros. Foto direita – Aldair Kossmann)
Figura 7 - Tubo Mata Bicudo instalado no perímetro da lavoura (Foto esquerda – Eduardo M Barros. Foto direita – Aldair Kossmann)
Figura - Destruição mecânica da soqueira. (Foto: Aldair Kossmann)
Figura 8 - Destruição mecânica da soqueira. (Foto: Aldair Kossmann)
Figura - Armadilha iscada com feromônio Grandlure na bordadura do talhão de algodão. (Foto: Eduardo M. Barros)
Figura 9 - Armadilha iscada com feromônio Grandlure na bordadura do talhão de algodão. (Foto: Eduardo M. Barros)


Eduardo Moreira Barros, Jacob Crosariol Netto, IMAmt, Guilherme Gomes Rolim, Felipe Colares, UFRPE


Artigo publicado na edição 195 da Cultivar Grandes Culturas. 


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