Melão - Água que nutre

A concentração de CO2 atmosférico tem sido significativamente alterada; era 250 mmolCO2.mol-1 antes da revolução industrial, atingiu 350 mmol CO2.mol-1 em 1989, estando, hoje, próximo de 365 mmolCO2.mol-1. Continuando sua tendência de aumento, pode chegar a 530 mmol CO2.mol-1 em 2050. O aumento da concentração de dióxido de carbono pode provocar aumento de 4oC na temperatura global até o ano de 2100. Entretanto, modelos recentes mostram que o aumento de temperatura pode ser menor, em torno de 0,2oC por década, devido à ação de resfriamento provocada por aerosóis sulfatados.

Plantas cultivadas em ambientes com alta concentração de CO2 tiveram aumento da biomassa do sistema radicular. Com maior desenvolvimento do sistema radicular, aumenta o volume de solo para extração de água e nutrientes, reduzindo as limitações de nutrição das plantas. Entretanto, períodos prolongados de exposição de plantas à altas concentrações de dióxido de carbono podem causar fechamento de estômatos, maior produção de etileno e desenvolvimento de doenças.

O uso de CO2, sob a forma de gás ou misturado à água de irrigação melhora a qualidade das flores e frutos. O CO2 reage com os cátions da solução do solo produzindo bicarbonatos, os quais são absorvidos pelas plantas. Mesmo em solo com limitação nutricional pode ocorrer maior desenvolvimento do sistema radicular, o que permite maior absorção de nutrientes e intensifica a translocação de produtos fotossintetizados das folhas para as raízes.

Todavia, no Brasil, a aplicação de dióxido de carbono via água de irrigação é de uso recente. Existem, ainda, muitos aspectos a esclarecer em termos de efeitos sobre as plantas, influência na produtividade e na melhoria da qualidade de frutos, doses a serem usadas e períodos de aplicação mais adequados para os diferentes tipos de cultivos, para alcançar uma relação benefício-custo máxima.

Assim, realizamos um trabalho para avaliar a produtividade e as características químicas (pH, acidez total e teor de sólidos solúveis) dos frutos de melão com aplicação de dióxido de carbono via água de irrigação.

Material e métodos

O estudo foi realizado com a cultura do melão, cultivar, "Valenciano Amarelo", na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" em Piracicaba (SP), para avaliar os efeitos da aplicação de CO2 via água de irrigação na produtividade e qualidade dos frutos em ambiente protegido (casa de vegetação, sem controle das condições de ambiente).

Utilizou-se duas casas-de-vegetação. Numa, aplicou-se CO2 através da água de irrigação. Adotou-se o método de irrigação localizada. As irrigações foram feitas diariamente, com início às 11:00 horas, e calculadas com base no coeficiente de cultivo (Kc) e na evaporação do tanque classe A.

A aplicação de dióxido de carbono foi iniciada no dia seguinte ao transplantio, estendendo-se até a primeira colheita, 81 dias após o transplantio. O tempo de cada aplicação foi de 30 minutos e a dose aplicada durante o ciclo da cultura foi de 50 kg.ha-1. A aplicação de CO2 iniciava às 11 horas. Em cada fileira de plantas úteis selecionou-se uma planta para as medições da taxa de assimilação de CO2, medida às 10, 11, 12, e às 14 horas, no início da frutificação.

Avaliou-se a produtividade total, produtividade comercial e produtividade não comercial, massa média de frutos, número total de frutos, número de frutos comerciais, características químicas dos frutos na colheita e fotossíntese.

Resultados do trabalho

A aplicação de CO2 via água de irrigação influenciou positivamente a produtividade do meloeiro. O tratamento com aplicação de CO2 proporcionou maior produtividade de frutos (total, comercial e não comercial) em comparação com o tratamento sem aplicação de CO2 (Tabela 1 - veja no final do texto como visualizar o artigo em PDF).

A maior produtividade do tratamento com aplicação de CO2 deveu-se ao maior número e peso médio de frutos comerciais. No tratamento com aplicação de CO2 via água de irrigação, a taxa de assimilação de CO2 foi maior no horário de aplicação de CO2 e igual no demais horários (Tabela 2). Nesse estudo, encontrou-se frutos comerciais com massa média maior com a aplicação de CO2. O número total de frutos foi maior com a aplicação diária de CO2, o que, provavelmente, ocorreu devido ao prolongamento do ciclo da cultura.

A aplicação de CO2 em melão proporcionou aumento de área foliar, aumento de matéria seca da folha, produção de maior número de células paliçádicas nas folhas e incremento da eficiência na fotossíntese.

Não houve efeitos significativos para pH, acidez total e teor de sólidos solúveis nos frutos de melão em função da aplicação de CO2 via água de irrigação. Os resultados das análises químicas das folhas são mostrados na Tabela 3. A concentração de potássio foi 94,2% maior com aplicação de CO2 via água de irrigação. Com a concentração do ferro ocorreu o contrário, ou seja, foi 64,9% menor com aplicação de CO2 via água de irrigação.

Conclusões e recomendações

• A maior produtividade de melão (28,68 t.ha-1) foi obtida no tratamento com aplicação de dióxido de carbono via água de irrigação;

• A taxa de fotossíntese líquida foi maior no tratamento com aplicação de CO2 quando medida no horário de aplicação do dióxido de carbono (11 horas) e igual nos demais horários;

• A aplicação de CO2 via água de irrigação não afetou as características químicas (teor de sólidos solúveis, acidez total e pH) dos frutos na colheita.

J. M. Pinto
Embrapa Semi-Árido

* Este artigo foi publicado na edição número 06 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de fevereiro/março de 2001.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

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