Melou o mamão

Os produtores de mamão do Norte do Espírito Santo e Sul da Bahia, região de maior concentração de área plantada com esta cultura, têm na meleira um dos principais problemas fitossanitários, que resulta em perda de 30% a 40% da área plantada. Até recentemente esse problema tinha causa desconhecida, o que dificultava as ações de controle ou prevenção. Nos últimos três anos, os estudos desenvolvidos por diferentes instituições de pesquisa em todo o país têm possibilitado avanços significativos sobre o conhecimento da meleira do mamoeiro.

Histórico do problema

Um breve histórico da meleira do mamoeiro pode ser assim resumido:

•1987 - Primeiro relato sobre "exsudação do látex do mamoeiro" em Teixeira de Freitas-BA e da possível associação da mesma com problemas de absorção do boro ou cálcio, resultante da deficiência de água no solo.

•1988 - Associação da meleira com o desequilíbrio de bases no solo.

•1989 - É relatada a ocorrência da meleira do mamoeiro no Espírito Santo. É sugerido o envolvimento de um agente infeccioso decorrente de estudos de disseminação em campo e de transmissão mecânica para plantas sadias mediante látex de plantas afetadas.

•1992 - primeira observação de partículas semelhantes a vírus e de dsRNA semelhantes a formas replicativas de vírus, em plantas afetadas pela meleira.

•1998 - Pesquisas confirmam a transmissibilidade da meleira de plantas afetadas para plantas sadias, por meio de métodos mecânicos e detecção de dsRNA em tecidos de mamoeiros afetados.

•1998 - Estudos com plantas protegidas com tela antiafídio e expostas a infecção em campo, indicaram a associação de um vetor na transmissão da meleira. Todas as plantas expostas em campo foram infectadas enquanto que as protegidas não desenvolveram a doença. Levantou-se a hipótese da transmissibilidade por inseto, sendo a mosca branca, Bemisia tabaci o principal suspeito como inseto vetor.

•1999 - Estudos da associação moscas-das-frutas/meleira comprovaram a suscetibilidade de frutos verdes infectados pela doença ao ataque de Ceratitis capitata e Anastrepha obliqua (frutos verdes de plantas sadias são tolerantes ao ataque desta praga).

•2000 - Purificação e caracterização do vírus da meleira estabelece, em bases científicas, a etiologia da doença. Foi comprovado experimentalmente que a mosca branca, Bemisia tabaci é um vetor deste vírus, e que o mamoeiro é hospedeiro deste inseto.

Controle da doença

Comprovado que a doença é de origem virótica, a erradicação das plantas infectadas é a primeira medida a ser adotada; e esta é uma prática comum entre os agricultores mais esclarecidos. Infelizmente as plantas só mostram os sintomas após oito a nove meses de idade, em início de produção, o que representa elevados prejuízos.

Como toda doença causada por vírus, com envolvimento de agentes biológicos como vetores e de difícil controle, a melhor estratégia ainda é o controle preventivo. As seguintes medidas devem se adotadas:

• não utilizar sementes de procedência desconhecida (o vírus pode ser transmitido pela semente - essa hipótese ainda não foi elucidada);

• as sementeiras e viveiros de mudas devem ser protegidas de qualquer tipo de inseto, especialmente os sugadores;

• efetuar inspeção semanal e rigorosa do pomar, visando a identificação e erradicação de plantas logo no início do sintoma da doença;

• não tolerar a presença de plantas olerícolas como tomate, abóbora, melão, melancia e outras, nas proximidades dos pomares, por serem hospedeiras primárias da mosca branca Bemisia tabaci.

• por meio de ceifa ou de gradagem, estabelecer em torno da plantação uma faixa de proteção: a ausência de vegetação nativa em torno do pomar ou talhão dificulta ou retarda a infecção do pomar.

Em se tratando de doença de natureza virótica, o controle mais efetivo ocorre pela utilização de variedades resistentes. Nesse sentido, a Embrapa Mandioca e Fruticultura está testando, em campo, diferentes genótipos de mamoeiro na expectativa de chegar a resultados práticos. Enquanto isto não ocorre, é sempre bom lembrar que em se tratando de pragas e doenças, a melhor estratégia ainda é a prevenção.

Antonio S. Nascimento
Embrapa Mandioca e Fruticultura
Carlos A. Vidal e Tuffi C. Habibe
UFBA

* Este artigo foi publicado na edição número 05 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de dezembro/2000 - janeiro/2001. ver mais artigos
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