Mercado mundial

A batata, Solanum tuberosum, é, em todo o mundo, a quarta cultura agrícola na ordem de importância, depois do trigo, arroz e do milho. Sem dúvidas, a batata é um dos principais alimentos básicos da humanidade, pois 125 países cultivam e mais de um bilhão de pessoas consomem batata em todo o mundo. Preconiza-se que no futuro próximo, nossos alimentos terão origem de poucas culturas agrícolas, tais como o trigo, arroz, feijão, batata, mandioca e de outros grãos e cereais, porém de forma regional.

Origem do cultivo

Os primeiros cultivos de batata foram na região dos Andes, por volta de mil anos atrás e foi levada do Peru para a Europa em meados do século XVI, onde primeiramente foi cultivada como uma planta tropical exótica e com fins medicinais. Somente após dois séculos é que, efetivamente, foi incorporado na dieta regular dos europeus.

Atualmente, o setor mundial dedicado ao cultivo da batata esta em transição. A maior produção ainda acontece na Europa mas a forte tendência é de que isto venha acontecer nos países em desenvolvimento, notadamente naqueles da Ásia, África e América Latina. A batata é uma fonte cada vez mais importante de alimento, de emprego rural e de ingressos financeiros, podendo tornar-se um fator de maior estabilização social e mantenedora do meio rural, principalmente nos países em desenvolvimento. Durante os últimos 30 anos a oferta e a demanda mundial da batata obedeceu a diferentes tendências. Em geral, diminui nos Estados Unidos e Europa e aumentou rápida e constantemente nos países em desenvolvimento. Também nestes, a chamada produção de subsistência diminui de importância e os agricultores estão mais propensos a produzir batata para atender as necessidades do mercado, ou seja, está havendo a profissionalização do cultivo da batata. Um outro fato interessante é que, em nível mundial, a utilização da batata tende, rápida e crescentemente, ser utilizada através de produtos processados, em detrimento dos mercados tradicionais de batata fresca e de alimentação animal.

A produção mundial de batata se manteve por várias décadas na ordem de 260 a 270 milhões de toneladas e, durante esta ultima, saltou para a casa dos 308 milhões de toneladas. A área cultivada, que se mantinha ao redor de 22 milhões de hectares, caiu para 19 milhões de hectares, pois a produtividade média mundial passou, durante este período, de 13 para 15 toneladas por hectare. A área ocupada com agricultura no mundo deve estar ao redor de um bilhão de hectares, assim, a área cultivada com batata no mundo representa algo ao redor de 5% da área agrícola mundial.

A maior produção de batata nos países em desenvolvimento acontece na Ásia, com cerca de 35% da produção mundial, 40% da área agrícola ocupada mundialmente pela cultura e já têm uma produtividade média da ordem de 13 toneladas por hectare.

Nos tradicionais países europeus produtores de batata, com exceção dos Países Baixos, houve uma substancial redução geral na produção e consumo. Isto aconteceu, principalmente, devido à transformação dos hábitos alimentares dos europeus, passando do consumo da batata para o consumo de cereais, verduras e frutas.

A produção de batata na América Latina aumentou cerca de 80% nos últimos 30 anos, principalmente na Colômbia, Guatemala, Costa Rica e Cuba, sendo que na Argentina, Bolívia, Chile e Peru, praticamente estagnou a produção. Inúmeros fatores, técnicos e comerciais, apontam a Argentina, Brasil e Colômbia como os países sul-americanos onde haverá substanciais incrementos na produção e na produtividade da batata. A produção brasileira esta na ordem de 300 mil de toneladas, ocupando cerca de 19 mil de hectares e com a produtividade média (em ascensão) da ordem de 16 toneladas por hectare.

Há uma forte tendência da produção com orientação comercial de batata na América Latina e, entre esta, o processamento industrial assume um papel importantíssimo no impulso e direcionamento da demanda de batata para o setor comercial, como acontece na Argentina, Brasil e Chile.

O uso de batata como semente representa cerca de 15% da produção mundial, todavia, na maioria das regiões produtoras de batata do mundo desenvolvido há redução do volume de batata semente, os quais destinam não mais do que 10% do volume total da produção para o uso e comércio de semente. Exceção ocorre em poucos países, como a Holanda e Chile, que chegam destinar 25 a 15% para o comércio de sementes. No Brasil, cerca de 13% da produção nacional é destinada para o comércio de sementes.

A batata é um produto notadamente volumoso, perecível, com baixo custo intrínseco e com elevado custo relativo de transporte. Estas características limitam as possibilidades para o seu comércio, principalmente para o mercado a longas distâncias, como o de exportação.

Os maiores negócios comerciais, tanto importação como exportação, com a batata acontecem nos países desenvolvidos. No mundo, o mercado importador e exportador de batata consumo e semente é da ordem de 15 milhões de toneladas e de produtos processados, como a batata palito ou crocante, farinha, amido, representa mais dois a três milhões de toneladas. Por exemplo, o grosso da exportação de batata dos Estados Unidos (70%) consiste em batata palito congelada, com destino ao Japão e outros países asiáticos. O mercado Asiático (China, Taiwan, Hong Kong, Índia) é um dos mercados mais promissores para a exportação de batata. A produção de comidas rápidas , nestes locais está se expandindo aceleradamente. A China, como exemplo, produz, atualmente, 62 milhões de toneladas de batata, o que não é suficiente para ofertar, como alimento básico, para os 1,5 bilhões de chineses.

Como todos os produtos agrícolas exportáveis, a batata também está sob as influências e determinação de acordos comerciais. Afora as restrições fitossanitárias, que são constantemente impostas no mercado internacional da batata, as barreiras tarifárias e comercias também limitam e são elementos que regulam este mercado.

A semelhança que ocorre na produção e comércio das maiorias das culturas básicas da alimentação mundial, a batata também é um produto susceptível a grandes perdas. É assombroso constatar que entre 7 e 10% da potencial produção mundial é perdida, ou seja, são desperdiçadas cerca de 21 e 25 milhões de toneladas de batatas no mundo e que, 65% destas perdas acorrerem nos países em desenvolvimento. Os problemas fitossanitários são responsáveis por significativas perdas diretas e de elevação do custo de produção. Em termos de perdas diretas, atribui-se perdas da ordem de 10% devido ao ataque de pragas e de 30% devido a incidência das doenças.

Pragas e doenças

Cerca de 150 espécies de doenças e pragas incidem na cultura da batata no mundo. As principais doenças são a Pseudomonas solanacearum, Alternaria solani, Phytophtera infestan e muitas viroses. Dentre as pragas, mundialmente problema para a batata, destacam-se a Phtorimaea operculella, Liriomyza huidobrensis, Leptinotarsa decemliata, Epitrix spp., Diabrotica spp.e Epicauta spp. Várias espécies de nematóides também são sérios e limitantes problemas na cultura da batata, principalmente os de cistos (Colobodera spp.) e os de galhas (Meloidogyne spp.).

Não há duvidas de que são inaceitáveis a continuidade destes níveis de perdas e a reversão deste quadro, quer a nível mundial, nacional e regional, somente acontecerá com o emprego de técnicas integradas e operativas na lavoura, quer na proteção fitossanitária, transporte e armazenagem.

O produtor de batata terá que continuar recorrendo aos insumos protetores de doenças e pragas da cultura da batata, tanto para os problemas foliares como aqueles que incidem no tubérculo, pois somente assim poderá ter chances de assegurar a necessária qualidade e quantidade para se manter competitivo no comércio.

Luiz Antonio Salles
Embrapa Clima Temperado

* Este artigo foi publicado na edição número 10 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de outubro/novembro de 2001. ver mais artigos
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