Minúsculos e ofensivos: ataques de ácaros na soja

Os ácaros são pragas secundárias em soja no Brasil. No entanto, existem regiões e épocas em que a praga pode exigir medidas de controle, merecendo por isso atenção do agricultor no monitoramento da sua lavoura.

Atualmente são conhecidas seis espécie de ácaros associadas à soja no Brasil com potencial de causar dano, sendo o ácaro-verde e o ácaro-rajado mais comuns. Os demais ácaros-praga são três espécies de ácaro vermelho e o ácaro-branco. Associados aos ácaros-praga, comumente ocorrem agentes de controle biológico como os ácaros predadores (ácaros benéficos) e doenças como o fungo Neozygites floridana. Tais agentes de controle biológico contribuem para reduzir a intensidade de ataque dos ácaros-praga na lavoura de soja, por isso o agricultor deve fazer o uso racional de inseticidas e fungicidas na sua lavoura a fim de preservá-los.

A ocorrência de estiagem é o principal fator condicionante para surtos de ácaros em soja. No entanto, o uso inadequado de inseticidas e fungicidas pode aumentar a intensidade de ataque da praga. Determinados inseticidas pouco seletivos, como os piretroides, utilizados em soja para o controle de lagartas e percevejos podem intensificar o ataque de ácaros, pois são deletérios a predadores e competidores, e induzem a dispersão dos ácaros na lavoura, aumentando a área atacada pela praga. Também inseticidas neonicotinoides podem favorecer os tetraniquídeos por estimularem sua reprodução. Em soja, misturas comerciais de piretróides e neonicotinóides são amplamente utilizadas para o controle de percevejos. Além disso, os fungicidas (triazóis, estrobirulinas e benzimidazóis) utilizados para controle da ferrugem-da-soja podem prejudicar o fungo Neozygites floridana que controla naturalmente os ácaros-praga. Quanto mais cedo for iniciada a aplicação de inseticidas fungicidas em soja maior será o prejuízo ao fungo de controle biológico de ácaros.

Os surtos de ácaros ocorrem, frequentemente, na fase reprodutiva da soja, quando a planta encontra-se na fase de maior área foliar da planta, dificultando a distribuição dos acaricidas, principalmente nas folhas medianas e inferiores. Devido à dificuldade de controle e ao custo do tratamento, para o manejo de ácaros em soja prevalecem estratégias de preservação de inimigos naturais pelo uso racional de agroquímicos. Neste contexto, a liberação comercial da soja Bt (intacta) traz boas perspectivas pela possibilidade de redução do uso de inseticidas. Porém, é indispensável que a soja Bt seja manejada corretamente, controlando percevejos só após o surgimento das vagens, quando for atingido o nível de ação, e utilização de fungicidas apenas na fase reprodutiva da cultura.

Um estudo realizado pela Emater/Paraná com a colaboração da Embrapa Soja, na safra 2013/14 em 107 lavouras de agricultores no estado do Paraná indicou que é possível reduzir o número de aplicações de inseticidas e fungicidas, bem como, atrasar a data da primeira aplicação, sem perdas de produtividade para o agricultor. Em outro estudo onde 189 lavouras de soja foram acompanhadas por engenheiros agrônomos da Coamo, nos estados de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul, na safra 2010/11, foi constatado que é possível reduzir pela metade o número de pulverizações para o manejo de percevejos em soja utilizando o manejo integrado de pragas.

Estudos recentes indicam que a resistência de cultivares pode ser uma ferramenta para o manejo de ácaros em soja. Mas ainda é um desafio obter conhecimento sobre: a fase crítica da soja ao ataque da praga; o nível de controle; a definição de estratégias práticas e eficientes de amostragem e a viabilidade do controle biológico aplicado, com predadores e patógenos.

Ainda não existe um nível de controle consolidado para ácaros em soja no Brasil. No entanto, pesquisas científicas tem mostrado que, dependendo da intensidade de ataque, pode haver perdas de produtividade, justificando a utilização de medidas de controle. Em cultivos intensivos (flores, hortaliças, frutíferas) o controle de ácaros vem sendo realizado com a utilização de ácaros predadores (controle biológico), porém, na cultura da soja, devido à escala de produção, o controle de ácaros é realizado predominantemente com acaricidas químicos. Atualmente existe um pequeno número de acaricidas registrados para o controle de ácaros em soja, sendo seus princípios ativos: espiromesifeno, diafentiurom, abamectina e profenofós+lufenurom. Como o ataque pode ocorrer de forma pontual na lavoura é aconselhável vistoriar todos os talhões e realizar pulverizações apenas nas áreas atacadas obedecendo à dose registrada de cada produto.

Como se comportam

Os ácaros são organismos minúsculos que se alimentam das células da folha da soja, reduzindo a fotossíntese e a produção de energia pela planta, sendo que ataques intensos podem reduzir a produção da lavoura. No caso do ácaro-branco, o ataque pode produzir encarquilhamento das folhas e deformação na planta.

O ácaro-verde (Mononychellus planki) é o ácaro mais frequente em soja no Brasil, porém é menos agressivo que os demais. É comumente encontrado em baixa densidade populacional, porém em períodos de estiagem na fase de enchimento de grãos da soja podem ocorrer surtos populacionais da praga. Este ácaro possui coloração verde intensa com as quatro pernas dianteiras de coloração amarelo-ouro. Os ovos são depositados diretamente sobre a superfície da folha, principalmente na sua face inferior e junto às nervuras. Produz pequena quantidade de teia, utilizada para fixar os seus ovos na folha e no processo de dispersão pelo vento. Os sintomas do ataque do ácaro-verde são pontuações claras (células mortas) ao longo de toda a superfície da folha, em ambos os lados, porém mais intensamente na sua face inferior. No início, o ataque se concentra próximo das nervuras, porém com o passar do tempo se distribui ao longo de toda a superfície da folha que apresenta coloração acinzentada. Folhas de diferentes alturas da planta apresentam intensidade de ataque semelhante entre si. O ataque do ácaro-verde é bem distribuído na lavoura, ocorrendo grandes reboleiras de coloração acinzentada. Como a transição de áreas pouco atacadas para outras com ataque mais intenso é gradual o início do desenvolvimento de reboleiras pode passar despercebido para o olho pouco treinado.

O ácaro-rajado (Tetranychus urticae) é a segunda espécie mais frequente em soja no Brasil, habitualmente é mais agressiva o que o ácaro-verde, porém muito sensível à chuva e ao ataque de agentes de controle biológico. É notado em ataques intensos em soja, sendo favorecido pela estiagem. Esse ácaro possui coloração verde com duas manchas escuras laterais, o que motivou o seu nome “ácaro-rajado”. Vivem em colônias abrigadas sob teia que é produzida em grande quantidade na face inferior das folhas. Os sintomas do ataque na face inferior da folha são pontuações claras (células mortas) que evoluem rapidamente para manchas contínuas acinzentadas, correspondentes à região de abrangência da colônia, delimitada pela sua teia, enquanto na face superior surgem manchas amareladas. O ácaro-rajado, ao contrário do ácaro-verde, apresenta ataque bem concentrado em pequenas manchas na folha. Com o passar do tempo, novas colônias são estabelecidas formando novos pontos de ataque na mesma folha. O ataque é desuniforme ao logo da planta e da lavoura, sendo que folhas de uma mesma planta podem apresentar intensidades de ataques muito diferentes. Na lavoura são notadas pequenas reboleiras com plantas intensamente atacadas, com aspecto amarelado, gerando forte contraste em relação ao entorno, o que facilita seu reconhecimento.

As espécies de ácaros-vermelhos (Tetranychus desertorum, Tetranychus gigas, Tetranychus ludeni) que ocorrem em soja são semelhantes entre si. Possuem coloração vermelha-carmim que com o passar do tempo passar para o vermelho-escuro.  Apresentam sintomas e potencial de ataque semelhantes ao do ácaro-rajado, porém são pouco frequentes em soja no Brasil.

O ácaro-branco (Polyphagotarsonemus latus) também é pouco frequente em soja no Brasil e comumente ocorre em baixas densidades populacionais. O ácaro-branco, ao contrário dos demais é favorecido por períodos chuvosos e presente na fase vegetativa da soja. Esses ácaros apresentam coloração creme brilhante e são muito pequenos, difíceis de serem observados a olho nu. É comum observar os machos transportando pupas de fêmeas, com as quais copulam tão logo estas emerjam. Os ovos são depositados diretamente sobre a superfície da folha ao logo de toda sua extensão, principalmente na face inferior. O ácaro-branco não produz teia. Devido ao seu pequeno tamanho, ácaro-branco ataca preferencialmente folhas novas (ponteiros), sendo que seu ataque prejudica o processo de expansão da folha deixando-a encarquilhada, podendo ser confundido com virose. A deformação nos folíolos, causada pelo ácaro-branco, é sempre simétrica e ocorre com a mesma intensidade nos três folíolos da mesma folha. Enquanto que, no caso de viroses, pode ocorrer deformação assimétrica no folíolo e folíolos de uma mesma folha podem apresentar deformações com intensidades variadas. Os folíolos de plantas com virose podem apresentar rajadas de coloração amarelada, preta, avermelhada ou verde, já folíolos atacados pelo ácaro-branco não apresentam tais modificações. Na lavoura o ataque do ácaro-branco ocorre em reboleiras, já as viroses podem ser verificadas em plantas isoladas. A haste e vagens em desenvolvimento também podem ser atacadas. As estruturas afetadas apresentam aspecto bronzeado. Ataques precoces podem atingir consideravelmente a arquitetura da planta.

O artigo está na edição 191 da Cultivar Grandes Culturas.

 

 

 

 

 

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Samuel Roggia

Embrapa Soja

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