Morte ronda os citrus

A Morte Súbita dos Citros (MSC) é uma nova doença que afeta algumas combinações copa/porta-enxerto de plantas cítricas e se constitui numa ameaça potencial à citricultura brasileira. Esta doença foi assim denominada por pesquisadores do Centro APTA Citros “Sylvio Moreira” devido à rapidez com que definha e inviabiliza economicamente as plantas afetadas, principalmente as variedades tardias de laranjeiras doces.

A MSC foi observada pela primeira vez por pesquisadores do Fundecitrus no início de 2001 no município de Comendador Gomes, localizado no sul do Triângulo Mineiro, em talhões da variedade ‘Valência’ enxertada sobre limoeiro ‘Cravo’. Em pouco mais de dois anos, um dos talhões afetados, com 4,7 mil plantas, apresentava 86% das plantas doentes ou mortas por causa desconhecida. Na mesma propriedade, a MSC foi observada em outros talhões de laranjeiras doces ‘Pera’, ‘Natal’ e ‘Hamlin’, todas sobre limoeiro ‘Cravo’, com idades entre 3 e 23 anos. No mesmo ano, a evolução da doença foi observada, não só em outros talhões, como também em propriedades fora de Comendador Gomes. A MSC já estava nos municípios mineiros de Frutal e Uberlândia, e havia atravessado o Rio Grande para surgir em Colômbia, no Estado de São Paulo. Um levantamento, feito pelo Fundecitrus em fevereiro de 2002, mostrou que a doença já havia atingido pomares de 41 propriedades em sete municípios: Altair, Barretos, Colômbia e Guaraci, em São Paulo, e Comendador Gomes, Frutal e Uberlândia, em Minas Gerais. Os técnicos do Fundecitrus inspecionaram, desde outubro do ano passado, 2.728 propriedades em 143 municípios de todas as regiões do parque citrícola. Até agora, são estimadas cerca de 300 mil plantas afetadas.

A MSC já foi observada nas principais variedades comerciais de laranjeiras doces ‘Pera’, ‘Valência’, ‘Natal’, ‘Hamlin’, ‘Westin’, ‘Pineapple’ e ‘Folha Murcha’, e nas tangerineiras ‘Ponkan’ e ‘Cravo’, todas enxertadas sobre o limoeiro ‘Cravo’. Além deste porta-enxerto, a doença foi observada em laranjeira ‘Natal’ enxertada sobre limoeiro ‘Volkameriano’. Em plantas de laranjeiras doces enxertadas sobre tangerineiras ‘Cleópatra’ e ‘Sunki’, citrumelo ‘Swingle’ e Poncirus trifoliata, plantadas ao lado dos talhões doentes, ainda não foram observados os sintomas da doença. Também não foi constatado sintomas em pés francos de limoeiro ‘Cravo’, em locais com alta contaminação. Adicionalmente, observações preliminares indicam que a sub-enxertia em plantas doentes, substituindo o limoeiro ‘Cravo’ por tangerineira ‘Cleópatra’ ou citrumelo ‘Swingle’, recupera a planta afetada. Essas características indicam que a MSC é uma doença da combinação das copas de laranjeiras doces ou tangerineiras com os porta-enxertos de limoeiro ‘Cravo’ e ‘Volkameriano’. Desta forma, a MSC pode ser considerada uma das maiores ameaças à citricultura paulista e brasileira, uma vez que cerca de 85% dos citros cultivados no Estado de São Paulo são enxertados sobre estes porta-enxertos.

O primeiro sintoma observado nas plantas com MSC é a perda generalizada do brilho das folhas, que ficam verdes claras e pálidas, contrastando com o verde escuro e intenso das folhas das plantas sadias. Em seguida, ocorre ligeira desfolha nas plantas doentes, ausência ou poucas brotações novas e ausência de brotações internas. Em estágio mais avançado, pode ocorrer a morte da planta, dependendo da variedade da copa. Estes sintomas de definhamento da planta são, contudo, inespecíficos e refletem a ausência de raízes ou grande quantidade de raízes mortas nas plantas doentes, sempre iniciada da ponta para a base da raiz. Plantas com a copa sem sintomas aparentes podem já apresentar alguma podridão inicial nas extremidades das raízes. As raízes mortas e podres também podem apresentar o ataque de pragas e patógenos secundários. Entretanto, o empobrecimento do sistema radicular destas plantas é conseqüência da obstrução e desorganização do floema funcional na região logo abaixo do ponto de enxertia que impede a nutrição adequada das raízes e radicelas. Esta situação é evidenciada pela presença de coloração amarelada intensa nos tecidos internos da casca do porta-enxerto, contrastando com os tecidos da casca da copa que são brancos. Esta coloração amarelada nos tecidos internos da casca do porta-enxerto, na região do floema funcional, é o sintoma característico da MSC e tem sido usada para o seu diagnóstico nos pomares.

Algumas variações nos sintomas podem ocorrer em função da variedade de copa de laranjeira doce. Nas variedades precoces (‘Hamlin’ e ‘Westin’) e de meia estação (‘Pera’) a evolução dos sintomas é bem mais lenta e, geralmente, a morte das plantas, quando ocorre, leva vários meses, apesar de a planta apresentar-se improdutiva logo que aparecem os primeiros sintomas. Na ‘Hamlin’ são observadas com freqüência a ausência de brotações novas, desfolha parcial da planta e ausência de brotações internas na copa. Em ‘Pera’, também é observada a seca e morte dos ponteiros da planta. Em variedades tardias (‘Natal’ e ‘Valência’), na primavera e início do verão, os sintomas evoluem rapidamente e podem ser encontradas plantas mortas, apresentando frutos normais presos à copa. Nestas plantas, houve tempo para o florescimento, desenvolvimento e maturação dos frutos antes do colapso súbito da árvore. Provavelmente, a doença estava presente na planta há algum tempo, mas aparentemente a morte acontece de forma rápida e súbita quando a planta necessita absorver muita água para emissão de novas brotações e enchimento dos frutos. Como a planta não tem mais raízes para cumprir estas funções, ela entra em colapso. A doença pode chegar a esse estágio em apenas algumas semanas após os primeiros sintomas, como já foi observado em alguns pomares, depois das chuvas.

Os sintomas externos da MSC podem ser confundidos com os de Declínio, outra doença que debilita a planta e reduz sua longevidade e para a qual o limoeiro ‘Cravo’ é bastante sensível, mas existem diferenças básicas que permitem diferenciar as duas doenças. Em plantas com Declínio, ao contrário de plantas com MSC, não há o amarelecimento interno da casca do porta-enxerto, não há o apodrecimento de raízes, há intensa emissão de brotações internas na copa, a morte de plantas é bem mais lenta e não há morte de plantas com retenção de frutos, não há absorção e translocação de água pelos vasos do xilema e, no teste diagnóstico em laboratório, é constatada a presença de uma proteína de 12 kD, o que não se detecta em plantas com MSC.

Além do Fundecitrus, estão empenhados em estudar a MSC, o Centro APTA Citros “Sylvio Moreira” do Instituto Agronômico de Campinas, Instituto Biológico, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp/Jaboticabal e Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo. No exterior, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a Universidade da Flórida, o Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica da França (INRA) e o Instituto Valenciano de Pesquisas Citrícolas da Espanha (IVIA), para onde foram enviados materiais de plantas doentes.

Após tentativas de isolamento, testes diagnósticos, baseados em serologia e biologia molecular, e observações em microscópio eletrônico, nenhum patógeno, como nematóides, fungos, bactérias, fitoplasmas, espiroplasmas, protozoários e viróides, até o momento, foi associado à MSC.

A hipótese mais aceita, até agora, é que MSC seja causada por um novo vírus, muito provavelmente, uma nova estirpe do vírus da Tristeza (Citrus Tristeza virus – CTV), que agora tornou as combinações de laranjeiras doces e tangerineiras sobre limoeiro ‘Cravo’ e ‘Volkameriano’, antes tolerantes, em suscetíveis. A MSC tem muitos pontos em comum com a Tristeza ou “Declínio Rápido” das laranjeiras doces sobre laranjeira ‘Azeda’, que entre os anos de 1939 e 1949 matou 9 milhões de plantas das 11 milhões existentes no Brasil: a) Tanto a MSC como a Tristeza são doenças de combinações, laranjeira doce/laranjeira ‘Azeda’, para a Tristeza, e laranjeira doce/limoeiro ‘Cravo’, onde a laranjeira doce e os limoeiros ‘Cravo’ e ‘Volkameriano’ em pé-franco são tolerantes à MSC, assim como o pé-franco de laranjeira ‘Azeda’ é tolerante à Tristeza; b) Os sintomas de MSC e Tristeza são sintomas de declínio rápido da planta, causados pela necrose do floema do porta-enxerto abaixo do ponto de enxertia e conseqüente podridão de raízes; c) Os estudos epidemiológicos têm revelado que a distribuição espacial e a velocidade de progresso das plantas com sintomas da MSC é muio semelhante às das plantas com Tristeza na presença do pulgão preto (Toxoptera citricida), sugerindo, também, que este possa ser o vetor do agente causal da MSC; d) Plantas com MSC, assim como plantas com Tristeza, podem ser recuperadas pela sub-enxertia com porta-enxertos tolerantes. Além disso, nenhum outro tipo de vírus foi encontrado nas plantas com MSC, por meio de testes serológicos, moleculares e microscopia eletrônica, a não ser partículas semelhantes ao CTV, sempre presentes em todas as plantas com MSC, assim como nas plantas sadias.

Até então, esta hipótese é a que consegue explicar todos os fatos atualmente conhecidos sobre a MSC, e deve, portanto, ser comprovada ou rejeitada. O Fundecitrus está conduzindo experimentos de transmissão por enxertia e vetores, e levantamentos para conhecer a dispersão da doença na região afetada e no restante do Estado de São Paulo. Pesquisadores do Centro APTA Citros “Sylvio Moreira” e dos IVIA na Espanha estão comparando as populações de CTV de árvores com MSC com as populações de CTV de árvores não afetadas por diversas técnicas.

Até que se possa afirmar cientificamente o que causa a MSC, algumas recomendações têm sido feitas aos citricultores: a) Evitar o trânsito de material propagativo (borbulhas e mudas) para fora das áreas afetadas; b) Produzir mudas em viveiros com tela anti-afídica; c) Evitar o plantio de citros sobre limoeiro ‘Cravo’ e ‘Volkameriano’ na região afetada pela doença; d) Diversificar os porta-enxertos nos plantios novos, evitando plantar sobre limoeiro ‘Cravo’ e ‘Volkameriano’, mesmo em áreas livres da doença; e) Nas áreas afetadas, fazer sub-enxertias em plantas jovens de laranjeiras doces, enxertadas sobre limoeiro ‘Cravo’ ou ‘Volkameriano’, com porta-enxertos tolerantes (tangerineiras ‘Cleópatra’ e ‘Sunki’, citrumelo ‘Swingle’, laranjeira doce, Poncirus trifoliata). O controle químico do vetor (possivelmente o pulgão preto) não é recomendado por não apresentar eficiência em evitar a disseminação da doença.

Pesquisas com o objetivo de desenvolver técnicas de controle da MSC estão sendo realizadas pelos pesquisadores do Fundecitrus e de outras instituições. Nestas pesquisas estão sendo avaliados o comportamento de diferentes porta-enxertos e variedades de copas em relação à MSC e o efeito da sub-enxertia, com diferentes porta-enxertos, na prevenção da doença e recuperação de plantas doentes.

O Fundecitrus recomenda, também, que o citricultor fique atento à MSC nas inspeções de rotina. Qualquer desconfiança, avise ao Fundecitrus (ligação gratuita: 0800-11-2155). Essa atitude é muito importante para que se descubra o mais rápido possível o que é a doença e como combatê-la.

Renato Beozzo Bassanezi, Pedro Takao Yamamoto, Marcel Bellato Spósito e José Belasque Júnior,
Fundecitrus

* Este artigo foi publicado na edição número 15 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de agosto/setembro de 2002. ver mais artigos
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