MPB no canavial

A estimativa brasileira de produção de cana-de-açúcar é de 671,9 milhões de toneladas, o que coloca o País no posto de maior produtor mundial (Conab, 2014). A elevada produção também se dá devido à constante renovação dos canaviais, que segundo a Conab (2013) ficou em torno de 20% da área cultivada com gasto de 15t colmos/ha para o plantio tradicional e 20t colmos/ha para o plantio mecânico.

Os colmos usados como mudas no plantio dos novos canaviais precisam ser livres de pragas e patógenos causadores de doenças. Para conseguir colmos com considerável sanidade ao plantio, o produtor de cana-de-açúcar precisa formar canaviais com constantes vistorias sanitárias, conhecidos como viveiros.

Práticas como tratamento térmico (imersão dos colmos em água a 52°C antes do plantio para eliminação de patógenos), rouguing (inspeções com arranquio de touceiras infectadas por pragas ou patógenos) e irrigação, oneram a formação dos viveiros. Ao considerar a necessidade atual de colmos para plantio de cana-de-açúcar (15t a 20t de colmos para plantar 1ha) o produtor necessita ampliar os canaviais de viveiro, o que aumenta ainda mais os custos para o plantio comercial.

Na tentativa de reduzir o consumo de colmos para o plantio, opções como o uso de mudas pré-brotadas (MPB) tem proporcionado vantagens aos produtores, que, ao invés de utilizarem colmos, passam a usar diretamente mudas. Segundo Landell et al (2013) no sistema MPB, o consumo de colmos é reduzido entre 0,5t de colmo/ha a 1t de colmo/ha, além de otimizar o uso de fertilizante e proporcionar melhor gerenciamento sobre pragas e doenças como escaldadura e raquitismo.

O produtor que se interessa pelas MPB (Figura 1) pode formar suas próprias plantas de acordo com a metodologia preconizada por Landell (2013). A cartilha foi desenvolvida pela equipe do Centro de Cana do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e está disponível no site do Instituto. Outra opção é o produtor adquirir as MPB com empresas produtoras, a exemplo da própria usina em que o produtor é fornecedor de cana-de-açúcar.

A ideia das MPBs surgiu da necessidade do Programa Cana do IAC entregar às usinas cooperadas material isento de Sphenophorus levis (praga que coloniza os colmos da cana-de-açúcar). Assim, desde 2009, a equipe tem investido na formação de MPB, que além de evitar a disseminação da praga também diminui o volume de material a ser transportado.

O plantio de MPB é feito em linhas espaçadas de 1,50m e 0,50m entre plantas. Os sulcos são mais rasos que o sistema tradicional de plantio e pode também ser substituídos por covas, geralmente, realizados mecanicamente.

A formação de viveiros constituiu a primeira utilização das MPB, mas atualmente as usinas de cana-de-açúcar têm encontrado outros usos para a nova tecnologia. O segundo emprego é no replantio da cana-de-açúcar nas falhas do plantio comercial, que com menor esforço o produtor pode manter o estande do canavial.

O terceiro uso é em áreas de viveiro, porém, no sistema de “meiosi”, que constitui no plantio de duas linhas de cana-de-açúcar com MPB (espaçadas a 1,5m), um espaço maior (próximo a 15m), o plantio de outras duas linhas com MPB e assim sucessivamente. Nos espaços de 15m entre as linhas duplas de cana-de-açúcar, cultiva-se outra cultura (amendoim, soja ou girassol). Após sua colheita, utilizam-se dos colmos de cana-de-açúcar formados nas linhas duplas para plantar os espaços de 15m desocupados.

As usinas ainda têm dado um quarto uso para utilização das MPB, que é conhecido como revitalização das soqueiras. Nessa modalidade, as MPB são plantadas nas falhas das soqueiras, comum pelo arranquio das colhedoras. Com isso, algumas usinas têm conseguido manter a produtividade do canavial por mais tempo, ou seja, aumentar a longevidade da soqueira.

Uso de herbicidas

O manejo químico de plantas daninhas no plantio com MPB ainda precisa ser melhor elucidado. No campo, tem-se observado que tratamentos herbicidas de uso tradicional na cultura prejudicam as plantas no sistema MPB, particularmente, se aplicados logo após o transplante. Na tentativa de amenizar a questão, apresenta-se como proposta um manejo químico que permita que as MPBs não recebam herbicidas logo após o transplante (fase do pegamento), mas sim antes do plantio e após o estabelecimento (40 dias do transplante) das mudas (Figura 2).

Estudos preliminares em casa de vegetação no IAC demonstraram que o plantio superficial das MPBs permitiu que as raízes permanecessem na mesma camada de solo que os herbicidas, posteriormente aplicados. Com isso, observaram-se sintomas de intoxicação pronunciados nas MPBs, o que é comum em plantas jovens devido ao pouco desenvolvimento do tecido vegetal facilitar a dinâmica dos herbicidas nas plantas.

Para minimizar a intoxicação das MPBs pode-se aplicar herbicidas antes do plantio com posterior incorporação (pré-plantio incorporado - PPI). A escolha dos herbicidas deve se dar em função da físico-química das moléculas, de modo que se tenha opção de uso para todas as épocas do ano (seca ou chuva). Assim como para também atender a diversificada flora daninha típica das culturas nos trópicos.

A resposta ao problema, certamente, está em manejos específicos que permitam diminuir o período de convivência entre as MPBs e os herbicidas no solo. As aplicações de herbicidas em plantio pré-incorporado (PPI) parecem ser uma prática interessante, pois o período em que a molécula herbicida fica disponível no solo ocorre antes do plantio das culturas.

A aplicação de herbicidas em PPI é usual em áreas de alta infestação de plantas daninhas, mas seu sucesso depende da incorporação do herbicida no solo e também do tempo mínimo de espera até o plantio, que pode ser de até 60 dias. As aplicações do herbicida em PPI minimizam o banco de sementes de plantas daninhas no solo e as infestações posteriores são menos severas. Se o transplante das MPBs for realizado nesse período, as plantas da cultura serão pouco prejudicadas pela interferência imposta pelas plantas daninhas, mesmo sem a necessidade de aplicar herbicida imediatamente ao plantio (Figura 3).

Após o plantio, não deve ser aplicado herbicida de imediato, permitindo que as MBPs se estabeleçam apenas influenciadas pelas aplicações dos herbicidas aplicados em PPI. Com isso, a seletividade dos tratamentos é melhorada e as mudas se desenvolvem melhor.

Entretanto, devido à diversidade e à densidade populacional da flora daninha presente nas regiões tropicais, há necessidade de complementar as aplicações em PPI, quando as MPBs tiverem no segundo mês após o transplante. A escolha dos herbicidas para uso em pós-emergência deve também seguir as características físico-químicas das moléculas. Assim, o produtor terá opções de uso em todas as épocas do ano, ao mesmo tempo em que também atenda a diversa flora daninha.

Com isso, o manejo complementar com herbicida poderá ser direcionado em pós-emergência das infestantes, se necessário após o primeiro mês do transplante. Nesses casos, a aplicação do herbicida será realizada quando as mudas já estiverem mais desenvolvidas, aproximadamente 40 dias depois do transplante (plantio), por consequência, com as estruturas do tecido vegetal mais desenvolvido.

Nos plantios tradicionais da cana-de-açúcar, os herbicidas pós-emergentes são aplicados depois do segundo mês da instalação do canavial (após “quebra lombo”) e mesmo assim são seletivos à maioria das cultivares. Pelos experimentos preliminares realizados no IAC, observou-se que as plantas oriundas de MPB apresentam porte similar às plantas originadas de toletes quando ambas atingem 40 dias de desenvolvimento.

Os estudos sobre o melhor método de controle de plantas daninhas em sistema de plantio com MPB ainda não está elucidado. Mas, a aplicação de tratamentos herbicidas com antecedência ao plantio e em complemento após os 40 dias do plantio das MPBs tem demonstrado seletividade.

Figura 2 - Proposta para aplicação de herbicidas em sistema de plantio de cana-de-açúcar com mudas pré-brotadas (MPB). Instituto Agronômico de Campinas, Centro de Cana, Ribeirão Preto, 2014

Figura 3 - Campo plantado com MPB após 60 dias da aplicação e incorporação (PPI) de herbicidas. Instituto Agronômico, 2013


Este artigo foi publicado na edição 185 da revista Cultivar Grandes Culturas. Clique aqui para ler a edição.

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