Características e uso de microtratores e motocultivadores

A agricultura familiar é, sem dúvida, de vital importância econômica e social do espaço rural. Sua característica básica é a íntima relação entre trabalho e gestão, onde a direção do processo produtivo é conduzida pelos proprietários, com ênfase na diversificação produtiva, na durabilidade dos recursos e na qualidade de vida.

Assim como em demais setores, a agricultura familiar buscou meios de se tornar mais produtiva e para isso lançou mão da mecanização agrícola. Um dos aliados nessa busca foi o motocultivador. Esta máquina demonstrou ser eficiente e versátil pois pode ser utilizado na maioria das operações agrícolas desenvolvidas em pequenas áreas, desde o preparo do solo até controle de pragas e ervas daninhas.

TRATORES NA AGRICULTURA BRASILEIRA

Estima-se que o Brasil possua atualmente mais de 850 mil tratores agrícolas em operação (IBGE). A maior concentração está no Sul, onde o Rio Grande do Sul se destaca ocupando a primeira posição. O gráfico a seguir apresenta a frota de tratores dos estados mais expressivos.

Gráfico 1. Quantidades de tratores por estado brasileiro.

Fonte: Adaptado de IBGE, 2007

Dentro desse montante, a quantidade de tratores de potência inferior a 100 cv representa quase 70%. Em estados com relevo e hidrografia desfavoráveis a grandes lavouras, a exemplo de Santa Catarina, os tratores de pequena potência e motocultivadores são largamente empregados, especialmente em propriedades de até 20 hectares. Os três estados da Região Sul destacam-se por apresentar elevada porcentagem de tratores de potência inferior a 100 Cv, sendo que em Santa Catarina esse valor supera os 86%. O Gráfico 2 apresenta a distribuição para a Região Sul.

Gráfico. 2. Porcentagem de tratores com potência inferior à 100 Cv

Fonte: Adaptado de IBGE 2007

Em outra análise do senso (IBGE) constatou-se que Santa Catarina possuiu 35% de sua frota de tratores com potência abaixo de 20 Cv, possivelmente motocultivadores, caracterizados pela faixa de potência. Assim, em temos numéricos, possivelmente existam mais de 24 mil tratores de duas rodas no estado.

OS MOTOCULTIVADORES

As políticas de incentivo do governo para a instalação de fábricas no Brasil impulsionaram as vendas de motocultivadores entre os anos 70 e 90. O fabricante Kubotta Tekko do Brasil foi a de maior expressão naquele momento e difundiu seu produto, o Tobatta, que hoje é o nome popular atribuído aos motocultivadores, especialmente na região Sul do Brasil.

Segundo informações da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) a produção de motocultivadores atingiu seu pico em 1986 quando foram comercializadas mais de 7 mil unidades em território nacional. Em sua última contagem, no ano de 2011 esse valor foi de 1.350 unidades. Atualmente há uma diversidade de marcas no cenário nacional, apresentadas no Box 1.

Box 1 – Principais marcas de motocultivadores encontrados no Brasil

Marca

Modelo/Potência

Foto

Yanmar-Agritec

TC-14 / 14 Cv

Arrefecimento: à água

RPM: 2400

Combustível: Diesel

Fonte: http://www.agritech.ind.br/site/pt/produtos/TC14.asp?seg=3

Tramontini

NG 18 / 18 Cv

Arrefecimento: à água

RPM: 2200

Combustível: Diesel

Fonte:

http://www.tramontini.com.br/agricultura/produtos/microtratores/GN18-Rotativa

Kawashima

ZT 15 / 15 Cv

Arrefecimento: à água

RPM: Não Disponível

Combustível: Diesel

Fonte:

http://www.mcmaquinas.com.br/area/produto.asp?intP...

Koyote

2218 / 18 Cv

Arrefecimento: à água

RPM: 2200

Combustível: Diesel

Fonte:

http://www.coyote.ind.br/microtratores.html

Bufallo

BFG 920 / 6,5 Cv

Arrefecimento: à ar

RPM: 3600

Combustível: Gasolina

Fonte: http://www.brasutil.com/produto/Motocultivador-a-G...

Toyama

TE700 / 7 Cv

Arrefecimento: à ar

RPM: 3600

Combustível: Gasolina

Fonte: http://www.toyama.com.br/produtos_det.asp?cod_categoria=46&cod_linha=8&cod_sublinha=45&cod_produto=325

CARACTERÍSTICAS CONSTRUTIVAS

Os motocultivadores comercializados no Brasil possuem peso variando entre os 200 e 450 Kg, apresentam caixa de marchas de quatro velocidades à frente e uma à ré, com a opção de reduzida. A maioria utiliza motores a diesel, monocilíndricos e refrigerados a água. Normalmente são empregados motores com potência entre 6cv e 18 cv e uma capacidade volumétrica entre 250 e 500 centímetros cúbicos com um regime de funcionamento máximo entre 2000 e 3600 rotações por minuto.

Essas máquinas são compostas por um eixo com duas rodas, se assemelhando com a tração animal, onde o operador caminha na parte posterior de determinado implemento comandando o motocultivador através de prolongamentos, denominados rabiças. Grande parcela dessas máquinas no Sul do Brasil é empregada no transporte de carga e pessoal, através da adaptação de implemento que possibilita a condução na posição sentada, acrescentando-se para isso, uma carreta articulada.

Em sua concepção inicial, esta máquina limitava-se à operação de capina, utilizando para isso, enxada rotativa acoplada à parte traseira do motocultivador, abaixo das rabiças e à frente do operador.

Atualmente outras configurações de trabalho, através de implementos e acessórios, garantem a aplicação do motocultivador em uma diversidade de operações agrícolas, principalmente no cenário da agricultura familiar.

CARACTERÍSTICAS OPERACIONAIS

A partida do motor dos microtratores, na maioria dos casos, é manual por manivela. O movimento circular da alavanca (uma a cinco voltas) é necessário até o início da ignição do combustível e continuidade da rotação do motor.

Tanto na configuração para operação em pé como sentado, o sistema de direcionamento desta máquina é por embreagens existentes em cada uma das rodas de tração, ou seja, aciona-se a embreagem de uma roda e a outra traciona e direciona a máquina. O resultado do acionamento, ou seja, a direção que o motocultivador irá tomar depende do relevo. Assim há uma inversão do comando ao passar-se de uma aclive para um declive. De modo geral, a operação de um motocultivador exige a manipulação, às vezes simultânea, de diversos comandos.

ASPECTOS ERGONÔMICOS

Pela concepção original da máquina, por volta de 1940, no Japão, os comandos foram projetados para operações em pé. Pela adaptação para a utilização de implementos na posição sentada, a nova postura impôs severas limitações ao operador. As distâncias dos comandos, incluindo alavanca de troca de marchas, embreagem e freio excedem as distâncias ideais e máximas orientadas por bibliografia qualificada em ergonomia.

A posição sentada também impõe um desvio no punho do operador (desvio ulnar) que, aliado a vibrações podem provocar lesões neste membro. O distanciamento dos comandos e a necessidade de espaço necessário à rotação das rabiças exigem do operador esforço na coluna vertebral.

O peso dos comandos também constitui fator de risco ergonômico. Em comparação realizada entre trator de volante (com direção hidráulica) e o motocultivador, em condição parado em marcha lenta, demonstrou-se que o esforço do operador do motocultivador ultrapassa em 10 vezes o necessário para mover o volante do trator.

RUÍDO

Estudos realizados pelos autores evidenciam que, em rotação nominal de trabalho, os níveis de pressão sonora (ruído) superam os 90 decibéis (dBA). Tal intensidade sonora, segundo NR 15, exige a utilização de protetor auricular para uma carga de trabalho de oito horas diárias.

Analisando-se mapas de distribuição de ruído, construídos no software Surfer, evidenciou-se que, à partir do escapamento do motocultivador a propagação do som mantém intensidade potencialmente perigosa mesmo à metros de distância do seu ápice. Pode-se concluir que auxiliares que encontram-se nas proximidades da máquina ou pessoas embarcadas na carreta do motocultivador estão também sujeitas à riscos ergonômicos gerados pelo ruído.

ACIDENTES COM MOTOCULTIVADORES

Em estudo realizado pelos autores, comparando-se a usabilidade de um trator modelo Valmet 785 com um motocultivador modelo Kubota Tobatta 16Cv e apontou-se uma das prováveis causas de acidentes com os motocultivadores.

Foi colocado em frente a cada máquina, em momentos alternados, um painel iluminativo composto de uma prancha de 2m x 0,3 m com 4 lâmpadas, sendo uma em cada extremidade e duas no centro (uma sobre a outra). Com a máquina em rotação de trabalho, eram ligadas aleatoriamente as lâmpadas, simbolizando o surgimento de um obstáculo à ser desviado. As lâmpadas centrais indicavam o terreno, se aclive ou declive. A simulação mostrou que o erro de acionamento do motocultivador para desviar os obstáculos foi 49,1% enquanto que para o trator foi de 5,7%.

O erro percentual demonstrou que no motocultivador a reação a um obstáculo exige maior carga mental, pois leva em consideração não somente a posição (direita ou esquerda) mas também a condição de aclive ou declive do terreno, o que não é necessário no caso do trator. A experiência dos usuários na utilização de outros veículos, como automóveis, pode ter influência na melhor resposta ao estímulo para o trator.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A importância do motocultivador e sua contribuição para o desenvolvimento agrícola, especialmente na agricultura familiar, é indiscutível e serviu de marco em termos de produtividade de pequenas propriedades. Contudo, seus aspectos construtivos e operacionais impõem uma série de restrições ergonômicas ao operador que deve tomar cuidados para a preservação de sua saúde e integridade física. Novas propostas de implementos e dispositivos mais seguros e ergonômicos podem dar uma sobrevida a essa máquina cuja concepção inicial já passa de meio século.



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