Novas opções de morango italianas podem ampliar base genética do plantio no Brasil

O cultivo do morango no Brasil encontra-se em plena expansão, sendo registrado aumento de área cultivada em praticamente todas as principais regiões produtoras (Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) e em novas áreas, como nos estados do Espírito Santo e Bahia, onde é cultivado em regiões de altitude elevada. Grande parte deste crescimento pode ser atribuída às pesquisas fitotécnicas, que nos últimos anos desenvolveram novos sistemas de produção e cultivares cada vez mais adaptadas às condições climáticas particulares de cada região.

Aliada aos resultados obtidos a partir da produção científica, a globalização da informação constitui uma ferramenta muito importante na difusão das novas tecnologias no mundo. Uma demonstração disso é que atualmente grande parte dos produtores brasileiros utiliza cultivares desenvolvidas em outros países como Espanha e Estados Unidos, introduzidas no mercado brasileiro nos últimos 25 anos, bem como mudas importadas da Argentina e do Chile.

Inseridos no contexto de globalização de informações e na busca por contribuir cada vez mais com esta cultura, alguns pesquisadores brasileiros, com o incentivo governamental, através de bolsas de doutorado, encontram-se na Itália com o objetivo de identificar e avaliar novos genótipos com potencial de cultivo para as mais diversas regiões do Brasil. Esta parceria entre Brasil e Itália objetiva a introdução de novos materiais comerciais (cultivares) no país, de genótipos portadores de características genéticas de relevante importância para o uso nos programas de melhoramento brasileiros, auxiliando no processo de desenvolvimento de futuras cultivares nacionais, que possam substituir, em parte, as atuais cultivares disponíveis no mercado e elevar o rendimento da cultura, o que, por sua vez, refletirá no retorno econômico do produtor.

Cultivares comerciais italianas, e um grande número de seleções avançadas, já foram identificadas com evidente potencial para ampliar a base genética dos programas de melhoramento e/ou para o cultivo na região Sul do Brasil. Os genótipos selecionados estão sendo avaliados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em conjunto com outras instituições de ensino e pesquisa, como o que atualmente é realizado com a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Esta atividade é fruto de projetos de pesquisa de doutorado, que objetivam atender as necessidades da cultura e alavancar a produção de morango brasileira para um novo patamar, seja ele de qualidade, de produção ou técnico-científico.

Atualmente as unidades de observação estão distribuídas nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, sendo prevista a ampliação para outras regiões nos próximos anos. A previsão é de que, após o período de avaliação necessário, alguns materiais comerciais sejam registrados no Brasil e colocados à disposição dos produtores através de viveiros nacionais certificados. Provavelmente, em um período de médio prazo, novas cultivares brasileiras com base genética mista também estejam disponíveis no mercado.

Resultantes da ação conjunta entre os diversos órgãos de pesquisa apresentados anteriormente, merecem destaque cultivares como Jonica, Nora e Pircinque, todas em fase final de avaliação no Brasil.

JONICA

Cultivar obtida de uma polinização livre de Kilo [Rosalinda x Demetra (Irvine x Tudla)] pelo pesquisador Walter Faedi (CRA-FRF), selecionada em Scanzano Jonico (sul da Itália) no ano de 2006, com o número de identificação de PIR 04.72.21 e difundida comercialmente no ano de 2013 com o registro italiano de número 2013/2784.

É uma cultivar de dias curtos com baixa necessidade de frio, com maturação precoce, muito bem adaptada ao cultivo com mudas frescas de raízes nuas e plug plants (torrão). Apresenta frutos com massa média constante durante todo o período de produção. Uma característica que a distingue das demais cultivares é a manutenção das pétalas no fruto maduro durante o período invernal de produção.

Apresenta plantas com um desenvolvimento de novas coroas durante o período de produção de médio a elevado, hábito vegetativo compacto, médio vigor, produtividade de média a elevada, floração precoce com colheita aproximadamente dez dias antes de Candonga, que é a cultivar mais utilizada no sul da Itália. O fruto apresenta elevada massa média, formato cônico regular, boa firmeza de polpa, cor vermelho-brilhante, elevada consistência e média acidez (Tabela 1).

Figura 1 – Jonica: planta sem produção e diferentes cortes da fruta

NORA

Cultivar obtida através do cruzamento entre Chandler x Sel. 91.143.5 (86.288.1 x Cortina) pelos pesquisadores Walter Faedi e Gianluca Baruzzi (CRA-FRF) e desenvolvida em conjunto com alguns órgãos de pesquisa italianos (CRA-FRC, Alsia-Basilicata, Università della Basilicata, Università di Palermo e CRPV-Cesena), sendo a mesma selecionada com a identificação MT 99.20.1 na região do Metaponto (sul da Itália) no ano de 2001, e difundida comercialmente no ano de 2008, sob o número de registro italiano 2009/0001.

Cultivar de dias curtos com baixa exigência em frio e maturação precoce muito adaptada à região meridional, e outras regiões em cultivo protegido. Apresenta planta com elevada rusticidade e frutos com formato muito regular devido à elevada fertilidade polínica. A consistência de polpa pode ser reduzida em períodos de elevadas temperaturas e tende a uma redução de massa de frutos no período final de colheita.

Plantas com médio desenvolvimento de novas coroas, hábito vegetativo intermediário, vigor médio com produtividade de média a elevada. A floração é considerada precoce com frutos de formato alongado de coloração vermelho muito brilhante, polpa vermelha, média consistência e acidez de média a baixa (Tabela 1).

Figura 2Nora: plantas em produção e diferentes cortes da fruta

PIRCINQUE

Cultivar obtida através do cruzamento entre Ventana x Nora pelos pesquisadores Walter Faedi e Gianluca Baruzzi (CRA-FRF), selecionada na área de experimentação de Scanzano Jonico (sul da Itália) no ano de 2006, com a identificação de PIR 04.228.5 e difundida comercialmente no ano de 2010 sob o número de registro italiano 2010/35654.

Cultivar de dias curtos com baixa exigência em frio com maturação de frutos precoce, muito bem adaptada às condições meridionais de cultivo tanto em cultivo com mudas frescas de raízes nuas ou com torrão. Apresenta plantas com elevado vigor principalmente em solos com elevada fertilidade, sendo necessário adequado aporte nutricional. Cultivar adaptada a terrenos não fumigados (prática comum na Itália). Frutos de formato cônico alongado e elevada massa média durante todo o período de produção. Pode apresentar coloração desuniforme da base dos frutos no período produtivo invernal.

As plantas apresentam elevado desenvolvimento de novas coroas, hábito vegetativo elevado, com vigor muito elevado e produtividade média a elevada. A floração é precoce similar à da Ventana, frutos com massa média elevada, formato cônico alongado e muito regular, elevada firmeza, coloração vermelho-brilhante, polpa vermelha-brilhante, consistência elevada, média acidez e muito doce (Tabela 1).

Figura 3 – Pircinque: plantas em produção e diferentes cortes da fruta

Tabela 1 - Médias dos últimos três anos de cultivo de sólidos solúveis, consistência de polpa, massa de fruto e produção por planta de cultivares de morangueiro produzidas no sul da Itália

Cultivar

Sólidos solúveis (°brix)

Consistência(g)

Massa média (g/fruta)

Produção (g/planta)

Jonica

7,6

597

24

508

Nora

8,0

570

20

348

Pircinque

8,2

635

26

534

Fonte: Banco de dados do CRA-FRF

Cabe salientar que mesmo com condições climáticas semelhantes entre as regiões sul do Brasil e sul da Itália, o sistema de produção adotado, assim como o tipo e a fertilidade de solo, diferem consideravelmente. De modo geral, o cultivo italiano é realizado em túneis altos com uma densidade de plantio alta, refletindo em moderadas produções por planta, mas elevadas produtividades por hectare. Este diferencial reforça a necessidade de identificar os materiais que possuem as características ideais para a produção e o mercado nacional, como também verificar a expressão destas características quando cultivadas nas distintas regiões brasileiras.

O ano de 2014 é o segundo de avaliação destas cultivares no estado de Santa Catarina e o primeiro no Rio Grande do Sul, sendo ainda necessários mais alguns ciclos para que se possa comprovar as principais características e averiguar as influências edafoclimáticas.

O estudo conjunto entre os principais órgãos de pesquisa envolvidos diretamente com a cultura do morangueiro, tanto nacionais como internacionais, possibilita, além, do desenvolvimento de novas cultivares adaptadas às diferentes condições de cultivo, a contribuição direta na formação de novos profissionais, que atuarão na área com maior propriedade, assim como oportuniza a introdução e o desenvolvimento de novas tecnologias, que em um futuro próximo poderão ser utilizadas pelos produtores brasileiros.

Este artigo foi publicado na edição 88 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas. Clique aqui para ler a edição.

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Michél Aldrighi Gonçalves; Maria Luigia Maltoni; Carine Cocco

UFPel; UFSM

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